quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A GUERRA SILENTE DE TODO DIA



O inferno é uma reunião de condomínio que nunca termina. O diabo sentado no meio da roda ouvindo as reclamações, demonstrações de patrimônios, vaidades, intrigas, mesquinharias. O síndico sorri, e quando fica sério, joga uns contra os outros.

O trânsito é uma corrida de bigas de aço procurando nada em coisa nenhuma. Uma corrida sem linha de chegada comum. Existem regras? não para todos. As regras são para os otários. Os espertos quebram as regras e chegam primeiro. E passam na frente. E trancam. E buzinam mais. E chegam primeiro a lugar nenhum.

O trabalho é uma escola de cinismo. Quem veste a camisa da família coorporativa e faz de conta que vivencia as normas estabelecidas, dos manuais dos especialistas em recursos humanos, vira um bom funcionário e abre a janela a um futuro tumor em alguma parte do corpo, em alguma parte da alma.

A sociedade o quer inserido no consenso. Não importam suas opiniões pessoais ou visão de mundo. A ditadura do consenso o quer no meio da galera, no meio da aeróbica, repetindo gestos e aforismos bem aceitos, politicamente corretos. Seja criativo dentro daquilo que já foi criado. Aceite o aceitável e ria do risível. A vida em sociedade virou um manual de chavões medíocres escritos em pára-choques de gente. Em sites internéticos iluminados por belas gravuras. O kitsch é o fluido da vida possível e consumível. Fora do kitsch nada pode ser compreendido.

À espada contra os lobos. Em Canudos, em Walden, em outros sertões e veredas. Nas solidões das noites insones, nas varandas dos apartamentos em busca de um sentido e gosto para a vida: às espadas! No gotejar do tubo de soro dentro da UTI, contando as horas dos ponteiros na parede, por uma lembrança de um beijo dilacerado, um grito de prazer e amor perdido. Por uma fotografia do que deveria ter sido e não foi. Por uma irresponsabilidade, um arrependimento, uma felicidade jogada no lixo. Pela reinvenção da vida noutros tempo, noutros pastos, pelo segredo escondido no sorriso natimorto. À espada, todos, contra o enxame de lobos ao redor da esperança!



sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O EVANGELHO SEGUNDO MÁRIO



Ainda que eu soubesse falar a língua dos anjos, se não tivesse amor, de que adiantaria? E de que me serviria falar essa língua sem ter a compreensão da reta Justiça?

Há uma igreja invisível, inexprimível e infinita. Sou membro dela. Nem sempre compareço com uma pomba da paz, mas, na maioria das vezes, com uma espada.

São muitos os demônios. Não é fácil.

Perdi a tolerância de antes. Uma parte de mim virou cimento. Não perco mais tempo com explicações. Aquela velha ingenuidade clara, mínima e necessária para se começar a vida? Perdi também. A preocupação em ser simpático e agradar, de seguir o “manual” das conveniências. A fé nos homens? Quase toda. Um pouco menos nos bem humorados. O bem humorado, segundo Mark Twain, merece a consideração possível da confiabilidade: o bom humor, segundo o velho do Mississipi, brota do fundo do coração. Mas há também aqueles que geralmente preferem uma gargalhada a um laço de corda em volta do pescoço.

A lente de ver os homens é a que retém a essência primeira: a infância. Existem homens que se perderam dos meninos que foram um dia. E os perderam para sempre. Fito alguém que chega, e se não encontro a criança impressa em marca d’água no rosto, disfarço, desculpo-me, vou me afastando devagar. Eu os temo. Fujo deles, antes que eu também vire um monólito que anda e fala. Do tédio do mundo, basta o meu, acumulado no cotidiano atravessado à fórceps: Eu me perdi do caminho de casa, é verdade. Junto com vários brinquedos, figurinhas, livros, retratos. Do caniço e anzol com que eu pescava traíras no açude, debaixo do cajueiro, com meu avô, também. Mas de meus sonhos – ah, não todos ainda!

Um dia liguei a televisão e vi um menino idoso declamando um poema seu. Era um profeta falando a língua dos anjos! – aquela que luto todo dia para aprender, em vão. Ele falava da reta justiça. E me senti menos só no mundo. 


