sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

DIREI QUE ME LEMBRO DE VOCÊ

  

A mãe de Tereza faz 91 anos de idade hoje. Ela me disse que a sua memória anda falhando. Recorda o tempo em que foi da Escola Normal,mas não se lembra de quem lhe telefonou na noite anterior.

Depois da infância e para sempre, somos reféns da memória. Por isso sempre achamos melhor o tempo que passou. Assim como os nossos computadores e celulares, temos memórias distintas: uma rápida e outra fixa, essa mais indelével, onde o botão “delete” nem sempre funciona. Com a idade, a memória rápida, para os eventos mais próximos, vai perdendo a validade e, assim, vamos nos desconectando aos poucos do presente. Viramos um álbum de fotografias que anda, respira e fala.

Certa vez, quando era muito jovem, fui visitar o meu avô paterno numa casa de repouso para idosos. Ele não reconhecia mais ninguém. Uma das pacientes, uma senhora baixinha, me avistou e correu para os meus braços:

- Vicente ! Que saudade! Quanto tempo esperei por você, meu filho! Por que você deixou sua mãe esperando tanto assim? Nunca mais faça isso,Vicente!

Eu fiquei parado, sem ação, até uma enfermeira me explicar que há muitos anos aquela senhora havia perdido um filho num acidente de carro, e por isso a sua memória confusa lhe traía.

Somos seres misteriosos, condenados à memória. A nossa, diferente da cromossômica, que já nasce com as abelhas, com as formigas e animais, é cumulativa e determina quem seremos. Determina também as equações que usaremos para dar o balanço da vida, quando a velhice chegar. Salvo engano, era Marcel Proust quem escreveu que a memória é uma farmácia onde em suas prateleiras encontramos remédio ou veneno, como quisermos: as lembranças que precisarmos.

Que me importa quem telefonou ontem de noite? Belo era o seu vestido de festa. O sorriso ao abrir-me a porta. A noite de fogueira, os fogos no céu. Um sabor, um madrigal. Que me importa o protesto na Grécia ou a crise do governo? Escuta essa canção? Não era aquela que você gostava?

- Não era, Vicente?

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

AÇORDA, EUPHORBIA & JUANITO

 

Dois velhos portugueses. Conheci-os por acaso, no sertão. Eram duas ilhas. Francisco e Pedro dividiam suas lembranças numa mesa do clube abandonado sob um céu estrelado. Não era o céu de Angola (o céu de Angola tinha mais estrelas, segundo Francisco) nem sabia Cícero, o garçom banguelo, que Pedro tinha sangue azul.
Rabugices à parte, eram meus melhores amigos naquela cidade cheia de moscas, calor e poeira. Francisco havia sido caçador na África. Possuíra criados e uma bela casa na praia. Agora sentia saudades de tudo: do grande Salazar às fontes de água pura de sua terra. Já o Pedro era um nobre. Um lorde perdido na caatinga. Ali chegara separado da mulher, arranjara emprego público no governo do estado, conhecera uma professora primária e casara novamente. Vivia aguardando chegar a aposentadoria. Quando mais jovem, contava, tomara muito uísque com “Juanito” – hoje rei da Espanha, durante o seu exílio em Portugal.  Sabia de cor e salteado todas as famílias nobres da Península Ibérica, seus duques, seus viscondes, seus fantasmas.
Se Francisco era um exímio cozinheiro e nos preparava açordas de bacalhau, mamão regado a vinho branco, pasta de queijo gorgonzola com manteiga, Pedro recitava poemas de D. Pedro II e falava-nos de príncipes e reis com tanta intimidade, que sentíamos orgulho de tê-lo como amigo.    
Ambos odiavam o Brasil. Ambos eram casados com nordestinas. Morriam de rir dos hábitos brasileiros, mas nenhum dos dois pensava em voltar à Europa. O sonho de Francisco, o cozinheiro e caçador (ele contou-me uma vez, com certa reserva) era trazer elefantes, rinocerontes e leões d’África  para criar na floresta amazônica, fazendo ali um grande parque internacional de caça. “Mas, sabes, pá, eu cá estou muito velho, acabado, esperando a hora de morrer...”
Pedro apenas pedia outra cerveja, olhava para mim e sorria – anel de ouro com brasão de família no dedo. Dividia comigo a cada vez mais rara e fina arte de escutar, tolerar e fazer amigos.
Guardo comigo diálogos soltos, como folhas ao vento. Estórias de Padre Vieira, Felipe Egalité, a bela Ignês de Castro, e uma curiosa observação proferida por um camponês português que lutou na França durante a 1º Guerra Mundial, e ao voltar a Lisboa, comentava pelas ruas:
- “Que vin seja vinho e pan seja pão, vá lá que seja ! Mas que diabos queijo tem a haver com fromage ?”
Meus velhos amigos lusitanos. Meus companheiros de solidão sertaneja. Eu gostava de provocá-los, sempre que os encontrava juntos, cantando “Grândola, terra morena” -  canção que foi a senha da revolução dos cravos.
Um dia, Francisco resolveu se desfazer de todo o seu jardim. Chamou-me às pressas. Deu-me todas as suas plantas: mudas de palmeiras, hibiscos, jasmins, euphorbias, anonas, mudas disso e daquilo. Um jardim inteiro. Pouco tempo depois, foi embora para sempre, a contragosto, para a capital “cuidar de morrer”. Ele  teve um derrame cerebral assim que chegou, e passou a vegetar em cima de uma cama. Pedro voltou para a Europa. Recebeu uma casa como herança, levou a mulher e a filha. Soube que lá, ainda arrasta o peso de cetros e coroas milenares. E bebe a sua cerveja “Imperial” em silêncio.
Nunca mais os encontrei.
Alguns anos depois, quando os Sem-Terra invadiram a minha pequena fazenda, confiscando a produção, derrubando cercas, destruindo safras e esperanças, encontram o meu jardim completamente florido em pleno mês de agosto.
- Adeus, pá !


