quinta-feira, 26 de julho de 2012

BAILARINA PERDIDA NUM RESTAURANTE



Eu havia acabado de entrar no restaurante com minha esposa, quando uma jovem senhora chegou aflita à mesa onde nos sentamos, trazendo na mão uma menina em prantos.
- O senhor, por acaso, viu uma bonequinha perdida pelo chão? Uma bailarina?
Eu e minha mulher nos olhamos e passamos a vasculhar por debaixo da mesa onde estávamos.
- Minha filha está inconsolável por tê-la perdido. Já procurei o restaurante inteiro. Até forneci o meu endereço ao gerente para o caso de encontrá-la depois e enviarem a minha casa.
Levantamo-nos e passamos a procurar em volta, nas mesas vizinhas. A criança me olhava entre soluços e uma expressão de profunda tristeza.
- Qual era o tamanho de sua bonequinha? Perguntei à menina chorosa.
Ela não me respondeu. Apenas soluçava desolada. A resposta surpreendente veio da sua mãe:
- Era uma pequena bailarina que veio como brinde numa embalagem de chocolate.
O universo infantil me fascina. Ele sempre vem à tona quando a voz de outra criança me lembra do que eu já fui um dia. A maneira de ver o mundo, de valorizar pequenas coisas que passam despercebidas. Um brinde surpresa numa embalagem de um chocolate toma vida e passa a significar algo importante, cuja ausência pode tornar aquele momento profundamente vazio e sem sentido.
O amor nos distingue dos demais seres vivos da Natureza. Somente por causa dele somos especiais.  Permeia nossas vidas, do começo ao fim. Por amor nascemos e podemos encontrar razão de viver. Por ele muitos recusam a vida. Seja em nome de alguém, ou de uma bandeira, uma causa. A sua ausência mutila. Prótese nenhuma pode lhe substituir.
Eu também tive meus tesouros perdidos. Ainda hoje os procuro ao redor, como a menininha no restaurante. Sei que não irei encontrá-los aqui dentro, mas depois, lá do lado de fora. Por enquanto, enxugo as lágrimas e sigo me escondendo da saudade. Do chocolate, guardo a lembrança. Mas ainda sinto o seu perfume em minhas mãos.


                                                                                              
Luis Manoel Siqueira