"Jazia no chão, sem vida,
E estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grave beleza…
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
As fundas marcas da idade,
Das canseiras, da bebida…
Triste da mulher perdida
Que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
Foi levada ao necrotério.
E quando abriam, na mesa,
O seu corpo sem mistério,
Que linda e alegre menina
Entrou correndo no Céu?!
Lá continuou como era
Antes que o mundo lhe desse
A sua maldita sina:
Sem nada saber da vida,
De vícios ou de perigos,
Sem nada saber de nada…
Com a sua trança comprida,
Os seus sonhos de menina,
Os seus sapatos antigos!"



(PEQUENA CRONICA POLICIAL – MÁRIO QUINTANA)



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO



Esta semana a imprensa internacional divulgou que a cidade de Port Clinton antecipou o Natal. O menino Devin está com um câncer cerebral agressivo e caiu na besteira de dizer que não queria perder o Natal deste ano. Logo em Port Clinton! Deu no que deu: a cidade resolveu antecipar o Natal. As casas se enfeitaram. As pessoas usaram gorros vermelhos, ergueram uma árvore de Natal e puseram um coral pra cantar na frente da janela de Devin. Até Papai Noel chegou numa moto!

Em plena temporada de Halloween (festa tipicamente brasileira, principalmente do atual governo), Port Clinton – vejam só – antecipou o Natal para Devin não perder. Convenhamos, existem coisas na vida que são imperdíveis: Um banho de chuva. Uma gargalhada. O início das férias da escola. Espiar escondido uma mulher nua tomando banho. E o Natal na infância? O Natal é uma delas. Mas há quem perde todos eles. E há quem perde até a infância.

A vida apronta cada uma...

Eu nasci em Port Clinton. Isso mesmo: Port Clinton é minha pátria. Conheço todo mundo de lá: Dos vaqueiros aos pescadores. Dos vendedores das feiras aos velhinhos que jogam dominó na praça. Passei a vida deixando meu rastro pelos quatro cantos do mundo, mas na verdade, eu nunca saí daquela cidade sertaneja de um Sertão tão alto, vizinha de tantas outras. Fui moleque de suas ruas. Jogava bola descalço, empinava pipas coloridas e namorei as meninas mais bonitas da cidade.

Pedrinho, meu sobrinho mais novo, que também nasceu em Port Clinton, tem uma maneira muito interessante de interromper a brincadeira com seus soldadinhos ou carrinhos em miniatura. Quando alguém avisa que é hora de parar de brincar e dormir, ou tomar banho e almoçar, ele se constrange um pouco. Mas depois se vira para os brinquedos e diz assim:

- Continua no próximo episódio!

As crianças sabem disso melhor que nós, os adultos. A festa continua depois.





quinta-feira, 10 de outubro de 2013

DEDICIO E SEU CAVALO


Eu tive na vida a oportunidade de conhecer príncipes europeus herdeiros presuntivos. Na simples casa de meu pai, por um bom tempo, frequentavam  governadores, ministros, embaixadores, grandes empresários e nomes famosos da República. Desde cedo caminhei sobre tapetes vermelhos de palácios, entre carros oficiais, e protocolos e formalidades.
Um dia, a minha vida mudou e fui trabalhar no garimpo. Convivi entre as feras por dez anos. Homens–cicatrizes. Restos de homens. O garimpo marcou minha vida de uma forma indelével.

Quando cansei e a vida mudou de novo, fui ser agricultor. Mais dez anos no sertão da Bahia, nas margens do Rio São Francisco. (Eu gostava de nadar de noite, olhando as estrelas...) Lá conheci vaqueiros, pescadores e Seu Dedício: Um leão em forma de gente. Ele e seu cavalo branco, que subiam a serra para tombar madeira para ganhar o pão. E alimentar uma família inteira. Contratei-o para trabalhar comigo várias vezes.
Dedício tinha sido até estivador no porto de Santos. Voltou para Sento Sé. Contava-me muitas estórias, que eu ia anotando. Dos garimpos de ametista do Icaibro, dos fatos marcantes de sua região e até do Caboclo d’água que ele viu dentro do Rio. Ele viu. Acredito que viu. Eu acredito em homens como Seu Dedício.
Uma vez recebi a visita de um amigo-irmão, professor de lingüística da UNICAP, o grande Fanuel Paes Barreto, e levei-o à casa de Seu Dedício. Ele então nos contou, com tristeza, a recente agonia da morte de seu cavalo branco.
Na saída, Fanuel estava maravilhado com a sua estrutura narrativa. Um encanto. Poesia pura. Uma declaração de amor ao animal que tanto lhe ajudara na vida.
Nunca mais o vi. Sei que nunca mais o verei. Mas gostaria de registrar aqui uma coisa, e soltar nos ventos da internet (será que eles passam em Brejo de Dentro, em Sento Sé?).
- Seu Dedício, o senhor é um dos homens mais importantes que eu conheci!