 

(Do "BREVIÁRIO DE HERESISAS SERTANEJAS" e Publicado na revista "ENCONTRO" do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco - Ano 22 - nº 19 - 2005)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

OS PEIXES DE EVANDRO VIANA


O estado de Pernambuco possui tradição artística que é pioneiro no Brasil. Não apenas ao que se refere aos trabalhos artísticos de nossos índios, mas sobretudo quando da invasão holandesa no Recife, onde desembarcaram vários artistas junto com o príncipe Maurício de Nassau, e ao pintarem o Novo Mundo com seus pincéis renascentistas, inauguraram um tempo de produção artística que dura até os dias de hoje. Assim os quadros de Eckhout, Post e os desenhos de Margraf ainda adornam museus de toda Europa, com vistas, paisagens, retratos de índios e bichos de um Brasil que acabava de nascer. A tradição figurativa faz parte da nossa cultura e nela se enraizou numa simbiose entre o homem e o meio ambiente. Nunca coube ao homem do trópico, o gosto europeu pela estética simbológica que teve o seu ápice no movimento modernista do início do século XX. O Nordeste é figurativo por vocação, assim como o sol forte lhe define contornos: pedras, árvores, bichos e gentes. E a natureza induz o homem daqui a pensar e agir de acordo com seus caprichos. A famosa feira da cidade de Caruaru é uma exposição viva dessa realidade estética. É também uma afirmação. Considerado o maior centro de artes figurativas das Américas, Caruaru resume o espírito de um povo e sua forma de se expressar. Porém, dos pintores de Nassau até os dias modernos, um mundo de grandes artistas entre eruditos e populares, veio produzindo arte e alinhavando essa cultura estética figurativa brasileira. Impossível citar todos. Dos velhos gravadores de cordel até um Gilvan Samico. De Bajado de Olinda, aos quadros de João Câmara, ou as talhas de madeira de Pedro Orlando da Silva o P.O.S. Das carrancas de Ana de Petrolina, às estátuas de Abelardo da Hora e Corbiniano. Figurativos por excelência, expostos hora em feiras e museus, ora nas ruas ou nos palácios. Os quadros de Evandro Viana, pintor Recifense radicado em Olinda, traduzem toda essa realidade tropical pernambucana. Em seu atelier situado no Mercado do Varadouro, ele reúne trabalhos numa permanente exposição. São figuras de peixes meio fósseis, meio estandartes de carnaval - seu tema central - com escamas coloridas costuradas uma nas outras como se fossem pedaços de couro esticados. Pelas paredes desfilam caboclos de lança de maracatus, casas e paisagens de Olinda com aquele mesmo sol que tudo incendeia e define. Seus quadros lembram os muralistas mexicanos. Seus peixes/fósseis/estandartes, falam dessa cultura nordestina cristalina: alicerce primeiro da nacionalidade. Com formação em comunicação visual e vasta experiência artística, Evandro Viana abdicou da segurança e da indolência dos empregos públicos e abraçou totalmente o seu ofício de artista, vivendo exclusivamente para pintura. Colocou-se estrategicamente como um artesão, vendendo ele próprio o seu trabalho, sem se importar com os holofotes geralmente pagos das colunas sociais ou dos salões de casas das "gentes importantes". Artista grande de Olinda e Recife, Evandro sabe da verdade maior: a sua arte caminha independente dele e do seu tempo. E no tempo será perpetuado porque possui qualidade. Não se confunde com sonhos abstratos de estranhas terras, nem serve ao mercado gigantesco e diluído do consumo inútil. Pois que é universal, sendo antes, tropical e brasileira. Pernambucana, impregnada de sol e vida. E também de estrelas, guerreiros, casas, telhados e coloridos estandartes de fósseis de peixes.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A DIFERENÇA DE UM HOMEM PARA UM CACHORRO


                         

Toquei a campainha, mas ninguém atendeu. Voltei depois de um par de horas. De dentro da casinha saiu um senhor ainda sonolento, a quem saudei: ”Louvado seja o nosso senhor Jesus Cristo!” Ele mesmo sem me conhecer, apenas respondeu com uma pergunta: ”A quem devo tão ilustre visita?” Dom Francisco Mesquita, ex-bispo de Afogados de Ingazeira caminhou até o portão e abriu. Caminhamos até o terraço, onde eu lhe falei do programa que eu coordenava: dinheiro do Banco Mundial a serviço da pobreza. Construção de poços, casas, barragens, cisternas, compra de terras. E que eu viera ali para lhe conhecer. E viera ali para lhe pedir orientação. E viera ali para admirar o homem amado em todo o Pajeú, por seu discurso firme, sua luta, retidão.
Ele resumiu os seus quarenta anos de trabalho, descrevendo em poucas palavras a obra invisível a qual se dedicara: “Ensinando a esse povo a distinguir a diferença entre um homem e uma coisa, um homem e um cachorro. E a diferença entre o que é divino e o que é humano.” Contou-me que recebia o povo diariamente nos seus aposentos, e que por vezes foi chamado de comunista, de agitador. Conversamos alguns minutos sobre tantas coisas, que pensei depois termos conversado por dias.
”Eu vou pedir a Deus por você e por esse trabalho, moço. Saiba que você me fêz muito feliz hoje.” O açude de Brotas ainda sangrava devido as fortes chuvas de janeiro de 2004. Meus olhos também quase ficaram cheios. Andava emocionalmente abalado ultimamente. Havia assistido há poucos dias, um doente mental ser brutalmente espancado no meio da rua, em Arcoverde, por jovens membros da “elite” local, por ter jogado uma pedra no carro de um deles. Corri para socorrê-lo, mas fui segurado por funcionários do hotel que me disseram: “Não faça isso, eles são ricos, perigosos e depois isso aí não vai dar mesmo em nada...”
Enquanto ele me mostrava a pequena casa mobiliada e decorada pelos amigos, a capelinha onde ainda rezava missas, lembrei-me do homem corajoso que certa vez mandou o povo arrombar as portas de um armazém onde o prefeito escondia alimentos que seriam doados a flagelados da seca, para usá-los politicamente, distribuindo somente entre os seus protegidos.
Compreender a diferença entre um homem e um cachorro. A diferença entre o que é divino e o que é humano. Sim, Dom Francisco, essa é a epígrafe do breviário de um Brasil a construir.



(Diário de Pernambuco – 13/08/2011 – B9)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

