sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

DIREI QUE ME LEMBRO DE VOCÊ

  

A mãe de Tereza faz 91 anos de idade hoje. Ela me disse que a sua memória anda falhando. Recorda o tempo em que foi da Escola Normal,mas não se lembra de quem lhe telefonou na noite anterior.

Depois da infância e para sempre, somos reféns da memória. Por isso sempre achamos melhor o tempo que passou. Assim como os nossos computadores e celulares, temos memórias distintas: uma rápida e outra fixa, essa mais indelével, onde o botão “delete” nem sempre funciona. Com a idade, a memória rápida, para os eventos mais próximos, vai perdendo a validade e, assim, vamos nos desconectando aos poucos do presente. Viramos um álbum de fotografias que anda, respira e fala.

Certa vez, quando era muito jovem, fui visitar o meu avô paterno numa casa de repouso para idosos. Ele não reconhecia mais ninguém. Uma das pacientes, uma senhora baixinha, me avistou e correu para os meus braços:

- Vicente ! Que saudade! Quanto tempo esperei por você, meu filho! Por que você deixou sua mãe esperando tanto assim? Nunca mais faça isso,Vicente!

Eu fiquei parado, sem ação, até uma enfermeira me explicar que há muitos anos aquela senhora havia perdido um filho num acidente de carro, e por isso a sua memória confusa lhe traía.

Somos seres misteriosos, condenados à memória. A nossa, diferente da cromossômica, que já nasce com as abelhas, com as formigas e animais, é cumulativa e determina quem seremos. Determina também as equações que usaremos para dar o balanço da vida, quando a velhice chegar. Salvo engano, era Marcel Proust quem escreveu que a memória é uma farmácia onde em suas prateleiras encontramos remédio ou veneno, como quisermos: as lembranças que precisarmos.

Que me importa quem telefonou ontem de noite? Belo era o seu vestido de festa. O sorriso ao abrir-me a porta. A noite de fogueira, os fogos no céu. Um sabor, um madrigal. Que me importa o protesto na Grécia ou a crise do governo? Escuta essa canção? Não era aquela que você gostava?

- Não era, Vicente?