FOTO DE DEDÍCIO E SEU CAVALO - 1988



(LUIS MANOEL SIQUEIRA. Modificado do post publicado no Assum Preto – www.assumpreto.zip.net em 28/01/2007)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A VIDA SÓ FAZ SENTIDO DE FRENTE PARA TRÁS




Os canhões do exército miravam o Alto da Favela, um dos pontos mais combativos da Guerra de Canudos. Depois os soldados vitoriosos voltaram para suas vidas miseráveis no Sul. Todos negros ou mestiços. Ocuparam um morro do Rio de Janeiro com seus barracos. "Morro da Favela", batizaram. (A folha da Favela no sertão, quando caí, os bodes engordam mesmo na seca). Favela é nome de resistência e de exclusão. O bode come e Favela. O homem come o bode. A Favela come a cidade.


Disseram que a maestrina era uma gerente? Disseram que a maestrina era competente? A maestrina quer ser chamada de Maestra. Então, escutemo-la em sua orquestra dissonante. A dissonância caoticafônica da orquestra da maestra maestrina. Quantas partituras agônicas para fazer a sinfonia? A Maestra também diz ser faxineira. De que serve uma vassoura no lugar de uma batuta? Quando um dia, outra futura orquestra for tocar a peça composta, o que dirá o respeitável público?



Tua presença era alegria de meus dias.  O olhar, o jeito de pentear o cabelo e sorrir. As palavras que eu tentava dizer e não foram ditas, pois não encontrava em livros, nem os alfabetos exprimiam o tanto o que as palavras calavam. Rondava aquela casa, insone, e como um tigre faminto, de cima da clarabóia, tentava chegar mais perto, como quem vela um sono em segredo. A vida desmanchou os ramalhetes, os bilhetes. Tornou madrigais sem nexo. Para onde foram carinhos riscados no corpo? Um dia, na frente, me caso e telefonas aos prantos, com perguntas e soluços em língua estranha: terra da ternura perdida.

                                           
Meu velho chega ao aeroporto arrastando os pés inchados de edemas. No hospital, almoça comigo, conversa, faz suas preces onde sempre estou. Os exames chegam traçando nuvens pesadas. Os médicos emudecem aos poucos. O hospital vira uma casa aonde as luzes vão aos poucos se apagando. Numa noite, acordo assustado. Meu velho me olha de pé, ao lado do sofá onde durmo. Olha-me em silêncio e intensamente.

-Que foi Pai? O que o senhor tem?

Dias depois, na cama do hospital, ele me dá o seu ultimo presente: Um retrato.






sexta-feira, 13 de setembro de 2013

COMO VARRER UMA TEMPESTADE



Nuvens pesadas surgiram sobre Santa Luzia. Corri para debaixo de uma marquise. Duas senhoras na minha frente varriam a rua diante de suas casas. Olhavam-se e sorriam em silêncio. Quando começou a chuva forte, continuaram varrendo e se olhando e sorrindo. Percebi que na verdade  elas queriam apenas tomar banho de chuva.

A primeira vez que fui a Santa Luzia, procurava um lapidário que morava lá. Fiquei hospedado no hotel do estado, onde se pode ver a bela cordilheira de serras ao fundo, e as casas branquinhas de cal da cidade. Nunca pensei que vinte anos depois iria voltar tantas vezes para me hospedar ali.

De noite, as calçadas das ruas ficam cheias de cadeiras na frente das casas, e as crianças brincam e pessoas conversam e dão boa noite aos que, como eu, passam caminhando com inveja daquela vida. Sopra um vento agradável na cidade, mesmo no verão: Um “corredor de vento”, como dizem os sertanejos do seridó paraibano.

Do alto do cruzeiro, ela lembra uma pequena cidade ibérica, onde o branco das paredes caiadas predomina, sobretudo no tempo da seca, quando o fundo cinzento da vegetação da caatinga a realça e emoldura.

