domingo, 12 de abril de 2015

AS CRÔNICAS DE LUIS: LUCIDEZ E SENSIBILIDADE


As crônicas de Luis: lucidez e sensibilidade

 

O ato de escrever é sempre misterioso, inesperado.  Como entender que, de repente nos venha o desejo de colocar no papel mundos passados, nem tão passados, já que nos chegam à lembrança.

Se nos vem à memória, é que continuam presentes, é Mario Quintana que nos dá essa lição: de fato, o ato artístico é uma recuperação de perdas. Enquanto isso, a realidade está aí, diante nós, nem sempre decifrável,  nem sempre ao nosso gosto, nem sempre ao alcance de nossa percepção., de nossa capacidade de julgamento.  Fora de  nós, apesar de nós, os fatos são, as coisas são, os acontecimentos de toda ordem se multiplicam, a vida se faz, se refaz, exige posicionamentos, questionamentos. Ao nosso redor  seres humanos existem. E esses que fazem conosco a perigosa travessia de que falava Amiel, também aguardam nosso amor, nosso olhar crítico, nossa fala, nosso jeito de esclarecer um gesto, uma palavra, um detalhe, buscando entender  o aqui e agora que nos é dado viver, no pequeno instante de eternidade que nos é concedido.  E é aqui que chega o escritor, o romancista, o poeta, e sobretudo o cronista, todos comprometidos com o interrogar e decifrar a realidade,  todos  comprometidos com a verdade, e, de modo mais ou menos premente, com a beleza.


Estas crônicas de Luis Manuel Siqueira, escritas ao longo de muitos anos de uma vida rica em acontecimentos de toda ordem, não são apenas a recuperação – bela   recuperação, aliás – de perdas. São uma espécie de prestação de contas do autor para consigo mesmo, para com seus leitores que há muito tempo aguardam a alegria de as reencontrar, que há muito tempo acompanharam  o autor em suas andanças pelo Brasil, por Pernambuco em particular, marcadas por encontros e desencontros com seres, paisagens, cenários, que Luis publicou em jornais do Recife ou do interior e em seu blog. Grande viajante, grande habitante de lugares esquecidos do sertão, do agreste, de povoados nos quais ainda não chegaram o que se convencionou  chamar de conforto moderno, ai de nós, Luis parece ter aprendido a lição daquele outro  sofredor de dores alheias, o extraordinário Ciro Alegria, que nos lembrou que aqui ou ali, e sobretudo naqueles espaços distantes que descreveu, sempre, o mundo é ancho y ajeno,  vasto e alheio a nossas misérias, a incompreensão, a falta de bondade e de justiça por parte de quem poderia tornar melhor e menos alheio esse mesmo mundo,  e mais o espaço, cada vez mais utópico, da felicidade, da beleza.

 

Nesse caso, tudo pode ser motivo para a tomada da palavra e é aqui que a sensibilidade de Luis, seu jeito de sentir coisas e acontecimentos, suas experiências, vividas  no laborar a terra, no silêncio, na solidão, essa sensibilidade se junta à lucidez, ao senso critico, e reparte conosco a capacidade de julgar, de extrair do enorme espetáculo da vida, tal qual se apresenta a nós, que a observamos ou experimentamos, lições  que já o menino aprendera na dureza dos dias, quando descobriu que há crianças que não comem, que nas cidades há delas que catam  lixo, que no sertão há vidas secas, mãos estendidas pedindo, se humilhado, por conta de nossa indolência.

 

Na quase prestação de contas que é este livro tudo cabe, paisagens e seres humanos se misturam,  agem e nos dão lições. De beleza, de resistência. Vive aqui, sobretudo uma grande galeria de personagens, seres humanos originais ou comuns, que por um momento ou de forma duradoura, indelével,  atravessaram a vida do autor. Tipos inesquecíveis como seu próprio pai, exemplo de amor, de coerência, de inteireza, de integridade, de retidão. Que acrescentou uma pedra à construção do mundo, fez menos sofridas as gentes do nordeste, pela profissão que escolheu e pelo modo amoroso e eficiente como a exerceu. Pessoas que criaram beleza, como Luiz Gonzaga, cantor maior, da miséria e do encanto da paisagem do nordeste, da coragem do homem do nordeste. Como Celina de Holanda que cantou e viveu lições de amizade. Ou pessoas simples, anônimas, como o velho pescador no Rio S. Francisco, conhecedor de tantas mágicas, belas misteriosas histórias Como o cantador de feira, ou o dono da venda em povoado do interior, que fornece mercadorias a quem não poderá pagar. Pessoas como as duas velhas senhoras varrendo a calçada da cidadezinha, e continuam impassíveis quando cai a chuva, felizes, em volta inesperada à infância.

 

Na apresentação do livro, Luis Siqueira avisa ao leitor o que o espera: lerá “crônicas sobreviventes”, isto é, o que restou de uma época, de pedaços de vida que o tempo não conseguiu destruir.  Que continuam vivos, vencendo a talvez banalidade do presente, companheiros do cotidiano, recuperados pela fala criadora do poeta, que agora nos convida a partilhar um passado e a usufruir o que dele restou, enquanto testemunho de um ser humano com o qual comungamos, no tempo de uma leitura. Obrigada, Luis.

                                         Luzilá Gonçalves Ferreira

                                         Poço da Panela, abril de 2015.

 

segunda-feira, 23 de março de 2015

O FIM DE UM BLOG DE CRÔNICAS





CRÔNICAS SOBREVIVENTES

Durante vinte anos eu retirei da terra o meu sustento. Ora da pequena mineração de pedras preciosas, ora da agricultura. Foram anos difíceis e marcantes. Ao longo desse tempo, escrevi para alguns pequenos jornais do Sertão do Sub-médio Rio São Francisco, entre Pernambuco e a Bahia, onde vivi. Eram crônicas sobreviventes. Depois, em jornais e revistas várias, em sites de literatura na internet, nos blogs Assum Preto e no que leva o nome desta coletânea. A primeira e última.

Aqui estão reunidos alguns daqueles artigos, dentre outros inéditos. São frutos do calor das terras secas e do silêncio dos caminhos percorridos. Um pouco do que vi e senti dos perfumes do mundo. Perfumes que o vento trouxe e que depois levou para bem longe, junto comigo.



Para download em PDF  no seguinte link:



(A todos os leitores e os que aqui deixaram seus comentários, o meu sincero agradecimento.)

segunda-feira, 9 de março de 2015

EMPOWERMENT





MORADORES EM EQUADOR-RN EM FILA PARA CONSEGUIR ÁGUA POTÁVEL - FOTO: ANDERSON BARBOSA/G1


Um dos maiores constrangimentos que passei na vida, foi quando me pediram para averiguar a real necessidade de uma comunidade rural no Sertão pernambucano que pedia, a um programa do Governo do Estado e do Banco Mundial, a construção de banheiros em suas casas.

Eu era coordenador regional do Programa, mas também fazia fiscalizações de campo junto com a equipe multidisciplinar que chefiava.

Cheguei de tardezinha num vilarejo no Município de Jatobá, e perguntei pela presidente da associação comunitária. Fui então apresentado a uma senhora com idade de ser minha avó, que me recepcionou sorrindo de felicidade. Solicitei então que reunisse os associados. Para a minha surpresa, eram todas senhoras idosas como ela. Vieram saindo de suas casas, arrumando o lenço na cabeça, e se posicionaram ao meu redor. Umas vinte, salvo a memória não me falha.

Era exigência do Banco Mundial, o que eles chamam de “empoderamento” das comunidades na escolha de seus projetos. Traduzindo: dar o poder de escolhas aos beneficiários. Mas esse empowerment nascido das bundas sentadas em gabinetes refrigerados em Washington, exigia debates entre os necessitados. Quem precisava mais. Quem tinha mais fome de que. E me revoltei com seguidas reuniões humilhantes e deprimentes entre o sofrido povo sertanejo de minha terra.

De volta ao povoado. Perguntei às senhoras quem tinha banheiro dentro de casa. “Ninguém aqui”, responderam. Custei a acreditar. Perguntei como faziam as necessidades? “No mato, atrás de casa”, responderam. E fizeram questão de me levar de casa em casa para averiguar a realidade do que diziam.

Na primeira residência, eu dei por encerrada a visita técnica. A senhora que era proprietária tinha um filho tetraplégico. E era ela mesma, viúva, quem o carregava para a sentina, onde um buraco no chão fazia às vezes de vaso sanitário.

A organização WaterAid, também americana, publicou recentemente uma nova pesquisa (velha) neste último domingo, dia da mulher, onde afirma que a falta de saneamento e água potável mata mais do que Aids, Câncer de mama e Diabetes. São 800 mil mulheres que morrem por ano, por este motivo. Metade das cidades brasileiras não possui saneamento básico. Água potável, então, é uma calamidade no nordeste brasileiro, até mesmo nas capitais.

“Doutor, venha ver as outras casas!”, pediram-me as senhoras. Respondi que não precisava mais ver nada. “E o senhor vai aprovar os nossos banheiros?”


Já estava ficando escuro, e elas não perceberam as minhas lágrimas.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

QUEM TEM SEDE BEBE PETRÓLEO



(Andy Singer)

Há muitos anos que os alunos iniciantes dos cursos de Geologia das universidades federais recebem o assédio da Petrobrás, que oferece gordas bolsas de estudo aos que se dedicarem, desde o início, à colaboração junto a professores e projetos do interesse da empresa e patrocinados para ela. Assim, ao longo do tempo, os cursos de Geologia se encheram de “Petroleiros”, como são chamados, um bando de garotos cooptados por uma visão deturpada da própria profissão e da vida.

Quando me vi forçado a fazer um mestrado, fui alertado por um eminente professor da USP do quadro deplorável que eu iria encontrar na academia - Mas sodomia moral é assunto para outra crônica. Eu fiquei indignado ao ver o esvaziamento das outras importantes disciplinas do curso de graduação, que sequer conseguiam a atenção dos estudantes, nem projetos de pesquisa ou estagiários. 

A realidade continua a mesma. É fruto de governos míopes, sobretudos os petistas, que possuem grande respaldo entre os professores acadêmicos que adoram projetos financiados e, imperialisticamente falando, de mão de obra barata para executá-los.

Mas o tempo, é o senhor da razão. Mas a verdade, segundo meu velho pai, “É como um diamante na lama: quando bate o sol ele se denuncia”, secou Cantareiras. Secou barragens, secou açudes, hipocrisias e argumentos vazios.

De repente, o país experimenta o drama do estresse hídrico ao qual sempre esteve subjugada grande parte do povo nordestino. E agora, a incompetência e irresponsabilidade do governo federal mostram sua face à nação, ampliada na coincidência dos anos de pouca precipitação e ausência de planejamento estratégico dos recursos hídricos em administrações corruptas e incompetentes.