LUIZ GONZAGA




O fenômeno Luiz Gonzaga no Nordeste brasileiro é algo selado por todas as gerações vindouras. Explicar tal fenômeno é abrir a boca e dela não sair sequer uma palavra coerente. O nome e a figura desse homem mistura-se com a terra, com o mato, com as aves e a zoada do chocalho da melancólica vaca magra. Luiz Gonzaga tem presença marcante no sertão nordestino como o sol causticante, que purifica tudo.
Luiz Gonzaga também é pureza de um povo, de uma nação que infelizmente está em extinção: os sertanejos. São estes homens o alicerce do Brasil; são os que mais cedo acordam e ao cair da noite se retiram calados. Luiz é a voz desse povo tão incompreendido que não consegue falar, e canta. Luiz é o sorriso solto, como asas brancas no ar, é aquele braço fraternal que se dá num velho e querido amigo. Mas Luiz também é muita coisa triste. É muito dia que não se acaba. É aquela pontinha de esperança em alguma coisa. É a chuva que não veio. É a fogo-pagô, é o assum preto que não quer ver tudo tão seco.
Luiz é um invasor. Logo cedo, o radinho comprado na capital ou em São Paulo toca “Riacho do Navio”, “Triste Partida”, “Ovo de Codorna”... canções que invadem o ar de casinhas pequenas, de chão batido e de retrato do Padre Cícero na parede.
Luiz é aquela baforada boa de um “Braço de Judas” na porta de casa, onde um cachorro magro rói o osso de dois dias.
Luiz também é dia de festa, pó de arroz, farinha, peixe salgado, miudeza, doce, fava da melhor, galinha gorda e tranças de corda estendidas na rua.
Luiz é aquela explosão de um forró, de um rela-bucho, um gemido de uma sanfona, uma zabumba bem tocada, uma boa lapada de cana. É aquele fungadinho no cangote, o olhar desconfiado e caído, é o trote do cavalinho crioulo e baixeiro.
Luiz Gonzaga é muito mais coisa do que ele é. É aquela noite que, de repente, pipoca do céu lágrimas dos anjos, e cai arrastando xique-xique, aroeira, mandacaru, jurema. É aquele cheiro de mato verde, é o compadre da fogueira, o padrinho, o filho que foi para longe.
Luiz Gonzaga é sinônimo de uma infinidade de coisas, de cenas, de costumes. É o rei de um povo poderoso, que não conhece seu poder. Ele sozinho é muita coisa linda e muita coisa triste. Ele é a alta árvore que ninguém sabe o tamanho
Luiz é muita fé, muita sinceridade, muita confiança no semelhante e no ato de viver. Luiz Gonzaga retrata sentimentos de uma enorme quantidade de brasileiros que, se sabem falar, ficam mudos. Aí ele pega uma sanfona e um chapéu de couro e canta. E encanta. Luiz Gonzaga não é apenas um rei, ou um líder, ou um espelho ou um extranormal. Este fenômeno é um dos poucos símbolos de unidade nacional brasileira; é uma somatória do nordeste num homem só. Luiz Gonzaga é uma bandeira. Uma bandeira eterna.


Luis Manoel Siqueira


(Publicado na contracapa do disco de vinil de Luiz Gonzaga “Eu e Meu Pai” lançado em 1979. Publicado também em artigo no Diário de Pernambuco em 8.06.1979. Republicado em CD pela gravadora RCA VICTOR).

terça-feira, 22 de março de 2011

LUIS SIQUEIRA, O MENINO DO QUINZE

Deixaram um menino de sete anos no Colégio 15 de Novembro em Garanhuns e nunca mais foram buscar. Missionários protestantes norte-americanos o receberam e, apesar do ano letivo já iniciado, admitiram-no como interno. Tudo o que tinha na vida era uma maletinha e um sapato furado no "calcaniar". A Profª Noemi Gueiros me contou décadas depois que ele era um desastre em matemática, porém "sabia ler como gente grande". Lá no Quinze conheceu a namorada e esposa. O sogro, segundo pai, amigos muitos: um lar. Fez vestibular de Geologia pensando em depois ganhar bolsa de estudos nos Estados Unidos. Virou geólogo da turma pioneira e um exame de fezes acusando infestação de ameba o fez perder a bolsa norte-americana. (amebas eram as terroristas da época). Professor da Escola de Geologia, até quando Celso Furtado lhe entregou um cheque para criar a Conesp. Tinha 27 anos e um trabalho científico mimeografado que foi apresentado num Congresso Geológico na Iugoslávia e revolucionou a Hidrogeologia do Cristalino. A revista REALIDADE  deu destaque ao assombro do povo do Cariri paraibano, que fez abaixo-assinado para que ele não deixasse de furar poços por lá. Fundou a Associação dos Geólogos de Pernambuco, os Distritos Industriais de Pernambuco (Diper), tombou cidades históricas do Nordeste como secretário especial do ministro Reis Veloso. Fundou uma empresa de perfuração de poços profundos. Distribuiu sinal de televisão, construiu rodoviárias nos municípios do sertão de Pernambuco e discursou na Casa Branca, representando o governo de Pernambuco (finalmente se vingando das amebas!). Era então secretário de transportes, energia e comunicação. O tema do discurso para o governo norte-americano? Direitos Humanos. Concebeu e acompanhou todo o projeto do Porto de Suape, até o primeiro navio atracado. Depois virou um esquecido mas querido em Goiás, garimpeiro de esmeraldas, agricultor sofrido na Bahia, depois locando poços em companhia de padres italianos que viraram seus amigos e com quem discutia teologia (a do amor). Deixou-me referências indeléveis de valores e princípios. Uma bússola velha, mas que ainda funciona. Uma gaveta cheia de medalhas e títulos inúteis do serviço público. Uma Bíblia dedicada que, confesso, não leio. E uma tempestade azul de lembranças que vão me seguir pelo resto da vida. Há poucas semanas, sentiu-se mal durante o trabalho no Tocantins, onde trabalhava como geólogo para a empresa do colega e amigo Waldir Duarte Costa. Era uma crise renal e insuficiência cardíaca. Nas últimas horas de vida, já quase inconsciente, um médico do Unicordis lhe perguntou o nome, e ele respondeu corretamente: Luis Siqueira. Perguntou-lhe o endereço e ele deu o nome da rua onde eu havia passado a minha infância, há mais de 40 anos. Meu velho pai disse o nome da rua onde eu sempre hei de morar - todo homem é um prisioneiro de sua infância! Por isso ele é o menino do Quinze. Foi lá que o deixaram com sete anos de idade e nunca mais foram buscar.


(Diário de Pernambuco – 02/07/2010)




ESTÓRIA MAL ASSOMBRADA

        Meu irmão comprou um sítio, para onde vai nos finais de semana e lá construiu, entre outras coisas, um pequeno galinheiro. Começou a criar pintos de raça e a orientar meus sobrinhos pequenos em como alimentá-los. Eles adoraram (Meus sobrinhos e os pintos, evidentemente). Com poucos meses, viraram galinhas grandes e gordas. Então meu irmão mandou separar 18 delas para matar durante as festas do Natal.
        Como sou, oficialmente, o tio contador de estórias deles, contei-lhes a estória de dois meninos que tinham um sítio, um galinheiro, e de um grupo de pintos que eles criavam. Assim, à medida que foram crescendo, Iam ficando grandes amigos. Um dia, perto do Natal, o pai dos meninos resolveu matar 18 galinhas para dar de presente aos amigos. Após a sanguinária matança, o sítio caiu num triste silencio por muitos dias.
        Foi quando na noite do dia de Natal, após os meninos irem para cama, ouviram um coral cantando do lado de fora. Acordaram para ver quem era, e descobriram ao lado de suas janelas, as almas das galinhas mortas cantando “Noite feliz” para eles. Depois da cantata, elas bateram asas em revoada na direção do céu.
        Meus sobrinhos não gostaram da estória. E protestaram junto ao pai deles, pela crueldade cometida. Meu irmão e minha cunhada também reclamaram de minha fábula.
        Sou fascinado por crianças. Tudo as atinge facilmente. São capazes de atribuir vida a coisas inanimadas e sabem ser generosas. Ao contrario de mim, que me perdi do menino que fui, e que hoje, no Recife, passo por vários corpos deles, deitados nas calçadas, os olhos vidrados de tanto cheirar cola de sapateiro. Ou vejo-os catando comida, lata e papelão no lixo, e continuo o meu caminho, cheio de indiferença, no Natal e pelo resto do ano.