Sempre que vejo as outras cidades com tristes casas de tijolo aparente, sem reboco, lembro de Santa Luzia. Quando vejo os tétricos conjuntos habitacionais financiadas pelo governo federal às margens das rodovias, com blocos de minúsculas casas monótonas, coladas umas nas outras, sem árvores, sem praça, sem becos, sem graça, lembro de Santa Luzia. 

Quando vejo o Recife trancado dentro dos prédios, condomínios, as calçadas ora ausentes ou esburacadas, o trânsito agônico, eu me lembro de Santa Luzia e pergunto: o que faz um povo ter uma estética própria, que permeia atitudes e hábitos e maneiras? O que faz uma cidade ser diferente da outra - ruas limpas, jardins cuidados, metais brilhando na cozinha?  O que faz senhoras virarem meninas e saírem de casa no meio de uma tempestade, com os vestidos ensopados e, sorrindo, varrer a água que corre pela rua?


SANTA LUZIA - PB

terça-feira, 3 de setembro de 2013

SINHOZINHO



De todas as estórias que vivi com Sinhozinho, em garimpos e viagens pelo país, recordo de uma insólita visita que fizemos a uns garimpeiros presos por roubo de esmeraldas em Campo Formoso. Fui à cadeia levado por ele, onde conheci os ladrões que ele fazia questão de visitar todos os dias. Soube, depois, que numa dessas visitas, o carcereiro esqueceu Sinhozinho lá dentro, e saiu para resolver algum assunto particular. O povo, na cidade, ao saber que ele ficara esquecido dentro da cela, fez um romaria burlesca para visitá-lo, lamentando o fato de como ele fora capaz de fazer parte de um assalto daqueles.

Recordo ainda ele dançando no meio da praça, ao som de um alto falante, enquanto as pessoas gritavam: “Olha o urso, olha o urso !” E das pedras que tirava da terra, lapidava e comercializava: Esmeraldas, ametistas, topázios. Centenas de milhares de dólares desfilando pelos seus dedos, e ele sorrindo, com um estranho ar de desprezo por aquilo tudo. Uma vez, foi seqüestrado por bandidos em Copacabana, levado para uma favela, e pediram-lhe as pedras, dólares ou perderia a vida. Sinhozinho acalmou os bandidos, dividiu com eles as pedras, e voltou com outras tantas no bolso. E vivo.

Lembro dessas estórias e de muitas outras. Uma delas, numa fazenda dele no alto sertão baiano, onde eu e meu pai fomos pesquisar uns calcários para corretivo de solo. Preparei um macarrão com sardinhas e, mais tarde, fui dormir ao relento, num banco de madeira. Acordei de madrugada assustado com um cavalo de sentinela, ao meu lado, que me olhava demoradamente, como se velasse meu sono.

Devo a ele tanto, e nunca lhe disse isso. Disse apenas o quanto o queria bem. Mas faltou dizer mais, muito mais.

Passei doze anos escrevendo NERUEGA, e hoje me sinto mais ou menos como os ladrões de esmeraldas na cadeia de Campo Formoso, só que sem direito a tão ilustre visita. O meu livro é impregnado de pessoas boas, generosas e humildes como ele. 

Muitos anos depois, quando meu pai contou do ônibus que vinha de Fortaleza e caiu dentro de um açude, e que dentre os mortos estava Sinhozinho, um filme de lembranças nunca mais parou de rodar na memória encarcerada. E ao me perguntar: “Meu filho, onde é que vamos achar outro amigo como ele?”, eu contornei, dizendo que cada amigo é único, cada amigo é insubstituível, precioso. Mas hoje eu bem sei que não respondi a sua pergunta.



SINHOZINHO E EU - 1994

terça-feira, 13 de agosto de 2013

FUNDAÇÃO LUIS SIQUEIRA ?



Há poucas semanas, numa reunião para a discussão de propostas ao Marco Regulatório da Mineração, a Academia Pernambucana de Ciências e a Associação de Geólogos de Pernambuco sugeriram, de público, a criação de uma Fundação com o nome de meu pai.