Em Pernambuco, o drama hídrico continua o mesmo de sempre. Obras incompletas ou paralisadas integram nada a coisa nenhuma. A cidade de Arcoverde padece há anos de um racionamento perverso, embora situada próxima da Bacia do Jatobá, rica em água subterrânea. Ali, um paliteiro de poços público abandonados aguarda providencias que nunca chegam.

Coragem política para implementar ações de integração de sistemas hídricos locais são deixadas de lado, em detrimento de panacéias de transposição e caminhões pipas a distribuir favores - as novas frentes de emergência.

Agora o Brasil tem sede? Beba petróleo.




terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

ROGAI POR NÓS





Mikhail Bakhtin, filósofo russo, estudioso de literatura e da linguagem, ao estudar as manifestações populares greco-romanas antigas, as representações, códigos e manifestações culturais das feiras medievais, construiu aquilo que denominou: Teoria da Carnavalização. Segundo Bakhtin, ela é composta por quatro elementos:  a Inversão, Excentricidade, Familiarização e Profanação. Sendo a Profanação, a principal delas. Assim, as restrições, leis e proibições, que sustentam o sistema e a ordem da vida comum, revogam-se durante o carnaval.

 “revogam-se, antes de tudo, o sistema hierárquico de todas as formas conexas de medo, reverência, devoção, etiqueta etc.”.

Bakhtin estudava a linguagem da cultura popular, suas raízes e motivações baseadas no riso, no burlesco, nas paródias: em toda ambivalência da vida que era traduzida pela linguagem humana na sua forma mais primitiva e original. Todavia, Ele era um homem recatado, até religioso, um intelectual raro e profícuo. Ainda hoje as suas obras são estudadas. Não obstante ter nascido de família nobre, morreu na miséria nos anos 1970.

Mas no Brasil, Bakhtin é fonte distorcida de citação da grande maioria dos acadêmicos brasileiros - sobretudo daqueles que não gostam de dar aulas, nem de estudar, para justificar suas idiossincrasias políticas e filosóficas da putaria, da imoralidade geral, da ditadura do relativismo - mesmo relativismo aético que hoje governa a nação.

Brasil: terra de carnaval eterno. Terra de sucessão de erros e vícios históricos. Terra de desigualdades várias. Terra de Macunaíma autofágicos, do canibalismo de valores, de princípios e do Belo.

Brasil: Uma bala perdida a atingir pessoas nas ruas, uma obra superfaturada, um menino arrastado num carro alegórico por bandidos, até a morte. Um buraco que engole homens sérios e honestos, junto com um turbilhão de trios elétricos, confetes e serpentinas.


- A Benção, São Bakhtin!

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

VOLTA PRA CASA



(Foto de Aziz Ab'Saber)

A benção pai, que não lhe escuto. A cadeira vazia de minha mãe. A irmã doente: todos no cemitério? E eu que um dia desses brincava aqui na rua com ponteiras de ferro e dinheiro de embalagens de cigarro? No cemitério? E meus amigos irmãos que corriam comigo as campinas floridas no tempo chuvoso, catando crisálidas para fazer adivinhação? Tomando banho de bica nas trovoadas. E os tios cuidadosos, os amigos de noite, nas cadeiras, nas calçadas, falando do mundo e da vida e seus malassombros: cemitério? Qual o que!

O filho de Dona Antônia que sentou praça e lhe mandou a primeira televisão da Vila. O mesmo que me deu dinheiro pra viajar no ônibus que eu nunca mais voltei?

Para onde foi Ritinha Dois Vestidos, que era minha namorada e também paixão de minha vida e meu amor imenso de infância? Ingrata que casou com um soldado e apanhava dele, embriagado, e que largou para trabalhar de Monga que vira macaco num ônibus velho, mundo afora, e por quem derramei um açude de lágrimas. Cemitério? Cemitério também?

Meus cadernos cheios de madrigais. Meus discos arranhados. Coleção de planos de vencer na vida e ficar rico e ser feliz e famoso e voltar um dia pra ajeitar a vida de todo mundo, com dinheiro - dinheiro pra todo mundo nunca mais precisar de dinheiro. Para onde foi isso tudo?

E num dia aziago, quente, cheio de vento empoeirando as vistas, chego e chamo pelo nome das pessoas e ninguém responde, caralho! Agora que eu trouxe dinheiro pelo menos pra fazer uma festa, minha gente! Apareçam! Pra onde foi todo mundo? Para onde foi a minha vida, meu Deus do céu?

 - Ô de casa! Ô de casa!



(Luis Manoel Siqueira - FAREWELL ACAJU - Inédito)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

MEU NOME É OZYMANDIAS





Tudo é vaidade, debaixo do sol, diz o livro de Eclesiastes. Ontem o Egito, Grécia, depois Roma e hoje Nova Iorque. Portugal já foi dona do mar. Hoje tem saudade de tudo o que foi. E a poderosa Europa vive com medo do próximo atentado muçulmano.

O homem se embriaga com o poder e seu tempo, enquanto não percebe que um vento interior lhe destrói a vida ou as vísceras, em algum mal secreto ainda em gestação. Que rei, que imperador, que empresário, que milionário? Quem pode acrescentar um dia à sua vida?

