terça-feira, 26 de junho de 2012

O GUITARRISTA LOUCO


Naquele tempo, procurávamos a garagem da casa do amigo para ouvir seus discos de vinil trazidos da capital. Engolíamos as capas psicodélicas e viajávamos em terras distantes de nossa adolescência precocemente comum, regadas a suco, um refrigerante, ou vinho tinto repartido na noite. A contracultura limitada pela formação calvinista, no máximo, tatuava nossos rostos com bigodes ralos, uma ameaça de barba, e aquela ereção recorrente quando o assunto eram as meninas da escola, seus corpos rijos e caminhar provocante de gazela.
O orgasmo espiritual eram os acordes do guitarrista louco. Todos decorados. Gravados a fogo na memória em brasa. Quando escutávamos suas composições, o mundo saía de órbita e tudo passava a fazer sentido: os hormônios, a incompreensão da vida, a incerteza do futuro. O guitarrista louco era o maestro daqueles anos. Todos sonhavam ser como ele, aplaudido, amado, ovacionado nos shows por onde tocava.
Seria ele triste? E se lhe escrevêssemos uma carta? E se um dia viesse até a nossa cidade e se tornasse um amigo?
Tempo confuso é o dos homens jovens. Onde o menino que se acha um homem, despreza a infância e nem imagina o que a vida adulta lhe reserva, junto com a saudade.
A noite passava. O sol interrompia nossos devaneios e o amigo desligava a radiola. Guardava os discos. Recolhia os copos, bocejava de sono e cansaço: derradeiro sinal para irmos embora. Havíamos já redesenhado o mundo que pensávamos mudar. Despido todas as meninas no bordel de nossa imaginação. E nem percebíamos que o tempo que passava nos mudava, e nos mudava para sempre e para longe.
Não sei mais do amigo e sua garagem. Demoliram a casa. Perdemos seu endereço. Esquecemos dos discos, dos madrigais, do sabor da gasosa de pêra. Casamos, trabalhamos muito, os filhos precisam de atenção, cuidados. As despesas precisam ser pagas em dia e sobrou muito pouco tempo para amizades e para quase tudo. Embora eu confesse que, ainda hoje, quando viajo sozinho por outras cidades, caminho pelas ruas de bairros distantes, e me vejo procurando aquele endereço perdido onde eu costumava conspirar contra a ordem estabelecida da vida.
Nunca mais ouvi falar do guitarrista louco.



LUIS MANOEL SIQUEIRA (Do “BREVIÁRIO DE HERESIAS SERTANEJAS”- inédito)