Ser filho, amigo e confidente dele sempre me foi uma honra enorme. Mas também paguei um preço muito caro. De falsas bajulações quando ele ocupava cargos públicos, a ter de ouvi-lo sendo chamado de “reacionário” por colegas e professores no curso de Geologia da UFPE. No Mestrado de Geociências da UFRN, fui covardemente humilhado, agredido publicamente e vítima de tortura psicológica. Ainda assim trouxe de lá o recorde de menor tempo de conclusão, um convite do Governo da França. E seqüelas na saúde.

A Associação dos Geólogos de Pernambuco soube e nunca se posicionou a respeito. Foi omissa com dois colegas, um deles fundador e primeiro presidente. Aparei as lágrimas envergonhadas de meu pai, que me pediu desculpas pelo que eu estava passando.

Agora que a árvore tomba e se pode medir o seu exato tamanho, agora que o país agoniza nas ruas – a juventude cobrando aos “progressistas,” trabalho e honestidade, o nome de Luis Siqueira vira uma oportuna referencia.

O pai do poeta Alberto da Cunha Melo dizia que as homenagens, quando chegam tarde, chegam frias. O educador Paulo Freire o reconhecia como responsável pela sua formação. Benedito morreu pobre e esquecido em Jaboatão dos Guararapes.

As homenagens mais importantes que meu pai recebeu foram, em vida, a placa com seu nome na Sala de Informática no Colégio XV de Novembro, em Garanhuns. A outra, logo após a sua morte, o batismo com o seu nome pelo coral de sua igreja. Das restantes, sabe e cuida o céu.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A QUESTÃO FILIOQUE E OS DENTES DE UM CÃO MORTO



Certa vez, ouvi a apresentação de um grupo de cantores de ex-alunos da Universidade de Coimbra. Nunca me esqueci de um fado do repertório. Chamava-se “Samaritana”, da autoria de Álvaro Cabral. Era antigamente muito cantado pelos irreverentes estudantes, segundo dizem, para provocar a Igreja e os carolas. Senão vejamos:

“Dos amores do Redentor
Não reza a História Sagrada
Mas diz uma lenda encantada
Que o Bom Jesus sofreu de amor.

Sofreu consigo e calou
Sua paixão divinal,
Assim como qualquer mortal
Que um dia de amor palpitou.

Samaritana,
Da aldeia de Sicar,
Alguém espreitando
Te viu Jesus beijar
De tarde quando
Foste encontrá-lo só,
Morto de sede
Junto à fonte de Jacó."

Nasci e me criei no mundo calvinista presbiteriano: igreja aos domingos e colégio e cultos diários, além de aulas de Bíblia. Aos 17 anos, cansado e desiludido com várias coisas, dentre elas, o encarceramento da verdade e normatização das coisas divinas, escrevi ao pastor da igreja que ia embora e nunca mais voltei.

As epifanias me surgiram depois. Muitas. Pelas estradas, nos garimpos, na agricultura, nas pessoas humildes. Ainda surgem. Inclusive e, principalmente, na conversa com as gentes do interior, das brenhas, nas pequenas cidades que percorri e onde trabalhei, que recriavam o Mistério segundo suas capacidades interpretativas e suas circunstâncias de vida.

O sagrado e o profano – um revelando o outro.

A Questão Filioque dividiu o mundo. Derramou sangue. A busca doentia pela compreensão do incompreensível alimenta orgulhos e vaidades eclesiais até hoje. Os céus loteados pelas igrejas. E o mistério todo vira um dogma triste e sem cor. Porém, de vez em quando, numa ruazinha, passa uma procissão, e o Mistério Divino vira um menino a correr atrás de uma bola, ou uma mulher cantando ao lavar roupas.

                                        *      *      *

Um amigo meu, o grande violonista Evandro Maniçoba, contou-me o fato narrado por um médium durante uma sessão espírita:

“Aconteceu e não está escrito na Bíblia. O Jesus andava por uma cidade, quando uma bela e jovem prostituta gritou seu nome:

 - Vem cá, rapaz, vem fazer amor comigo!

E Jesus respondeu-lhe:

 -Eu te darei o meu amor, mulher, um dia, mas não agora!

Muitos anos depois, passando pela mesma cidade, Jesus parou diante de uma pobre casa onde algumas pessoas se aglomeravam. Ele entrou e encontrou a mesma prostituta, agora velha, moribunda,  se despedindo da vida. Ele sentou-se em sua cama, tomou-a nos braços e, beijando e acariciando seus cabelos, disse-lhe as últimas palavras antes da morte:

- Este é o amor que guardei para te dar.”

