sexta-feira, 21 de outubro de 2011

AÇORDA, EUPHORBIA & JUANITO

 

Dois velhos portugueses. Conheci-os por acaso, no sertão. Eram duas ilhas. Francisco e Pedro dividiam suas lembranças numa mesa do clube abandonado sob um céu estrelado. Não era o céu de Angola (o céu de Angola tinha mais estrelas, segundo Francisco) nem sabia Cícero, o garçom banguelo, que Pedro tinha sangue azul.
Rabugices à parte, eram meus melhores amigos naquela cidade cheia de moscas, calor e poeira. Francisco havia sido caçador na África. Possuíra criados e uma bela casa na praia. Agora sentia saudades de tudo: do grande Salazar às fontes de água pura de sua terra. Já o Pedro era um nobre. Um lorde perdido na caatinga. Ali chegara separado da mulher, arranjara emprego público no governo do estado, conhecera uma professora primária e casara novamente. Vivia aguardando chegar a aposentadoria. Quando mais jovem, contava, tomara muito uísque com “Juanito” – hoje rei da Espanha, durante o seu exílio em Portugal.  Sabia de cor e salteado todas as famílias nobres da Península Ibérica, seus duques, seus viscondes, seus fantasmas.
Se Francisco era um exímio cozinheiro e nos preparava açordas de bacalhau, mamão regado a vinho branco, pasta de queijo gorgonzola com manteiga, Pedro recitava poemas de D. Pedro II e falava-nos de príncipes e reis com tanta intimidade, que sentíamos orgulho de tê-lo como amigo.    
Ambos odiavam o Brasil. Ambos eram casados com nordestinas. Morriam de rir dos hábitos brasileiros, mas nenhum dos dois pensava em voltar à Europa. O sonho de Francisco, o cozinheiro e caçador (ele contou-me uma vez, com certa reserva) era trazer elefantes, rinocerontes e leões d’África  para criar na floresta amazônica, fazendo ali um grande parque internacional de caça. “Mas, sabes, pá, eu cá estou muito velho, acabado, esperando a hora de morrer...”
Pedro apenas pedia outra cerveja, olhava para mim e sorria – anel de ouro com brasão de família no dedo. Dividia comigo a cada vez mais rara e fina arte de escutar, tolerar e fazer amigos.
Guardo comigo diálogos soltos, como folhas ao vento. Estórias de Padre Vieira, Felipe Egalité, a bela Ignês de Castro, e uma curiosa observação proferida por um camponês português que lutou na França durante a 1º Guerra Mundial, e ao voltar a Lisboa, comentava pelas ruas:
- “Que vin seja vinho e pan seja pão, vá lá que seja ! Mas que diabos queijo tem a haver com fromage ?”
Meus velhos amigos lusitanos. Meus companheiros de solidão sertaneja. Eu gostava de provocá-los, sempre que os encontrava juntos, cantando “Grândola, terra morena” -  canção que foi a senha da revolução dos cravos.
Um dia, Francisco resolveu se desfazer de todo o seu jardim. Chamou-me às pressas. Deu-me todas as suas plantas: mudas de palmeiras, hibiscos, jasmins, euphorbias, anonas, mudas disso e daquilo. Um jardim inteiro. Pouco tempo depois, foi embora para sempre, a contragosto, para a capital “cuidar de morrer”. Ele  teve um derrame cerebral assim que chegou, e passou a vegetar em cima de uma cama. Pedro voltou para a Europa. Recebeu uma casa como herança, levou a mulher e a filha. Soube que lá, ainda arrasta o peso de cetros e coroas milenares. E bebe a sua cerveja “Imperial” em silêncio.
Nunca mais os encontrei.
Alguns anos depois, quando os Sem-Terra invadiram a minha pequena fazenda, confiscando a produção, derrubando cercas, destruindo safras e esperanças, encontram o meu jardim completamente florido em pleno mês de agosto.
- Adeus, pá !


 

(Do "BREVIÁRIO DE HERESISAS SERTANEJAS" e Publicado na revista "ENCONTRO" do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco - Ano 22 - nº 19 - 2005)