Lá está uma fogueira na beira da praia. Queimam o corpo de um afogado no mar. Percy Shelley escreveu um poema que lhe justificou a vida: Ozymandias. Virou um clássico. Mas nenhum poderoso gosta de ler.

Ozymandias, apelido grego para o faraó Ramsés II, é um recado para os abutres do governo petista de hoje e de sempre, no Brasil. Estas hienas que disputam a perpetuação do poder e esquecem suas vidas limitadas, de seus tumores secretos, ainda no recôndito de seus cromossomos mesquinhos e vis.

De vez em quando um coração pára. Um pulmão sangra. Uma radiografia assombra, um avião cai. E um mal estar, um desmaio, um desengano médico, se curva diante do anjo da morte. E do sepultamento na areia do tempo.

Shelley foi cremado na praia. Mas não o seu poema. Ele é uma sentença a atravessar os séculos.


OZYMANDIAS

Eu encontrei um viajante de uma antiga terra
Que disse:—Duas imensas e destroncadas pernas de pedra
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia
Meio enterrada, jaz uma viseira despedaçada, cuja fronte

E lábio enrugado e sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor bem suas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.

E no pedestal aparecem estas palavras:
"Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem as minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!"

Nada mais resta: em redor a decadência
Daquele destroço colossal, sem limite e vazio

As areias solitárias e planas espalham-se para longe.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

UM MÁGICO DE CIRCO POBRE



Harry Houdini


“Tomara que não chova”. Era assim que chamavam um circo mambembe, sem lona de cobertura. Vi muitos deles pelas praias de Pernambuco, nas férias de janeiro. Vagavam de praia em praia armando seus trapos, em caminhões velhos. Eram palhaços pornográficos, malabaristas esquálidos, tristes cantoras grávidas. Mas era um circo, e aos nossos olhos de criança, um lugar de alegria.

No dia seguinte aos espetáculos, saíamos a cantarolar as cantigas imundas e engraçadas dos palhaços, e a imitar seus trejeitos, enquanto íamos buscar águas nas cacimbas públicas. Anos 1960: Itamaracá, Maria Farinha, Pontas de Pedra, Praia da Conceição.

Mas a melhor estória de mágico de um circo pobre me foi contada pelo meu sogro. Acontecido e presenciado por ele nos anos 1940, num bonde do Recife.

Viajava ele e o pai, quando entrou um passageiro, proprietário e mágico de um circo mambembe recém chegado a cidade e instalado num bairro da periferia. Carregava consigo, debaixo do braço, uma galinha – o que era proibido num transporte público.

Ao passar o cobrador e vê-lo com a galinha, reclamou e pediu que ele saltasse imediatamente. O homem lamentou. Olhou a galinha, beijou-lhe a cabeça e a jogou pela janela do bonde, diante dos olhos de todos os passageiros.

Alguns minutos depois, todos perceberam que o velho artista continuava sentado no banco e, para o espanto geral, continuava com a galinha debaixo do braço. Todos os passageiros sorriram admirados. Volta o cobrador do bonde:

- Eu já não lhe disse que é proibido carregar animais no bonde?

O velho lamentou novamente. Pegou a galinha nas mãos e  outra vez jogou-a pela janela do bonde, à vista de todos.

Mais adiante, ao chegar na sua parada, ele desceu e passou a caminhar pela calçada. E para a surpresa e admiração geral, ele sorria e acenava aos passageiros do bonde, enquanto carregava a galinha – a mesma galinha - debaixo do braço.


Há uma coisa que eu descobri sobre os circos pobres e seus artistas. De tanto mentirem, em suas artes ilusórias de magia e palhaçadas, suas indumentárias e práticas ficam impregnadas nas suas vidas e almas. E tudo aquilo que fingiram ser, vira realidade no cristal das nossas lembranças.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

SOBRE A INDIFERENÇA



I.

Um filhote de onça, ali na frente dele,  no interior da pequena gruta de arenito. Caminhou devagar na sua direção. Pretendia apenas fazer um carinho. Foi quando sentiu nas costas um par de patas com unhas afiadas rasgando sua pele de cima a baixo. A onça mãe, que vigiava o filhote de cima de uma escarpa, pulou para defender sua cria. Levaram o turista irresponsável para um hospital. Costurar as costas. Parque Nacional da Serra da Capivara, Sul do Piauí. O fato me foi contado por um guia local.

II.

A região era no Agreste de Pernambuco. Águas Belas. A cidade toda fica dentro da reserva indígena Funil-ô. O trabalho era locar um poço tubular para abastecer o local das festas do Ouricuri. Fomos acompanhados pelo cacique. Depois de fazer o levantamento geoestrutural básico, dissemos a ele que precisaríamos entrar na área reservada do Ouricuri, pois havia indícios de melhor sucesso no seu interior: Fraturas abertas nas rochas. Cursos de água alimentando as fraturas. O cacique não autorizou. Disse para locarmos fora. Não dentro. Ninguém pode entrar no local sagrado do Ouricuri. Só os índios. Só no tempo do ritual. Mas, e a água? Ele não queria um bom local para furar um poço? Sim, queria. Mas que locássemos fora da área sagrada. Ninguém entrava na área do Ouricuri e ponto final. Então o poço foi locado fora. Água pouca e ruim.

III.

