domingo, 11 de março de 2012

MAVUTSINIM, MIGUEL E O LEÃO


Uma lenda contada pelos índios do Xingu diz que Mavutsinim vivia só, pois era único no mundo. Então, pegou uma concha numa lagoa e criou a primeira mulher. Com ela teve um filho: o primeiro homem a existir. Um dia, Mavutsinim pegou a criança, desapareceu pela mata e nunca mais voltou. A mãe, muito triste, voltou para o fundo da lagoa e se transformou novamente numa concha. Do filho de Mavutsinim nasceram todos os homens.
Eu morava nas margens do  Rio São Francisco quando soube que no Recife, o leão do Circo Vostok matou acidentalmente José Miguel, um garoto de oito anos. Corria o ano de 2000. Eu passei várias noites sem dormir direito. Algum tempo depois, chegou à região um circo mambembe de uma família de anões, todos muito pornográficos, mas extremamente simpáticos. O anão chefe me contou, no meio de uma longa conversa, que a morte de José Miguel quase acabara com a reputação do circo no Brasil. De noite, na beira do Rio, eu contemplava o céu estrelado, as zelações riscando o infinito, admirando aquela grandiosa arquitetura de Mavutsinim. Do mistério que faz germinar uma semente na terra irrigada, ao perfeito sistema de navegação das aves de arribação que cruzam o oceano. Então, a minha pequena fé peregrina atravessava a noite perguntando por que, quem fechou a boca dos leões para Daniel, não fez também para Miguel. Por que Mavutsinim não se compadece com o pranto das mães que se transformam em conchas, e passam a viver em lagos de pranto. “Onde estavas quando eu lançava os firmamentos da Terra?” me pergunta Mavutsinim no Livro de Jó.
Guardo perguntas sedentas de misericórdia. Tento sobreviver entre o vazio relativista do materialismo dominante e a comercialização abjeta das coisas divinas. Sustento-me na memória daqueles que perfumaram a minha vida: Abelardo Paes Barreto, Benedito Matos, Walmir Soares da Silva, Dom Francisco de Mesquita Filho, e tantos outros homens de bem, pastores, padres, simples agricultores ou outros de quem só ouvi falar. Referências cardeais. Suas estórias de vida são exemplo de integridade e doação pela fé. Persigo diariamente suas pegadas pelo caminho. Preciso muito que elas me guiem pela escuridão da floresta, até o mundo das crianças perdidas, onde mora Mavutisinim - o senhor dos leões, das lágrimas e das perguntas sem resposta.