quinta-feira, 4 de outubro de 2012

KYRIE


As chuvas finas, todas elas, sabem vestir as noites da cidade de uma melancolia úmida e luminosa. Não importa a geografia, o tempo, as circunstâncias.
Eu dirigia o carro ao lado do meu pai, quando passamos por um velho catador de lixo que puxava uma carroça com o mesmo vagar da chuva que caía numa avenida do Recife. O sinal fechou e o velho, aos poucos, encostou-se ao muro de uma casa, sentando-se na calçada.
- Pare o carro ali perto. Disse meu pai.
Eu atendi o seu pedido e ele desceu. Retirou a carteira do bolso e estendeu algumas notas para o carroceiro que, estendendo o braço, murmurou algo, e guardou o dinheiro no bolso da camisa.
Meu pai voltou ao carro visivelmente emocionado. Respirou um pouco. Então dei partida no motor, seguindo o nosso caminho.
As chuvas finas são chamadas pelos sertanejos de “chuvas criadoras”. Diferentemente das torrenciais, que lavam impiedosamente a terra, elas se distribuem de forma mais homogênea, permitindo a lavoura absorver melhor os nutrientes, sem aborto das flores.  Elas também penetram mais fundo no solo, preenchendo as fissuras das rochas, recarregando os aqüíferos, vicejando as fontes de surgência, enchendo os corpos de água e riachos.
É o preço da melancolia. A moeda paga pelos frutos e borboletas. Pelos novos ninhos. Pela comida na mesa, o milho, o feijão - o tempero dos justos.
O asfalto das cidades não permite a penetração das águas na terra e ainda torna mais nebulosa e triste a visão dos homens que, sem esperança de frutos, catam o lixo que produzem para viver.
- O que o velho lhe disse? Perguntei ao meu pai.
Com os olhos úmidos ele me respondeu:
- Agradeceu e depois pediu que eu orasse por ele.
A chuva fina cai sobre todos, no campo ou na cidade.  A nem todos os homens é dado escolher os frutos da terra. Mas todos precisam de misericórdia.


Luis Manoel Siqueira