O velho era irreverente. Foi assim por quase toda a vida. Menos na velhice, quando a idade sabe pesar no corpo e na consciência. Contou-me que certa vez, convidado a visitar a uma sessão espírita, zombou do médium na exata hora de uma incorporação. Foi repreendido pela entidade e saiu de lá gargalhando. Na mesma noite, caminhando pela sua fazenda, um galho de pé de café perfurou-lhe o olho. Teve de vir com urgência para o Recife de avião, para tentar salvar a visão que, por muito pouco, não perdeu. Muitos anos depois, arrependeu-se da zombaria no lugar errado.

IV.

Abbé Pierre, sacerdote e uma das maiores personalidades francesas de todos os tempos, disse na imprensa, poucos anos antes de sua morte, que a sociedade daquele país estava gravemente enferma. E o nome da enfermidade chamava-se: Indiferença. O fundador do Movimento de Emaús alertou também que da enfermidade padecia toda a Europa. 

A terceira lei de Newton diz que, na natureza, a cada ação corresponde uma reação. Qual será a reação à indiferença?

Abbé Pierre era apenas um velho sacerdote doente.

Era apenas um filhote de onça numa gruta.

Era um lugar sagrado onde estranhos não entram.

Uma irreverência no local e na hora errada.

Um jornal sem respeito.


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

UM GALO DE PRESÉPIO





Triste de quem não percebe o universo que se esconde por entre algumas coincidências da vida. Há quem nunca aprende a percebê-las  e digo, nem precisa entender, que a vida não é pra ser entendida. Banho de chuva na infância é uma delícia e não precisa explicação, assim como o chocolate, sorvete, e um beijo de amor.

Era tempo de Natal e havia um presépio armado no pátio do hospital. A sagrada família, os bois, pastores, anjos, ovelhas reis magos e, em cima do telhado, um galo também de cerâmica. Os contornos dos bonecos denunciavam a origem européia, mas só o galo era absoluta e imperiosamente lusitano.

E lá estava eu, no meio da noite, a pedir aos céus pelo fiapo de vida que se desprendia de metade de um descolamento de placenta. Todo dia uma imagem para ver se o feto estava vivo. E depois da agonia... ele ainda se mexia.

Uma noite, exaurido de forças e, como sempre, de minha pouca fé peregrina, cheguei desesperado diante do presépio e pedi que todos ali me ajudassem a parar aquela agonia. Supliquei em primeiro lugar ao Verbo. Depois, uma cadeia sucessória de autoridades celestiais que saí lembrando na hora. Nome por nome, um por um:  por favor, façam que ele sobreviva! E não esqueci Gabriel, Miguel e Rafael.

Depois, contemplando o presépio, pedi a cada um dos personagens. Pedi não, implorei. Um pranto silencioso de quem não aguentava mais ver um projeto de mãe passando por tanto sofrimento. Por fim, eu confesso, pedi também ao galo. Pois, se estava ali, era porque também merecia. E bem mais do que eu, que diferente dele, gastava rastro pelo mundo e praticava o mal – mas só de vez em quando.

Cinco meses depois ele nasceu. Encheu de luz uma casa triste. Mas era de sete meses, feio, doente: vinte e três dias de UTI neonatal e duas paradas respiratórias. Sobreviveu até ao levantar desconfiado das sobrancelhas dos médicos.

Quis o Destino, que também chamam de “Providencia”, que seis anos depois, procurando curar uma gripe resistente, com tosse e dor no peito, me levasse de volta ao mesmo hospital. Na mesma época natalina. E depois de exames e radiografias e remédios prescritos, sai do prédio e me deparei com o mesmo presépio. Mesmos personagens. Inclusive com o mesmo galo, desta vez promovido de lugar, e posto honrosamente ao lado da manjedoura.

Neste exato momento, acontece a coincidência: o meu celular toca. Paro na frente do presépio para tirá-lo do bolso e atender. Então uma voz de menino me pergunta do outro lado se eu estou lembrado do passeio da tarde, para brincar com o seu avião que voa movido a elástico. Eu confirmo a promessa e desligo. Olho para o presépio aparentemente emocionado - que gripe! e agradeço a cada um. Um por um. Seis anos depois. E terminei agradecendo ao galo também.

A minha heresia de idolatria será perdoada. Eu sempre achei que o Criador era maior do que as quatro paredes de minha igreja reformada. Alem do mais, meus pecados são tantos e minha fé tão pequena, que qualquer coisinha que sobra, eles aproveitam na justa contabilidade lá de cima.

Só Deus e suas loucas ferramentas para confundir os sábios, e reacender a esperança no coração dos fracos. 

Como é belo, mágico e insólito, um galo de presépio!


(Para Pedro, meu sobrinho)


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A MARCA DA VÍRGULA




O meu interesse era encontrá-lo caminhando na avenida, pela calçada. Querer um abraço talvez fosse demais. Apenas vê-lo caminhar com o seu balançar de corpo pausado, de um lado para o outro, a cabeça meio curva, cabelos brancos finos, o paletó azul inconfundível. Seria meu presente de Natal.

Fui até a avenida onde eu costumava encontrá-lo, e de como as vezes me via e sorria, feliz, e ao me abraçar me levava a tomar um café ali perto, e comentava alguma notícia da semana, ou de seu trabalho. Como aquilo me fazia bem...

Esperei no meio da multidão que passava apresada com as compras de Natal. As lojas a tocar canções da época, as luzes piscando. Esperei, esperei. Uma espera que sabia inútil e vã. Mas que eu precisava esperar, para que o final de ano tivesse um pouco de sentido para mim.