DE UMA ARTE E PORTA SECRETAS

      No dia em que fui à aula e soube que o professor Elijah Von Söhsten havia falecido, voltei para casa surpreso e desolado. Eu contava então dezessete anos de idade. No cemitério, ao ver o meu velho mestre pela última vez, decidi que nunca mais teria outro professor de inglês.
     Durante a minha vida, conheci homens com matizes de pensamento bastante variados. De ministros, governadores, a jovens guerrilheiros idealistas. De generais a garimpeiros com dinamite entre os dentes, descendo chão a dentro. E grandes poetas, músicos famosos. Vaqueiros encourados, milionários e andarilhos retirantes. Muitos deles marcaram indelevelmente a minha formação, mas poucos foram tão determinantes como o meu pai, meu avô e o professor Elijah.
     Dono de um acervo cultural interior gigantesco, era uma enciclopédia em forma de homem. Nunca aceitou fazer parte de certos “clubes” de intelectuais tão típicos da cidade do Recife. Talvez por não gostar de bajulação, ou por preferir a companhia dos seus cães de raça. Apesar do semblante fechado e olhar de granito, era dono de um senso de humor refinado, um sorriso raro porém contagiante, e uma emotividade sob cuidadosa vigilância.
     Durante os anos que tive o privilégio de ser seu aluno, descobri que a língua inglesa foi apenas uma das coisas que aprendi com ele. Professor Elijah ensinou-me literatura, filosofia, história, política, ética, e também ensinou-me o valor da dignidade. No método de ensino que ele desenvolveu ao longo da vida, e que deixou como herança para a família, não cabe “fórmulas mágicas” nem “programas de auditório” como os que são inventados por centenas de cursos que existem hoje em dia em quase toda esquina, e que travestidos de “eficientes” e “globalizados” apenas pincelam os alunos com um tênue verniz de informações, enquanto engordam as suas contas bancárias, e também, as das agências de publicidade.
     O século XXI e toda a sua assombrosa tecnologia não conseguirá superar o velho método que o homem inventou para transmitir conhecimento: sentar, abrir e ler um livro. A diferença que faz um mestre, é quando ele transforma esse simples gesto num ato de amor, de prazer. Isso é o verdadeiro significado da palavra “ensinar”. Era esse o método secreto do professor Elijah.
     Guardo comigo cadernos, todos eles rabiscados com sua letra corrigindo meus erros. Os diplomas. Uma fotografia de formatura. A lembrança de uma cerveja que tomamos juntos no clube alemão. E uma crônica intitulada “Mané Doido”, de sua autoria, sobre um humilde limpador de cacimbas de Olinda, que considero ser uma das mais belas já escritas em língua brasileira.
     Guardo também o privilégio de dizer que fui seu aluno e amigo. E faze-lo hoje publicamente, quando já tenho no rosto uma barba branca. Guardo comigo tudo isso e, confesso, também um íntimo desejo secreto e místico: abrir determinada porta, algum dia, e encontra-lo novamente.



CONVITE

      Oito horas da noite na avenida Maciel Pinheiro, Campina Grande. Mulheres e crianças catam o lixo de papelão das lojas de calçados e roupas para vender como reciclado. Uma chuva fina de junho cai gelando tudo.
        Um carro chega e um casal desce. Abre a mala. Uma grande panela de sopa quente é servida aos catadores de papel. A filha pequena deles, uma lourinha de cabelos cacheados de seus sete anos ajuda na tarefa. Distribui sopa e pão a crianças iguais a ela, que, sentadas na calçada, comem em silêncio.
        Passo com meu guarda chuva e a loirinha me interpela:
        - Você quer sopa?
        Sorrio e lhe agradeço. Os seus pais sorriem também.
        Recuso a sopa dos humildes e depois me arrependo. Mas já é tarde. Não ficaria bem tomar a sopa de quem precisa dela, mas como gostaria de me juntar àquele gesto de solidariedade humana.
        Chego num restaurante e a televisão mostra um Brasil corrupto, inundado de escândalos. Não mais me importa. Agora só me interessa a lembrança da criança ajudando aos pais a construir um mundo melhor.
        Era noite de Santo Antonio. Dia de se apaixonar. De se apaixonar pela vida.
        - Você quer sopa?

CELINA DE HOLANDA: UMA RECEITA DE PERFUME

        No final dos anos 70, os ventos que anunciavam uma nova primavera política, a da redemocratização brasileira, também espalhavam pelo Recife, assim como as acácias floridas, livros de poesia impressos pelas Edições Pirata.
Nascida como uma cooperativa de artistas, teve em Jaci Bezerra, Alberto da Cunha Melo e Celina de Holanda, seus principais idealizadores.
         Rua Betânia 10 / 102, no Derby.  Era esse o endereço impresso nas contracapas, e foi lá que eu fui bater, junto com os meus 19 anos de idade e uns poemas de qualidade duvidosa debaixo do braço.
         Conhecer Celina de Holanda foi um dos maiores presentes que a vida me deu. Não apenas pelas pessoas que conheci depois, e de cuja amizade passei a partilhar, mas pelo que acrescentou ao homem em que hoje me tornei.
         A casa de Celina não era apenas o centro de convergência natural da Pirata. Ela representava também uma referência de princípios e valores éticos e humanos, que tinha em pensadores como Padre Romano Zufferey, Leon Bloy, Theillard de Chardin e Dom Hélder Câmara, os pontos cardeais de um socialismo moldado nos valores daquele cristianismo primitivo e submerso. Essa presença cristã diferenciada permeava toda a poesia de Celina e também de outros poetas daquele tempo. O amálgama surgido com os perfumes da redemocratização e os ideais da Teologia da Libertação de Puebla, resultavam numa fraternidade real, que “rodava a mesa”  montando as páginas de centenas de livros de poetas pobres e marginalizados.
         Recife, que sempre foi um barril de pólvora ideológico, com radicalismos sectários explosivos, assistia encantado a festas com músicos e palhaços e idosos e crianças nos lançamentos públicos da Pirata.
         As diferenças de idéias e posturas, tão naturais em todo movimento deste porte, eram costuradas uma nas outras, pelo carisma de Celina, cujo lema era pôr a mesa aos amigos sem distinção alguma.
         A amizade com uma senhora que tinha a idade cronológica (apenas) de ser minha avó tomou proporções de rara intensidade. Viramos amigos e confidentes. Embora eu fosse de um copo de chope, e ela, de uma dose de cachaça, diante dos garçons admirados.

