quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A FACE MISTERIOSA



No capítulo “Réquiem Para Uma Tapera”, do livro “MEMORIAL DE VILANOVA” de Nertan Macedo, existe a fiel transcrição histórica de um discurso:
“– Quem furta uma agulha, furta um cavalo!
   Depois perguntava ao povo reunido:
- Quantas agulhas por um vintém?
  O povo dava a resposta:
- Quatro!
- Pois quem furta uma agulha furta também um boi e um cavalo – ensinava o peregrino.”
Havia uma caixa de madeira no guarda-roupa de meu pai, onde eu visitava em segredo para ver algumas balas de chumbo contorcidas. Ele havia me dito que as colhera num velho campo de batalha no Raso da Catarina. Meu pai gostava de filmes de guerra. Especialmente dos que se referiam a ultima Guerra Mundial. Ele também dizia, sempre repetidamente, que existem guerras invisíveis em torno de nós. Guerras espirituais entre o Bem e o Mal. Entre a Luz e as Trevas.
Eu tenho assistido pela televisão alguns momentos do julgamento do Mensalão do PT, e sempre observo na parede, por trás dos ministros, um crucifixo pendurado. Bem sei que hoje em dia é considerado um símbolo religioso intruso em lugares públicos - e isso incomoda muita gente. Tudo é “relativo” atualmente. Na cultura de massa, o coletivo impera sobre o indivíduo, pulverizando a vulgarização dos valores, do Belo, do Ético, do Sagrado, que não suporta símbolos como aquele.
A Guerra de Canudos nunca acabou. Ela também é uma guerra invisível. Os canhões e fuzis de metade do exército nacional não foram bastante para destruir o discurso de um homem que, lastreado por ações de justiça social na sua Belo Monte, pregava que: “Só Deus é grande”. Se o seu discurso era incompreensível naquele mundo positivista de uma república recém nascida, ele permanece cristalizado nas palavras de Euclides da Cunha, o seu cronista maior:
 “... Que inimigo incompreensível este !....não nos iludamos. Há nesta luta uma face misteriosa que deve ser desvendada.”
O crucifixo enigmaticamente pendurado por trás dos ministros do Supremo Tribunal Federal, me fez lembrar dessas coisas. Essas coisas loucas que confundem os sábios. Essas coisas fracas que confundem os fortes. Da importância das escolhas que, na vida, a gente precisa fazer bem cedo, para não viver imaginando ser possível servir a dois senhores, alheio às guerras a nossa volta.

Luis Manoel Siqueira