Andei de um lado para o outro: ninguém parecido com ele. Apenas a mesma avenida cheia de gente onde eu o encontrara tantas vezes. A noite foi chegando e entrei num bar. Não é que desistira de procurá-lo, apenas a noite começava a chegar e minhas pernas estavam cansadas. Voltei para o hotel, e no outro dia, para casa, sem encontrá-lo. Mas com o sentimento da missão cumprida de, pelo menos, tê-lo procurado.

Eu guardo no dedo da mão esquerda, uma cicatriz de um grande corte feito pelo vidro de uma mamadeira que caiu no chão no exato momento que ele chegou uma vez de viagem. Quebrei a mamadeira de alegria, assim que o vi chegar. Corri para ele chorando, com o dedo ensanguentado – coitado! e ele só fez largar a mala empoeirada no chão e me levar para o Pronto-Socorro para fazer um curativo. Tenho a cicatriz daquele encontro até hoje. Queria encontrá-lo de novo, só mais uma vez, para abraçá-lo com força e mostrar a marca da cicatriz no dedo. E dizer assim:


- Olha papai, é apenas a marca de uma vírgula. Não é a de um ponto final.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

TRÊS CIDADES E O CAMINHO PARA JERUSALÉM




Numa, havia um boi enorme de manso, pelo meio das ruas. As crianças montavam em cima dele, as outras puxavam pela corda. A cidade vivia sossegada debaixo da copa dos Ficus Benjamins, onde os velhos assistiam a vida dos netos passeando no lombo do animal. Um dia, muitos anos depois, construiram uma barragem no Rio de Piranhas, e a cidade foi submersa. Eu já era grande e mesmo assim fiquei triste com a notícia. Procurei na internet alguma foto. Achei poucas: a da torre da igreja fora d’água, apontado o céu azul do Sertão.

Em outra, uma lanchonete no centro servia papa de aveia aos idosos. Prato preferido pelos escravos das dietas, portadores de dentaduras e outras próteses da velhice. Claro que tinha sanduíche de carne de sol. E também de pernil de porco, sempre com tomates e cebolas. Mas os velhos pediam papa de aveia. Criaram então o boato que a papa estava matando os idosos. E a zoada se instalou na cidade a titulo de gozação. No dia que um dos times da cidade perdeu de goleada, um radialista inventou que os perdedores tinham comido a papa na véspera do jogo.

Da terceira e última, lembro de quando fui procurado por um rapaz franzino. Pediu-me que permitisse dormir no chão da garagem da repartição publica onde eu dava consultoria. Disse que havia passado dois dias em claro, ao lado da esposa, no hospital, por causa de uma gravidez de risco. Enfim, o menino nascera. Agora precisava dormir. Nem que fosse num pedaço de chão. Disse que era vendedor de salgados numa pequena cidade vizinha. E que tinha boas referencias, e que eu procurasse conferir. Tudo o que ele queria era um pedaço de chão para dormir, pois não se aguentava em pé. Fui com ele a uma pequena hospedaria ali perto e paguei-lhe um quartinho com ventilador. Era Natal – compreende-se – tempo de gente viajando a procura de onde passar a noite.

São Rafael, Campina Grande e Arcoverde: o rosto de uma cidade é desenhado pelo povo com suas estórias. O menino na manjedoura corre nas ruas, nas escolas, nas praças, orfanatos e asilos. A distancia de Belém até Jerusalém é uma via crucis que todos nós percorremos. É a ela que chamamos de “vida”.



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

ENTRE UM DEDO E UMA COLHER





A garçonete traz o prato de sopa com o dedo polegar dentro. O encanador não possui as ferramentas adequadas. O pedreiro se irrita quando se pede que obedeça a um padrão de trabalho. Uma recepcionista de órgão federal que come um pote de iogurte fazendo o dedo como colher, durante o trabalho. Um corpo de secretárias que não sabem redigir um ofício. A oficina mecânica que não sabe estabelecer uma data para entrega de serviços, e quando estabelece, não cumpre. O vereador que só aprova uma lei se receber propina. O prefeito que não sabe administrar nem planejar o futuro. O governo federal acuado por acusações de corrupção por todos os lados. Programas inúteis. Obras paralisadas. Nação dividida.

Encontrei a amiga num ponto de ônibus no domingo. Parei o carro e ofereci carona. Ela ia dar aulas para vestibulandos no Recife. Disse da indignação das mudanças recentes: não é mais cobrado literatura e nem gramática de quem quer entrar na universidade. Apenas redação. É mais ou menos assim: você tem de fazer um bolo excelente, mas sem os ingredientes.

Eu e Flávia Suassuna fomos conversando no carro. Somos de uma geração que engolia livros. Consumíamos livros como sorvete. Trocávamos, discutíamos. Ler, para nós, era um enorme prazer.

Não sei o que seria de mim hoje, sem os livros que li. Eles formaram o que sou. Eles ainda me auxiliam em tomadas de escolhas e na interpretação e compreensão da realidade da vida.

Comentei com Flávia que, nas grandes universidades do mundo, Harvard, Cambridge, Oxford, Sorbonne, Duke, entre tantas outras, ninguém consegue sequer começar um curso sem ler, interpretar à exaustão e discutir em sala com os professores e colegas, dezenas e dezenas de livros sobre diversos assuntos. E são nessas universidades que são formados os grandes gerentes de multinacionais, médicos, cientistas de renome, ministros, presidentes de nações – a maioria daqueles que decidem os rumos da nossa civilização. Lá, literatura e gramática é mais do que obrigatório: é alicerce!

E nós, aqui no Brasil? Estamos na contramão do mundo? Por quê? Com que objetivo?

Há pouco tivemos um presidente que se orgulhava publicamente de nunca ter lido um só livro. Hoje vemos o seu partido enlameado e seu nome como avalista. A atual chefa da nação profere, de improviso, discursos ininteligíveis, quando não grita com seus  subordinados. E não precisamos de literatura...


Naquele domingo, Flávia foi dar aula, eu fui à igreja. E assim, perseveramos na fé.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

BELEZA NA ARGAMASSA



BELA CONSTRUÇÃO URBANA EM ACARI - RN

O que existe em comum entre Paris, Roma, Praga, Veneza e Madri? A beleza. E de onde ela surgiu? Por que surgiu? Que ligação existe entre a beleza e o desenvolvimento econômico, cultural e social de um povo? Eu sempre me faço estas perguntas quando viajo pelo interior do Nordeste do Brasil, e vejo as horríveis vilas de conjuntos habitacionais financiadas pelos programas de governo. Tristes casinhas de dois quartos, saleta e cozinha. Arremedos de habitações, desumanas, espremidas umas nas outras, sem espaços de circulação nem praças e jardins para as crianças.

Vamos refinar a comparação: Por que não temos cidades parecidas com as vilas do interior da Espanha e Portugal, uma vez que somos umbilicalmente unidos pela influência da cultura ibérica? Por que as nossas habitações não possuem sequer a funcionalidade e harmonia das ocas dos nossos índios, circulares e comunitárias, todas elas, utilizando os materiais da região onde foram construídas. Por que  usamos tão pouco a cal, argila, adobe, madeira, as rochas, em nossas escolas publicas interioranas? Será por que são materiais baratos demais e as empreiteiras não conseguem justificar as comissões a serem pagas?

De onde surgiram nossas cidades interioranas com casas coladas umas nas outras, com quartos sem janelas, quentes e abafadas? Ou as do tipo “caixão”, quadradas, cheias de janelas basculantes com vidro “bico de jaca”?

Em que ponto a belíssima arquitetura colonial de Ouro Preto em Minas Gerais e Olinda em Pernambuco foram interrompidas, estupradas e substituídas pela coisa nenhuma? Por que nada foi acrescentado às “urbes”, à habitação popular, da rica e brasileira maneira de se viver nos Trópicos?

Guardem-se cidades como Triunfo-PE e Lençóis-BA, a maioria restante são acampamentos macaqueados do não-sei-o-quê, que ferem os olhos e dificulta a vida de quem ali vive, atestando o rótulo de acomodação e dificuldade de criar, ousar, empreender além dos programas sociais  medíocres.

Vi muitas habitações encravadas em pés de serra no meio da caatinga, cujos terraços e alpendres ainda hoje olham com altivez para os projetos mesquinhos das habitações urbanas.

Todos os grandes impérios da humanidade usaram o sangue como tinta para registrar suas conquistas. Paris, Roma e Berlim, sabem o quanto custou erguer suas belas arquiteturas. Mas essa beleza resistiu ao tempo e, assim como um farol que irradia luz, inspira e desafia suas gerações a reconstruir o futuro, sem repetir os erros do passado. 

E nós, aqui no Nordeste brasileiro, a quem seguiremos? Qual a nossa inspiração estética? Ou não temos?




quinta-feira, 20 de novembro de 2014

INVENTÁRIO DE QUINTAL





A velha era francesa e, moribunda, aguardava o beijo da morte. O menino subia as escadas e ela pedia que lhe dessem biscoitos. “Que riqueza, que riqueza ! vou lhe ensinarr uma chanson: A si fon,fon, fon, Le petit marionette...”

- Adeus, Grand Mere!

O velho tocava fogo em tudo o que via. Dizia que o fogo restaurava a vida. No São João, soltava fogos que pipocavam no céu chuvoso. E declamava poemas tristes e melancólicos. “Já sofri muito na vida”, dizia, mas sempre tinha uma piada pronta, uma gargalhada irreverente, antes de mergulhar os olhos azuis no lago sombrio. Foi ele quem me deu o primeiro copo de cerveja no Bar Savoy. Um só, cheio de espuma amarga. E me senti um homem aos dez anos de idade. Morreu cuspindo sangue devido às negras rosas que lhe brotaram nos pulmões.

- Adeus, Manoel fogueteiro!

A moreninha que dividiu a infância do meu lado gostava de cantar. Comprávamos discos juntos, numa coleção dos anos de nossa juventude. Depois no trabalho, a desenhar formas de ouro e prata com as pedras que eu trazia dos garimpos. Um sonho de ser feliz interrompido de forma insana. O abandono dos amigos e a chegada precoce da solidão final. Da última vez que a encontrei, abraçou-me e disse: “Eu te amo tanto!”

- Adeus, minha irmã!

Adeus, Bia, Pavio, adeus Celina, Sinhorzinho. Adeus amigos demais. Perdoem minhas distancias, minhas ingratidões e silêncios. Adeus ontem e hoje e sempre a todos os que comigo passam. Adeus antes que me esqueça, que me fique oca a cabeça. (Meu pai no hospital, à noite, ao pé do meu leito, dizendo-me adeus do seu jeito).