“Lembro de meu pai, Luisinho. Sentava-se à mesa e, com uma faca bem afiada, ia cortando uma laranja em tiras bem finas e contínuas. Depois enfiava aquela fita cuidadosamente dentro de uma garrafa de cachaça de cabeça e guardava. A bebida, com o tempo, parecia um licor perfumado.”

         Celina de afago e faca. De gestos largos na defesa dos indefensáveis, como ao cão querido do engenho Pantorra, que fora descoberto sangrando as ovelhas, e que ela postara-se ainda criança entre ele e o chicote do feitor.
         Celina, que Drummond dizia ser rara. Celina que no final da vida, recusou o sinistro convite da academia para ser imortal. Celina que me ensinou que, antes de tudo, um escritor precisa coincidir com aquilo que ele escreve, para não virar um mero malabarista de palavras – figueira sem frutos.
         Eu não posso escrever sobre Celina com a imparcialidade analítica necessária de um crítico literário – coisa que não sou. Além do mais, sua dimensão humana ultrapassa em muito a da grande poetisa que ela foi.
         Estava muito longe quando soube que Celina havia morrido. Compreendi então que um capítulo importante de minha vida se encerrava. Ela representou, não somente para mim, o sal e a luz da parábola cristã, temperando os dias daqueles que a conheceram. Mas, sobretudo, o perfume da laranja que transforma o licor. Chuva de acácias ao vento na história da poesia do Recife.



LOBISOMEM DE CASA NOVA PRESO EM AEROPORTO DE LONDRES

   
     Disse uma vez o escritor Miguel Angel Astúrias, vencedor do prêmio Nobel de literatura no final dos anos 1960, que nós, povos da América latina, vivemos sob um manto de “realismo mágico” que nos diferencia dos povos europeus. Gabriel Garcia Marques, Paulo de Carvalho Neto, Ariano Suassuna, Júlio Cortázar e Jorge Luis Borges souberam com maestria justificar aquela máxima.
     Mas ora vejam: quer o Vale do São Francisco, sobretudo Petrolina, ingressar no primeiro mundo neoliberal por decreto,  se possível numa canetada pela mão ufanista de algum filho da terra. No Recife já se acredita piamente que em Petrolina o povo vive nadando em dólares, de tanta exportação de manga e uva. Coisas da propaganda.
     Aqui temos um neoliberalismo do tipo “caboclo d’água”, portanto, não se descarta a possibilidade de qualquer dia desses, um avião cargueiro descer em Londres, e no meio das caixas de uva produzidas aqui, encontrarem o lobisomem que deu uma carreira num rapaz lá em casa Nova. Ou entre as caixas de manga rigidamente selecionadas, encontrarem o feto de carneiro que um cachorro enterrou, e que uma vez desenterrado por trabalhadores, ouvi-os comentando que “Carneiros também nascem de dentro do chão”. Se o espanto causado for grande, que se aproveite então e se crie um fluxo de turismo específico: Turismo do Realismo Mágico Sãofranciscano.       Mostraremos à Europa a mulher que dizem virar porca numa das quadras da cidade de Sobradinho. Ou o avô de um conhecido meu que é famoso lá em Santa Cruz de Malta por atravessar uma chuva sem se molhar. Temos Celestino Gomes, pintor maior, que enxames de abelhas sabem respeitar. E o ex-prefeito Dr. Luiz Augusto Fernandes, que já me disseram ser capaz de levitar a um metro de altura, além de conseguir acender uma lâmpada apenas segurando-a na mão. Desembarquem, senhores, um time desse calibre num aeroporto londrino e ingressaremos no primeiro mundo dando um ponta pé na porta do parlamento.
     É que um time desse calibre, senhores, encerra a nossa alma. Por incrível que pareça, ele é tão verdadeiro e belo como é belo o chapéu de um vaqueiro e as estrelas do chapéu, e as rugas e os sonhos do seu dono. Jamais poderemos ser julgados por parâmetros que não sejam os nossos.
     Feio e ridículo, senhores, é tentarmos ser o que não somos: “A Miami do São Francisco” a “Califórnia do sertão”. Vergonhoso é o comboio de ônibus indo para o Recife escoltado pela polícia. Triste é ver os colonos do Projeto Senador Nilo Coelho usando defensivos agrícolas sem compreender o que está escrito no rótulo de instruções. Descabidas são as crianças de rua cheirando cola “na terra da irrigação” e já vivendo de catar lixo. Paradoxal é a fila de carros importados estacionados na fria e elitista orla de Petrolina, assistindo à transbordante alegria do povo de Juazeiro. Absurdo é o esgoto da COMPESA jogando fezes no rio, o alto índice de criminalidade, de violência contra as mulheres, o mal uso que fazem do solo – uns por ignorância, outros por ganância, e todos sob a cupidez de multinacionais inescrupulosas. Ridículo é a fundação de Cultura  informar em convite impresso que “Pão de queijo” é um prato típico da culinária regional.
     E enquanto esta cidade vai aos poucos perdendo a sua memória, seu senso crítico, e pirandelianamente procura vestir a sua fantasia de “metrópole cosmopolita”, um imenso mar de vidas secas que habitam ao seu redor, com olhos famintos e fundos por séculos de abandono, se humilha: a mão estendida num pedido, com espanto.


( “Tribuna do Sertão” – Petrolina – fevereiro de 2001)


MINHA FORTUNA

E como me lembro das minhas notas de papel de cigarro!
Nesta época eu passava uma temporada numa cidade do sertão do Cariri paraibano, e junto com os meninos da rua, colecionávamos embalagens de maços de cigarros abertas, usando-as como se fosse nossa moeda. Era bom sentar no chão de areia e contar o nosso dinheiro colorido, acompanhado de outros ricos colegas capitalistas de calção e pés descalços.
As notas do cigarro “Continental” e “Gaivota” eram as de menos valor. As de “Hollywood” em diante valiam mais, até chegar nas notas feitas com a embalagem de um cigarro que tinha um sabor de menta, o “Cônsul”, o “Kent”, ou outros que encontrávamos aos pulos de alegria, jogados pela rua.
Festa era abrir uma caixa de sapatos escondida debaixo da cama e dela tirar um grosso maço de notas ainda com cheirinho de fumo e mostra-las a um amigo curioso. Quem tinha mais, quem tinha menos, era a única preocupação do nosso dia a dia. E as trocas de cédulas aconteciam dependendo de uma boa conversa enrolada, da situação do momento, do quê para oferecer em troca: bodoques, bolas de gude, peões, papagaios, anéis feitos de coco catolé e jogadores de botão eram, na época, as especiarias que o nosso dinheiro comprava.
Não sei a partir de quando o nosso dinheiro perdeu o seu valor. Não lembro. As últimas cenas que a memória libera são cores e palavras e cromos diferentes das cédulas, nossa fortuna. Na certa caiu de moda. Foram substituídas por alguma nova brincadeira e esquecidas em algum armário do passado.  Mas eu ainda hoje gosto de lembrar da época na minha vida em que todo mundo era rico. E do dinheiro que tinha cheiro de fumo.

