quinta-feira, 25 de agosto de 2011

OS PEIXES DE EVANDRO VIANA


O estado de Pernambuco possui tradição artística que é pioneiro no Brasil. Não apenas ao que se refere aos trabalhos artísticos de nossos índios, mas sobretudo quando da invasão holandesa no Recife, onde desembarcaram vários artistas junto com o príncipe Maurício de Nassau, e ao pintarem o Novo Mundo com seus pincéis renascentistas, inauguraram um tempo de produção artística que dura até os dias de hoje. Assim os quadros de Eckhout, Post e os desenhos de Margraf ainda adornam museus de toda Europa, com vistas, paisagens, retratos de índios e bichos de um Brasil que acabava de nascer. A tradição figurativa faz parte da nossa cultura e nela se enraizou numa simbiose entre o homem e o meio ambiente. Nunca coube ao homem do trópico, o gosto europeu pela estética simbológica que teve o seu ápice no movimento modernista do início do século XX. O Nordeste é figurativo por vocação, assim como o sol forte lhe define contornos: pedras, árvores, bichos e gentes. E a natureza induz o homem daqui a pensar e agir de acordo com seus caprichos. A famosa feira da cidade de Caruaru é uma exposição viva dessa realidade estética. É também uma afirmação. Considerado o maior centro de artes figurativas das Américas, Caruaru resume o espírito de um povo e sua forma de se expressar. Porém, dos pintores de Nassau até os dias modernos, um mundo de grandes artistas entre eruditos e populares, veio produzindo arte e alinhavando essa cultura estética figurativa brasileira. Impossível citar todos. Dos velhos gravadores de cordel até um Gilvan Samico. De Bajado de Olinda, aos quadros de João Câmara, ou as talhas de madeira de Pedro Orlando da Silva o P.O.S. Das carrancas de Ana de Petrolina, às estátuas de Abelardo da Hora e Corbiniano. Figurativos por excelência, expostos hora em feiras e museus, ora nas ruas ou nos palácios. Os quadros de Evandro Viana, pintor Recifense radicado em Olinda, traduzem toda essa realidade tropical pernambucana. Em seu atelier situado no Mercado do Varadouro, ele reúne trabalhos numa permanente exposição. São figuras de peixes meio fósseis, meio estandartes de carnaval - seu tema central - com escamas coloridas costuradas uma nas outras como se fossem pedaços de couro esticados. Pelas paredes desfilam caboclos de lança de maracatus, casas e paisagens de Olinda com aquele mesmo sol que tudo incendeia e define. Seus quadros lembram os muralistas mexicanos. Seus peixes/fósseis/estandartes, falam dessa cultura nordestina cristalina: alicerce primeiro da nacionalidade. Com formação em comunicação visual e vasta experiência artística, Evandro Viana abdicou da segurança e da indolência dos empregos públicos e abraçou totalmente o seu ofício de artista, vivendo exclusivamente para pintura. Colocou-se estrategicamente como um artesão, vendendo ele próprio o seu trabalho, sem se importar com os holofotes geralmente pagos das colunas sociais ou dos salões de casas das "gentes importantes". Artista grande de Olinda e Recife, Evandro sabe da verdade maior: a sua arte caminha independente dele e do seu tempo. E no tempo será perpetuado porque possui qualidade. Não se confunde com sonhos abstratos de estranhas terras, nem serve ao mercado gigantesco e diluído do consumo inútil. Pois que é universal, sendo antes, tropical e brasileira. Pernambucana, impregnada de sol e vida. E também de estrelas, guerreiros, casas, telhados e coloridos estandartes de fósseis de peixes.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A DIFERENÇA DE UM HOMEM PARA UM CACHORRO


                         

Toquei a campainha, mas ninguém atendeu. Voltei depois de um par de horas. De dentro da casinha saiu um senhor ainda sonolento, a quem saudei: ”Louvado seja o nosso senhor Jesus Cristo!” Ele mesmo sem me conhecer, apenas respondeu com uma pergunta: ”A quem devo tão ilustre visita?” Dom Francisco Mesquita, ex-bispo de Afogados de Ingazeira caminhou até o portão e abriu. Caminhamos até o terraço, onde eu lhe falei do programa que eu coordenava: dinheiro do Banco Mundial a serviço da pobreza. Construção de poços, casas, barragens, cisternas, compra de terras. E que eu viera ali para lhe conhecer. E viera ali para lhe pedir orientação. E viera ali para admirar o homem amado em todo o Pajeú, por seu discurso firme, sua luta, retidão.
Ele resumiu os seus quarenta anos de trabalho, descrevendo em poucas palavras a obra invisível a qual se dedicara: “Ensinando a esse povo a distinguir a diferença entre um homem e uma coisa, um homem e um cachorro. E a diferença entre o que é divino e o que é humano.” Contou-me que recebia o povo diariamente nos seus aposentos, e que por vezes foi chamado de comunista, de agitador. Conversamos alguns minutos sobre tantas coisas, que pensei depois termos conversado por dias.
”Eu vou pedir a Deus por você e por esse trabalho, moço. Saiba que você me fêz muito feliz hoje.” O açude de Brotas ainda sangrava devido as fortes chuvas de janeiro de 2004. Meus olhos também quase ficaram cheios. Andava emocionalmente abalado ultimamente. Havia assistido há poucos dias, um doente mental ser brutalmente espancado no meio da rua, em Arcoverde, por jovens membros da “elite” local, por ter jogado uma pedra no carro de um deles. Corri para socorrê-lo, mas fui segurado por funcionários do hotel que me disseram: “Não faça isso, eles são ricos, perigosos e depois isso aí não vai dar mesmo em nada...”
Enquanto ele me mostrava a pequena casa mobiliada e decorada pelos amigos, a capelinha onde ainda rezava missas, lembrei-me do homem corajoso que certa vez mandou o povo arrombar as portas de um armazém onde o prefeito escondia alimentos que seriam doados a flagelados da seca, para usá-los politicamente, distribuindo somente entre os seus protegidos.
Compreender a diferença entre um homem e um cachorro. A diferença entre o que é divino e o que é humano. Sim, Dom Francisco, essa é a epígrafe do breviário de um Brasil a construir.



(Diário de Pernambuco – 13/08/2011 – B9)