Adeus pedras e troncos e ventos, adeus fumos, saudades e rimas:

- Passei a vida toda cortando meus pés de laranja lima.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

PRECISA-SE DE GARÇONETE





A estória acontecida de fato foi assim: uma jovem desapareceu de casa. A família, desesperada, acionou a polícia e amigos para procurá-la. O seu pai, um coronel de prestígio na sociedade, utilizou de todos os meios possíveis de encontrar o seu paradeiro. A mãe era inutilmente consolada pelas amigas.

Passaram-se semanas sem ninguém encontrá-la.

Um dia, alguém chegou com a noticia tão esperada. O coronel foi de carro até uma cidadezinha do interior, e chegando num bar da beira da pista, encontrou a sua filha trabalhando como garçonete, servindo as mesas.
Levou-a para casa e também para um médico psiquiatra, que atestou o surto e prescreveu os remédios necessários.

Um destacado empresário do setor de alimentos uma vez me disse que a diferença entre o sucesso e o fracasso de um empreendimento é tão tênue quanto é o limite entre a sanidade e a loucura. Nunca me esqueci de suas palavras e ainda hoje reflito sobre elas. A História da humanidade é repleta de exemplos de sucessos e malogros, de vitórias e tragédias. Desde pessoas a impérios. Por motivos e razões diversas, que nem todos foram devidamente explicados pelas gerações seguintes.

O escritor e filósofo espanhol Ortega y Gasset proferiu uma frase cuja profundidade de significado ainda hoje motiva artigos e estudos sobre a compreensão da realidade e condição humana:

“Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim."

Quem observa o Brasil de nossos dias, neste final de 2014, encontra um vasto campo de estudo sociológico e político, embora facilmente corra o risco de se perder num labirinto sem saída de premissas movediças e teses de fumaça.

A humanidade, assim como dupla cadeia helicoidal de DNA, tende a se repetir ao longo do tempo, mas aqui e ali acrescenta um defeito novo sobre os quais a genética tanto se debruça.

Então, um dia, seja um tiro no meio da rua em Sarajevo, ou num gesto pusilânime de um chefe de estado, o equilíbrio do estado das coisas é rompido e a História é reescrita novamente. Outra vez, de novo.


Quem viaja pelo interior do Nordeste brasileiro desde a infância, como eu, aprende um pouco a enxergar no infortúnio trágico e universal das gentes, o teatro da pantomima humana a servir as mesas em um bar na estrada.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

DE SOFISMA EM SOFISMA


AGUADEIRAS DE XIQUE-XIQUE - ( Gautherot )


Em Custódia, fui fiscalizar um projeto de poços para abastecer a população rural com dinheiro do Banco Mundial. Estavam todos completamente errados. Perguntei quem havia locado poços de forma tão absurda com dinheiro público. “Um médico candidato a prefeito”, foi a resposta. Cancelei-os todos.

Em Ibimirim e Inajá, fui fiscalizar projetos públicos de construção de diversos poços profundos. Ao chegar nos locais das demandas, percebi que todos estavam situados em propriedades privadas e não em comunidades. Os poços eram, na verdade, para políticos e apadrinhados de políticos. E o pior é que, nas imediações, já existiam diversos poços públicos paralisados e sem instalações. Cancelei todos e sugeri instalar aqueles já existiam.

Em São José do Egito, fui ver projetos de construção de cisternas de placas para abastecimento de comunidades rurais. Quem apoiava o prefeito tinha direito. Quem não apoiava, não receberia as cisternas. Alterei o projeto. Mandei refazer e incluir todos os moradores, independente da posição política.

Então, pressionado, pedi demissão.

Falta água no Sistema de Barragens Cantareira em São Paulo, e o mundo vem abaixo. Falta gestão de recursos hídricos, lá e cá. Falta vergonha na cara dos políticos de uma forma geral. Falta respeito com técnicos, engenheiros, que trabalham no serviço público e cuja opinião vale menos que um cabinho eleitoral medíocre.

A água é recurso natural que se distribui pela terra de forma cíclica e heterogênea. Segue padrões que depende de fatores climáticos e geológicos, que variam no tempo e no espaço. Isto significa dizer que cada local possui uma solução adequada para a pesquisa e armazenamento de água para consumo. E essa complexidade natural advém do simples fato que as Ciências da Terra não são exatas.

Critérios políticos e conveniências eleitoreiras influenciando decisões técnicas, somente atrasam as soluções e geram enorme sofrimento e humilhação para os mais pobres. E terminam, um dia, por atingir a todos.

A Hidrogeologia brasileira teve, no Recife, um dos seus principais berços, com nomes de técnicos de renome internacional. Mas a pequenez dos governos nunca quiseram perder a moeda com lastro na água, para se perpetuarem no poder.

O atraso e superfaturamento das obras da transposição do Rio São Francisco é um monumento à ineficiência e inoperância das ações públicas, que teima em buscar uma panacéia que não existe. É uma prova de que o discurso e ações com matizes socialistas do atual governo petista não passa de cópias menores daquilo que sempre existiu no passado.


No mundo on-line em que hoje vivemos (e nos perdemos), o arroto de uma celebridade midiática qualquer vale mais do que a opinião de um técnico sério. E assim, de sofisma em sofisma, à serviço de quem distorce a verdade em favor de seus cargos públicos, vamos sendo tragados por um caos silencioso e de efeitos futuros devastadores.