(“ Jornal do Diretório Acadêmico do Centro de Tecnologia da UFPE” – 1979)

O VELHO E O RIO

Tenho andado muito, mestre Celestino. Por sertões e cerrados. Montanhas e cordilheiras e cidades estranhas. Desde cedo estou na estrada, pela mão de meu pai, descobridor de riachos subterrâneos e depois, sozinho, caçando pedras preciosas. Conheci homens importantes, ricos, e outros cujo único patrimônio era o corpo riscado de tristes cicatrizes. Porém eu lhe afirmo que me foi de grande valia ter neste vale lhe conhecido.
Não falo apenas dos seus quadros salpicados de impressionismo, por-de-sol sertanejo e vaqueiros olhando aviões. Lavadeiras na beira do rio e da luz, toda luz que entorna dos seus pincéis. Falo do amigo do chileno Juán Olmos e seu violão grave, do amigo de toda Petrolina e Juazeiro, daquele que uma noite, lá na concha acústica, ao findar de tocar uma orquestra, fez um galanteio a uma bela mulher vestida de negro. Um galanteio como não se vê mais hoje em dia, assim como esse seu bigode de maestro italiano.
São muitas as estórias a seu respeito. Ouvi algumas e elas me bastaram. Contaram-me quando eu já pensava não mais existir um coração vivo no Éden irrigado. Achei o seu. Que sabe sorrir da vida e se indignar, e ser autêntico e imprevisível, exatamente como deve ser um coração.
Kazantzakis precisava ressuscitar para conhecer o seu Zorba sertanejo. Hemingway, o seu velho pescador. Mark Twain, o seu menino do Mississipi. Mas você, personagem de si mesmo, não nos diz de que romance saiu, sendo homem político “sensu latu”, verdadeiro, impregnado de virtudes e de toneladas de defeitos, assim, como deve ser todo homem. Alguém que pode recitar em voz alta o “poema em linha reta “de Fernando Pessoa. Um homem com desenho e perfume de homem. Um homem com gestos largos contra a mediocridade do mundo.
E se você um dia voltar para a Itália ? e vender  sua Kombi e guardar os pincéis ? Quem restará para conspirar contra o “Kitsch” das vitrines dos shopping centers ? para ser o contrapeso das palavras ocas ? Quem fará galanteios às damas de negro depois que a orquestra tocar ?
O mundo se renova, mestre. A vida, aos nossos olhos, nem sempre guarda os matizes de cada amanhecer. Estamos sempre a nos repetir, à mingua.
Dizem que você é louco. Que uma vez jogou uma bandeja de frutas em cima de um ministro da ditadura que veio à Petrolina prometer acabar com a seca. Que enxames de abelhas não lhe atacam, e que já morou até dentro de um barco no meio do rio.
“Os mornos serão vomitados” diz a Bíblia, impiedosamente.
E enquanto você passa ao largo da monotonia tépida dessa vida besta, consumista e mesquinha, o seu trabalho cresce. Suas esculturas varam o tempo. Pois são como esfinges para sempre nos lembrando da urgência de animar o coração.



( “Folha Verde” de Petrolina, 1 de outubro 1998)


A BÚSSOLA DOS MEUS AFETOS


      Todo homem marca seu espaço de vida e estabelece pontos cardeais diferentes dos da bússola. São para esses pontos, mais fixos no tempo do que no espaço, que ele sempre sonha um dia voltar. A infância, a casa paterna, a casa do avô, são aqueles primeiros, e tão únicos se tornam, que se transformam em lugares mágicos, ao qual estamos todos condenados a  retornar.
        Outros lugares surgem depois: A rua onde ela mora, a casa, o portão e a janela. O banco da praça e às vezes a praça toda, onde um dia,  muito tempo depois, passaram uma avenida. E a vida fica toda marcada de pontos referenciais, que embora distantes e inatingíveis, é deles que sempre nos lembramos. São eles que visitam nossos sonhos: matrizes que tentamos reproduzir no pálido cotidiano.
        O Sebo Rebuliço faz 10 anos. Ele é um desses lugares que viraram referencia na minha vida. Retorno sempre ao Sebo Rebuliço quando estou sozinho, triste e entediado. Às vezes me pego sorrindo, lembrando do sorriso de um, da estória de outro, da fraternidade de todos, ao lado de livros e discos e discussões muito sérias sobre tudo e sobre coisa nenhuma.
        No sebo de Maurício fiz amigos, inimizades, discuti, ri, chorei, bebi, cantei, me abriguei da chuva, da solidão, do vento e do sol quente do sertão. Marquei encontro com namorada, combinei farras, e planejei mudar a ordem das coisas  sem perceber que a ordem das coisas me mudava.
        Lembro do Sebo de Maurício e o procuro sempre, em todos os lugares onde eu vou. Há sempre algum reflexo dele que eu encontro num gesto ou num sorriso de alguém. Pois foi lá que fiz amigos e irmãos que levo comigo até onde forem a minha lembrança e gratidão. Embora saiba que estou condenado a nunca mais retornar, ao menos sei que hoje ele é um dos meus pontos cardeais e está para sempre impresso na bússola dos meus afetos.

DA UTILIDADE DE UM LÁPIS PRESO NA ORELHA




Mercearias de antigamente. Para onde elas foram? Meu avô tinha uma conta numa delas e me autorizava a buscar confeitos. A conta do meu avô me abandonou logo depois da infância. Deve ter fechado junto com a última bodega. Só Deus sabe como precisei dela para confeitar a minha vida de adulto...

Recordo o mostruário de potes de vidro giratório, cheio de deliciosas porcarias de açúcar colorido. Os donos quase sempre se chamavam de “Manuel” – eram senhores com caras de cedro, lápis preso na orelha, olhares de impenetrável desconfiança, pois tinham de manter sempre ao lado um grosso caderno de “contas fiadas”. Mantinham-se sempre atrás de um balcão de madeira ensebada, riscada de canetas, facas e canivetes, além de manchas de fumo, gordura e suor. Do teto, pendiam gaiolas com passarinhos que sujavam o chão de alpista, ou na parede havia um papagaio entediado com os gracejos dos fregueses.

Nas prateleiras, balança, mantas de charque, rolos de fumo. Ao lado, caixas de bacalhau, latas de sardinha e paio. Toucinho. Bolinhos de bacia. Cestos de pães ”crioulo” e espelhinhos redondos com fotos de mulheres nuas. Pentes, chumbo, pólvora e espoletas. Candeeiros e pavios. Peças de cordas, giletes, água inglesa, brilhantina, bicarbonato de sódio e rapadura. Bolachas “mata-fome” e aguardentes. Vinhos de jurubeba, vidrinhos com óleo para alisar cabelos. No chão, sob um estrado de madeira, sacos de feijão, arroz, milho a “Avevita”. Latas de querosene “Jacaré”. Enxofre em pó. Pilhas. Sabão em barra, ratoeiras e creolina. No alto da parede, observando tudo, uma estátua do Padre Cícero ao lado de um quadro com ícone da igreja ortodoxa grega. Um rádio de válvulas tocando baixinho.

De repente, um menino interrompe a manhã e entra timidamente na venda. Camiseta, calção azul e um par de “Congas” furado nos pés.

- Seu Manoel, mamãe mandou pedir um quilo de feijão, meio de charque e cinco pães.

O dono da mercearia o despacha lentamente, embrulha tudo num grosso papel madeira, amarra com um barbante e depois pergunta:

- Trouxe o dinheiro?

- Ela pediu pro senhor botar na conta de meu pai...

- E ele já voltou pra casa?

- Não. Responde o pequeno cabisbaixo.

Seu Manoel balança a cabeça laconicamente, retira o lápis da orelha e aumenta a lista da caderneta. Não era sempre, mas de vez em quando, com a desculpa de arredondar o valor da compra, o velho enfiava dois ou três confeitos de gasosa por alguma abertura do pacote. E um pequeno par de olhos negros agradecia. E o menino saía pulando e correndo da mercearia, já esquecido das dores da vida.

Para onde eles foram, esses Manuéis sisudos? Esses doces rabugentos proprietários de vendas e mercearias? Lápis na orelha, medalhinha no peito, bigodinhos perfumados com “Acqua Velva” – para onde eles foram? Que cruéis estruturas econômicas foram capazes de destruir tanta magia?



(“Assum Preto” nº1 – julho 2001)

A ÉTICA CORDIFORME

No mundo virtual deste início de século,  as marcas  significam mais do que os produtos. As referências humanas são diluídas diante da tirania de um mercado cada vez mais veloz, que vive constantemente a criar novos ícones e valores. Aos poucos, o homem moderno se distancia da vida, dos símbolos de sua terra, sua gente e história. Tudo tende a se resumir num eterno ato de consumo interminável, de efeito humanamente devastador.
Paulo Dias, pintor desde menino, sempre procurou retratar nos seus trabalhos, aquilo que a vida possui de essencial, traduzindo para as telas, os seus símbolos permanentes. Artista de pouca aparição em público, de modos bastante reservados, nunca aceitou atender às exigências promíscuas do mercado, e foi aos poucos, no seu atelier do Poço da Panela, no Recife, construindo uma expressividade própria, respeitada por grandes nomes da intelectualidade pernambucana.
A mais nova série de quadros de Paulo Dias resgata do fundo de uma caixa de sabonetes escondida numa gaveta de sua avó, a bela e perturbadora imagem do Sagrado Coração de Jesus, um dos símbolos mais fortes do cristianismo. Os sagrados corações de Paulo, mais parecem estandartes que proclamam a existência daquela simbologia primitiva: a da fraternidade entre os homens, que embora exangue, permanece misteriosamente iluminada.
Há, misturada à tinta desta simbologia figurativa de Paulo, todo um conjunto de valores e princípios que ele sempre defendeu e hoje propõe nas suas bandeiras cordiformes. Eles contrariam fundamentalmente a banalização da existência, a coisificação da vida, a virtualização do homem.
É ainda comum, nas residências do sertão nordestino, sejam elas grandes ou pequenas, uma imagem do Sagrado Coração na sala de visitas ou jantar. Ela faz parte da cultura daqueles que acreditam numa ética maior, existente além dos mercados, que Paulo soube compreender, e depois de tantos anos foi resgatar no fundo de uma gaveta do passado, a sua tradução para um dos ícones da ética do amor.

O FILHO DE BETÂNIA

        A cidade fica literalmente perdida no sertão do nordeste.  Vive mergulhada em péssimos índices sociais. Miséria por todos os lados. A prefeitura, um belo prédio. Uma quadra esportiva. E a prefeitura tem um hotel de luxo, com parque aquático completo. Ninguém sabe para quê. Os políticos locais resumem-se a um. Suspeita-se que ele lave dinheiro com drogas: Maconha e cocaína. Vale a velha tradicional intimidação de todos. Não existe oposição. Ele sai da prefeitura, e aponta quem vai sucedê-lo.
        Criminosos vivem protegidos e escondidos por lá. De todas as periculosidades.
        Entrei no correio para deixar uma carta. Um garotinho de seus sete a oito anos, esperou que eu fosse atendido e perguntou à moça do caixa:
        - A senhora quer comprar duas galinhas bem gordas?
        A funcionária levantou-se atrás do balcão. Ele então apontou para a rua, onde a sua mãe, uma senhora com o rosto enrugado e um olhar ansioso esperava, segurando duas enormes galinhas de penas vermelhas em cada mão.
        - Não, muito obrigado. Disse a funcionária.
        Ele saiu dos Correios e caminhou ao lado da mãe. Fiquei observando aqueles dois se afastando, carregando duas galinhas “bem gordas” e toda a dignidade do mundo.

