segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

INVENTÁRIO DA TERRA DO SOL


Depois de “OPARA – FORMAÇÃO HISTÓRICA E SOCIAL DO SUBMEDIO SÃO FRANCISCO” e “CAMINHOS DE CURAÇÁ”, o sociólogo e escritor Esmeraldo Lopes conclui uma trilogia com esta obra, “CAATINGUEIROS E CAATINGA – A AGONIA DE UMA CULTURA”. Se esta última obra que encerra a sua sociologia xerófila não é a mais árida, não é também a menos impregnada de um estilo literário próprio, metaforicamente situado entre o corte afiado de um bisturi e o jorro do sangue poético, pela forma como descreve o drama de uma cultura que é uma das pedras angulares do alicerce da nação.
O livro é um mergulho profundo no universo da caatinga nordestina, desconstruindo-a em partes que, se juntas novamente, não se recompõem, por serem sempre maiores do que o todo original, devido à complexidade dos aspectos geográficos, antropológicos, históricos e culturais do seu estofo. Aqui estão gentes e maneiras, onomatopéias das sombras de um passado perdido, e uma misteriosa heráldica de símbolos gravados nos mourões do imaginário coletivo nacional – signos que atravessam gerações e guardam o começo e o fim de uma mesma estória.
Esta triste radiografia, porém, traz consigo uma inquietante dicotomia de imagens que permeia toda a obra: A seca e o verde. O Bem e o Mal. O passado e o futuro que hoje se apresenta. A vida e a morte: esta peleja constante que a caatinga e os caatingueiros parecem possuir por sina ou determinismo geográfico. A linha que o autor usa para costurar todas estas partes é a da análise crítica do cientista social que viveu tudo o que escreve - bem diferente dos acadêmicos de nariz empinado e palavras ocas das nossas universidades, ou dos técnicos e programas vazios dos governos que se sucedem, ora na corrupção, ora na mediocridade e na incompetência. Esmeraldo Lopes conhece tudo: a fala, o jeito, as circunstâncias, a economia. É filho da caatinga, entre o Raso da Catarina e o Rio São Francisco. Por isso pôde escrever com a autoridade de quem vivenciou as transformações advindas da burocratização da caatinga em “semi-árido”, dos caatingueiros em “atores sociais” e o vai e vem de programas absurdos e desterritorializados, todos insensíveis ao drama de um povo atônito e indefeso.
Mas o seu discurso em voz alta é mais do que um réquiem ou incelência repetida: Evangelho transformador que aponta caminhos. Sugere mudança de rumos. Haverá quem o escute?
Haverá quem escute o discurso da sertanejidade extinta num Brasil mergulhado nas águas da mediocridade dos atuais programas de televisão? Da coisificação dos princípios morais e éticos primordiais da vida? Da intoxicação quase que generalizada da relativização da realidade? Da verdade?
Se o sociólogo Esmeraldo Lopes peca por se trair ao impregnar esta obra de sentimento, o escritor se agiganta ao fazê-la com poesia e esperança. A sua glória vai além do seu desconhecimento pelo público, dos livros que não vende, dos círculos literários que não participa, dos intelectuais que não bajula. Vai bem além do resultado da banca de mestrado em sociologia que lhe conferiu o título “com distinção e louvor” na presunçosa Recife. Está apropriadamente contida na admiração das gentes de Curaçá, sua terra natal, e no respeito de muito de seus ex-alunos.
E é preciso que se diga - também em voz alta - que com esta obra, ele termina a sua trilogia de forma grandiosa. Ela é única. Desconheço outra, na literatura brasileira que seja tão fielmente apaixonada pela caatinga e pelos caatingueiros. E por isso mesmo tão impregnada de luz.


Luis Manoel Siqueira - Escritor
(Prefácio da 1ª edição do livro de Esmeraldo Lopes: "CAATINGA E CAATINGUEIROS - A AGONIA DE UMA CULTURA")
Site do autor com vários livros para livre Download: