quinta-feira, 24 de maio de 2012

O RISO DOS MEUS INIMIGOS

       
Eu confesso que matei índios apaches. Centenas deles. Nunca tive interesse pela morte dos Ianomâmis ou Guaranis. Meu caso era com os Apaches ou Comanches.  Minhas espoletas eram para eles. Também meus bodoques e espingardas de plástico. Exterminei também todos os animais selvagens que a minha imaginação infantil conseguiu projetar: Tigres, leões, elefantes e onças. E só poupei os inimigos soviéticos por intervenção de meu pai – meu fornecedor de material bélico - que um dia chegou para mim e disse seriamente:
- Filho, lá tem gente como eu e você, apenas querendo ser feliz!
Graças a Deus eu não tive uma infância antipaticamente correta. Nem ela tão pouco contribuiu para que eu me transformasse num perverso e insensível belicista. À medida que fui crescendo, segui agregando valores e princípios, mudando conceitos. Minhas armas logo caíram no esquecimento. Os livros as substituíram completamente.
Hoje, quando vejo o patrulhamento de pais e educadores contra brinquedos e até mesmo com estórias infantis, como a recente censura governamental a livros de Monteiro Lobato, sinto um profundo tédio. E me ausento de qualquer aparência de discussão, por motivos estomacais.
A queda do muro de Berlim gerou um problema muito sério para os engajados em causas e revoluções socialistas. A evaporação da União Soviética deixou um exército de órfãos sem causa e chão. A devoção da ditadura chinesa pelo capitalismo estatal emudeceu as palavras de ordem, desbotou os velhos clichês repetitivos da esquerda antes alegre, festiva e, hoje, no mínimo, conivente com a imoralidade na política brasileira. Surgiu então uma frenética paixão pelo ambientalismo politicamente engajado, patrulheiro e igualmente destituído de uma mínima consistência científica. Mas surgiu com ele um mercado. E empregos e consultorias. E com ele novas bandeiras. E novas intransigências míopes, pusilânimes, mas coloridas.
Uma simples conversa séria sobre alguns conceitos básicos de geoquímica, economia e física, e lá se vão grande parte dos argumentos neopatrulheiros. Ficam apenas os argumentos apaixonados e cegos, ora contra os agrotóxicos, contra os fertilizantes, ora contra o estilo de vida e tecnologias que todos criticam, mas adoram ter em casa, ao alcance da mão, no carro.
Tudo o que eu hoje sei, é que as feras trucidadas, os apaches, comanches - todos os meus inimigos de infância, abatidos com minhas espoletas de festim, morriam de rir de mim, à noite, ao pé do meu berço, velando meu sono. Eles sabiam dos inimigos futuros que a vida me traria quando crescesse. Tantos maiores e mais perigosos. Tantos impiedosamente cruéis e verdadeiros.


                                                          Luis Manoel Siqueira