De volta ao Filioque, quem é maior: O pai, o Filho ou o Espírito? Que me importa? A procissão passa. Leva a bandeira com a imagem de uma pomba costurada. A bandeira do Divino. Escutemo-los! Cantam, cheios de esperança e fé, pelas ruas, o povo, que recria os céus - epifania que respira e anda. Seja na canção triste do cego de feira, ou na bandeira de Antonio, o Conselheiro. Na alegre da Festa de Reis, dos presépios e pastoris.

                                            *     *       *

Numa manhã de Natal de algum dia dos anos 1960, acordei com um barulho na sala e vi meu pai colocando um presente para mim junto da árvore. Corri, chorando, para os seus braços:

- Então o senhor é Papai Noel...

Ele me sentou no colo, enxugou minhas lágrimas e contou-me uma estória que ouvira quando criança, no sertão do Pajeú. Uma estória carregada de significados, que só fui compreender direito muitos anos depois:

“Dizem que um dia, Jesus estava andando com seus discípulos e passaram junto de um cachorro morto, com a boca aberta, em estado de decomposição. Exalava um cheiro terrível. Os discípulos então lhe disseram:

-Veja que horrível imundície, Mestre!

E Jesus lhes respondeu:

- Verdade, é muito feio mesmo. Mas observem, como são belos os seus dentes!”

quinta-feira, 18 de julho de 2013

CORRE, FELIPE!



O helicóptero da Polícia Federal frequentemente passava sobre mim, a boca das metralhadoras mirando a caatinga. Eu carregava apenas uma bússola, um mapa, e a lembrança de um veado mateiro que pulara na frente da Toyota, atravessando a estrada. Sertão de Carnaubeira da Penha, Pernambuco. Berço de Lampião, o Rei do Cangaço, no passado. Hoje em dia, terra de povoados inteiramente abandonados; as casas perfuradas de tiros resultantes de brigas com a Polícia. Quase todos os antigos moradores viviam de plantação de maconha. (Maconha, no sertão pernambucano, é sinônimo de progresso).
 Eu havia locado com meu pai quatro poços em povoados vazios. Era interesse do governo repovoá-los algum dia. Por isso a água poderia chamá-los de volta – a água sempre determinou a distribuição geográfica do homem nordestino. A água e a desesperança.
De volta para Serra Talhada, passei o resto da tarde a perambular pela cidade, esperando a noite e, com ela, o único  ônibus que segue para o Recife, que por coincidência, possui o nome “Progresso” escrito nas laterais.
Foi quando ouvi, no inicio de uma avenida, um enorme barulho de alto falantes que fez parar o comercio, e atrair as pessoas. Era um circo chegando à cidade, em um desfile pelo centro.
- Senhoras e senhores, temos a satisfação de anunciar ao povo de Serra Talhada, a chegada do nosso circo!
Não recordo o nome dele. Mas lembro muito bem de um sujeitinho que estava parado na calçada, ao meu lado, um projeto de homem, com seus três anos de idade, todo arrumado, de mãos dadas com uma babá que, assim como ele, assistia deslumbrada o desfile dos caminhões coloridos.
O primeiro caminhão carregava um belo dromedário, tendo ao lado uma bailarina e um domador. O segundo caminhão levava um simpático filhote de elefante que se balançava, dançando ao som da música do alto falante: o rabo e a tromba em contínuo movimento, como se fossem batutas de um maestro de orquestra. E por fim, fazendo a maior algazarra deste mundo, no último caminhão, meia dúzia de palhaços com seus trejeitos e piruetas de sempre. Atrás deles, pelo meio da rua, vinha uma grande turma de meninos moleques, sorrindo, descalços, pulando e acenando para os palhaços. Pareciam um bando de ratinhos encantados pelo som da flauta mágica de Wagner. Foi aí que, para o meu espanto e alegria, o menino ao meu lado soltou-se da mão da babá e saiu em disparada,  correndo pela rua, atrás da meninada humilde que seguia o circo. A babá tomou um susto e saiu correndo atrás dele, gritando:
- Felipe venha cá!
Porém, o danadinho já ia longe, quase alcançando a molecada.
- Venha cá Felipe! - Corria e gritava a coitada, cheia de cuidados.
Eu então me sustentei na calçada. Já estava de barba branca, poucos cabelos, 42 anos bem vividos...
Porém, uma voz antiga e mais forte do que eu, teimou e despertou dentro de mim,  também gritando bem alto:
“- Corre Felipe! Corre atrás do que pede o teu coração bom e puro. Corre atrás da vida e da alegria que se proclama. Corre e desperta, com tua carreira, o menino que eu fui e deixei que se perdesse na floresta.  Corre e anima o meu coração, como o salto do veado cruzando a estrada, como um poço de água que jorra no meio do povoado vazio!
“- Corre, Felipe!”