ADOMÁSIO QUER O MEU CELULAR



        Na semana passada ligaram do Moxotó para mim. Era um recado. Adomásio, cacique da Tribo Tuxá, quer o meu celular. É para agradecer o projeto das casas. Foi finalmente aprovado.
        Ano passado coordenei  um projeto de combate à miséria  em 26 cidades do sertão. Adomásio foi o primeiro a chegar, manso, educado, persistente: “Doutor, e o nosso projeto de casas” ? e eu lá sabia ! fui atrás. Quem eram os Tuxás ? irmãos dos Mariquitos, Vouvés, Pipianos, Abacoariaras, Cariris e Tarairiús. Todos extintos. Como ? uns com bala de chumbo e pólvora, Outros foram amarrados em boca de canhão para servir de exemplo (pelo Adão pernambucano Jerônimo de Albuquerque). Ah, sim, tinha também um jesuíta chamado Antonio Gouveia que vendia índios pelas ruas do Recife. E por aí vai. Tuxás, Tuxás... sabe lá Deus como, escaparam uns gatos pingados. Depois da barragem no São Francisco, Xingó, a empresa estatal tirou os Tuxás da beira do rio e jogou na caatinga. Faltaram as casas prometidas. Lá vem Adomásio: “Doutor, e as casas da gente ? ”
        Procura o projeto antigo em Recife. Desapareceu. É preciso autorização da FUNAI. Carta pra lá. É preciso pedir ao Conselho. Pede. É preciso pedir no Fórum. Pede. Oficio pra cá, oficio pra lá. Despachos. “Tem paciência, Adomásio. Vai sair !”
        Mando fazer novo projeto. O velho perdeu-se na terra da incompetência publica dos altos coqueiros. O carro não chega na tribo. Muita areia. Arranja um caminhão. Manda um engenheiro. Engenheiro vai. Adomásio fica feliz. Manda uma melancia de presente para o escritório. Projeto pronto. Burocracia, carimbos, assinaturas. Empenho. Agora, um ano depois o projeto foi liberado.
        Sou chamado pelos chefes: “Você vai terminar levando um tiro pelas costas como aquela freira no Pará. Está com medo ?” (Era o pagamento pelos relevantes serviços prestados)  Sei do risco. Sei que incomodei bastante a máfia do semi-árido.  Para cada “sim” a um Adomásio, é preciso dizer não a uma dezena de ladrões e cancelar projetos falsos. Na vida é preciso aprender a interpretar a vida. Traduzindo: Você mexeu na base aliada !  base aliada ?  ora, a base aliada é a pedra angular da política. Vou embora. 14 meses de experiência como consultor de um projeto publico. Primeira e ultima vez, se Tupã quiser. A mulher de César não precisava ser honesta. Bastava parecer que era honesta. A mulher de César é a base aliada.
        Adomásio quer o numero do meu celular para me agradecer por uma coisa a que tinha direito. Direito que lhe foi usurpado. Gaste seu dinheiro não, Adomásio. Eu era pago para trabalhar para você. Faça o projeto das casas. Seja  feliz. E ensine aos filhos dos Tuxás essa sua perseverança.

Adomásio, obrigado pela melancia !



(publicado no http://www.assumpreto.zip.net/ em  julho de 2005)

MEMÓRIA GEOLÓGICA


     A bússola de meu pai me enganou esse tempo inteiro. Seu ponteiro pouco sabe da vida, dos amigos que desaparecem e das notícias ruins. As primeiras turmas de geólogos do Brasil, formadas no Recife, sabiam ao menos usar as suas bússolas para medir fraturas e encontrar água no semi-árido. Era no tempo da CONESP. Eu me lembro de São José dos Cordeiros, no Cariri paraibano – o povo feliz ao redor do poço que jorrava no meio da rua.
     Romeu da Silveira me erguia nos braços e mostrava a sua coleção de artesanato popular. Ele sempre me dava um presente: um boneco de barro de Caruaru, um apito de chamar codorniz. Eu pensava que os gêmeos Valdir e Valter Duarte eram uma só pessoa. Quando vi os dois juntos, Jesus, fiquei confuso. Confuso como a bússola do meu pai.
     Por admira-los todos, jovens geólogos pioneiros, e cristais de quartzo, poços jorrantes (um dia eu poderia achar uma mina de diamantes azuis!) fiz o vestibular, passei e descobri o avesso do tempo passado e para sempre perdido. Na Faculdade de Geologia fui discriminado por ser filho do dono da bússola, que na época construía o porto de Suape. Professor Ivan Tinoco era o meu interlocutor mais próximo: “Ligue não, a maioria desses revolucionários aí, depois que se forma, esquece a política e corre logo atrás de ganhar dinheiro..”
     Concluído o curso, caí de corpo e alma nos garimpos do país, onde, junto com meu pai, aprendi a “tirar leite de pedra”. Foram dez anos riquíssimos, sobretudo no aspecto humano. O mosaico de etnias. As vertentes culturais do nosso povo. Durante esse tempo escrevi um longo ensaio: “Estrelas de Pedra: Roteiro Humano, Histórico e Fotográfico dos Garimpos do Brasil” e, do turbilhão de histórias que vi e ouvi, um romance também inédito.
     O curso de Geologia da UFPE nunca conseguiu reeditar o seu começo. Passou vários anos seguidos formando um ou dois alunos. Hoje em dia apresenta sensível melhora. Porém, os estudantes não discriminam mais ninguém. Não são mais capazes de fazer uma greve para apoiar colegas que, de arma em punho, ameaçavam professores. Nem a tradicional “vocação política” do seu diretório acadêmico soube erguer a voz contra a extinção da MINÉRIOS DE PERNAMBUCO, nascida pelas mãos de Emanuel Duarte, que hoje poderia funcionar como uma providencial agência  de serviço geológico.
     Pego a bússola de meu pai, não como me ensinou a professora Margarete Alheiros, mas como quem pega um daqueles biscoitos mágicos de Proust. E pergunto por Manassés. Por Romeu da Silveira. A mina azul de diamantes. E o meu apito de chamar felicidade ? As bolhas de nível se agitam, o ponteiro gira, gira e depois aponta uma direção. Mas eu bem sei que ele está mentindo.




( “Diário de Pernambuco “ – Recife - 8/3/2001)


ACHADOS E PERDIDOS


A cheia levou minha cabana de índio e carrinhos de corrida com formato de charuto. Um batalhão inteiro de soldadinhos de chumbo e a minha maleta de mágico. Desfez os vestidos bordados de minhas irmãs – vestidos que nunca mais foram usados. Elas também cresceram muito, como caberiam naquelas roupas de boneca ?
A cheia levou os enfeites de natal. Ficavam o ano inteiro dentro de uma caixa em cima do guarda-roupa. Nunca mais vi natais enfeitados como aqueles.
A cheia levou uma porção de discos que meu pai gostava de ouvir de noite enquanto a gente dormia no tapete da sala. E estragou de vez a grande radiola de válvulas “Hi-FI” com três rotações.
A cheia lavou e apagou impiedosamente todo o álbum de família, para o desespero de minha mãe. Destruiu sua coleção de revistas de culinária e sumiu de vez com os cachinhos de cabelo que ela guardava como lembrança de seus meninos de colo. Salvou-se a bússola de meu pai, e Deus sabe como, um urso e duas bonecas assustadas.
A cheia levou enxovais, madrigais, recitais no Santa Isabel, manhãs cheias de pregões pelas ruas de um Recife ainda terno e suburbano.
A cheia levou bons vizinhos, alguns amigos, e cobriu a casa inteira com um manto de lama negra, de cheiro forte, fazendo reaparecer a terrível figura do homem da campanha contra a filariose – aquele vampiro que vinha de noite tirar sangue dos dedos da gente.
A cheia levou minha irmã e suas canções que hoje, desconfio, é o vento no terraço balançando as avencas.
A cheia varreu nossas vida para bem longe e nos jogou aqui neste futuro, sem nem ao menos perguntar se gostaríamos de ficar.


(“ Folha Verde” – Petrolina - Dezembro de 1998)