quinta-feira, 21 de julho de 2011

LUIZ GONZAGA




O fenômeno Luiz Gonzaga no Nordeste brasileiro é algo selado por todas as gerações vindouras. Explicar tal fenômeno é abrir a boca e dela não sair sequer uma palavra coerente. O nome e a figura desse homem mistura-se com a terra, com o mato, com as aves e a zoada do chocalho da melancólica vaca magra. Luiz Gonzaga tem presença marcante no sertão nordestino como o sol causticante, que purifica tudo.
Luiz Gonzaga também é pureza de um povo, de uma nação que infelizmente está em extinção: os sertanejos. São estes homens o alicerce do Brasil; são os que mais cedo acordam e ao cair da noite se retiram calados. Luiz é a voz desse povo tão incompreendido que não consegue falar, e canta. Luiz é o sorriso solto, como asas brancas no ar, é aquele braço fraternal que se dá num velho e querido amigo. Mas Luiz também é muita coisa triste. É muito dia que não se acaba. É aquela pontinha de esperança em alguma coisa. É a chuva que não veio. É a fogo-pagô, é o assum preto que não quer ver tudo tão seco.
Luiz é um invasor. Logo cedo, o radinho comprado na capital ou em São Paulo toca “Riacho do Navio”, “Triste Partida”, “Ovo de Codorna”... canções que invadem o ar de casinhas pequenas, de chão batido e de retrato do Padre Cícero na parede.
Luiz é aquela baforada boa de um “Braço de Judas” na porta de casa, onde um cachorro magro rói o osso de dois dias.
Luiz também é dia de festa, pó de arroz, farinha, peixe salgado, miudeza, doce, fava da melhor, galinha gorda e tranças de corda estendidas na rua.
Luiz é aquela explosão de um forró, de um rela-bucho, um gemido de uma sanfona, uma zabumba bem tocada, uma boa lapada de cana. É aquele fungadinho no cangote, o olhar desconfiado e caído, é o trote do cavalinho crioulo e baixeiro.
Luiz Gonzaga é muito mais coisa do que ele é. É aquela noite que, de repente, pipoca do céu lágrimas dos anjos, e cai arrastando xique-xique, aroeira, mandacaru, jurema. É aquele cheiro de mato verde, é o compadre da fogueira, o padrinho, o filho que foi para longe.
Luiz Gonzaga é sinônimo de uma infinidade de coisas, de cenas, de costumes. É o rei de um povo poderoso, que não conhece seu poder. Ele sozinho é muita coisa linda e muita coisa triste. Ele é a alta árvore que ninguém sabe o tamanho
Luiz é muita fé, muita sinceridade, muita confiança no semelhante e no ato de viver. Luiz Gonzaga retrata sentimentos de uma enorme quantidade de brasileiros que, se sabem falar, ficam mudos. Aí ele pega uma sanfona e um chapéu de couro e canta. E encanta. Luiz Gonzaga não é apenas um rei, ou um líder, ou um espelho ou um extranormal. Este fenômeno é um dos poucos símbolos de unidade nacional brasileira; é uma somatória do nordeste num homem só. Luiz Gonzaga é uma bandeira. Uma bandeira eterna.


Luis Manoel Siqueira


(Publicado na contracapa do disco de vinil de Luiz Gonzaga “Eu e Meu Pai” lançado em 1979. Publicado também em artigo no Diário de Pernambuco em 8.06.1979. Republicado em CD pela gravadora RCA VICTOR).