 
                                                                                                                                

(Luis Manoel Siqueira - Breviário de Heresias Sertanejas - Inédito)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A PROCURADA



Perdeu-se a moeda? Varre a tua casa. A moeda vale a vassoura e a casa. Vale a dona da casa e seus sonhos. Sobretudo os sonhos. Perde-se uma moeda dessas na vida e perde-se tudo: a esperança, o  amor próprio e o sentido de viver. Ela é como o dente de Dom Quixote perdido na luta:
“- Sancho, um dente vale mais que um diamante!”
Por menor que seja o valor, ela vale um país. Uma nação desanimada. Um cântico novo nas ruas. Uma bandeira tremulando ou um beijo! A flor presa no teu cabelo, as minhas mãos e as tuas!
Vale a quebra dos silêncios dos mortos, de medo ou de fome. De desamparo ou de abandono. Vale um Mestre Vitalino numa pensão velha, sendo mostrado ao povo como curiosidade mórbida - a varíola lhe levando para a eternidade. Vale o menino cearense que perguntou à mãe antes de morrer se tinha pão no céu, e a jovem mãe pobre que desistiu da quimioterapia para dar a luz no Hospital das Clínicas no Recife. E beijar o filho pela primeira e última vez.
Procura a moeda, revira os móveis da casa. Ela vale todo o futuro. As aulas multiseriadas, os poços roubados, a merenda suprimida, o açude seco.
Acendam as fogueiras nas ruas, procurem a moeda perdida, ela abre as narinas fechadas pela de cola de sapateiro. Ela aborta prisioneiros, salvando uma criança ali, no hospital sem remédios, nas escola sem bancos, no tribunal venal.
Que ninguém durma sem esquecer deixar de procurar por essa Dracma perdida, esses vinte centavos de luz.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

A PRINCESA DIANA E A IRMÃ DE ZÉ GRANDE



Quando a irmã de Zé Grande morreu, ouvimos um aviso no rádio. Saímos eu e ele de manhãzinha cedo para nos certificar do ocorrido. Tudo a nossa volta estava cinza devido à seca prolongada e somente um carcará velho apareceu para nos escoltar da estrada de terra até o asfalto.
Ao chegarmos na casa onde uma outra irmã dele trabalhava como empregada doméstica, ficamos sabendo da tragédia. A sua irmã mais nova, de dezoito anos, mãe de um menino de colo e com um marido tão novo quanto ela, havia se enforcado de noite no banheiro. Que motivo ? perguntamos. Nenhuma resposta à vista. A pobreza da família era como uma velha amiga estimada. Nem ela tão pouco estava doente. Apenas encontraram na sua bolsa, a foto de outro rapaz.
No necrotério, ao lado da delegacia, enquanto esperávamos que um político trouxesse o caixão prometido, a imprensa de rádio perguntava com insistência os detalhes da morte com direito a transmissão direta para todo aquele sertão ouvir.
       O velho pai me abraçou com uma triste pergunta: “E agora, o que eu faço ? nem roupa direito essa menina tinha. Como é que eu vou enterrar uma filha nua ?”
Quando voltei para a fazenda, passei primeiro na barragem e só saí de noite. Trazia na lembrança o sorriso de um menino órfão que me sorria inocentemente, ao lado do caixão da mãe. Então, para o meu próprio espanto, reuni os trabalhadores e pedi que rezássemos todos um Pai Nosso para a irmã de Zé Grande. As vozes em uníssono me fizeram calar. E o nível de água ameaçou entornar pelos olhos a fora. Mas o tempo passou. O tempo sempre passa. E quase sempre, repetidamente.
 Exatamente um ano depois eu soube pela televisão que a Princesa de Gales e o seu novo namorado haviam morrido num acidente de carro em Paris. Estavam fugindo da imprensa, o motorista do carro havia bebido, quando se deu o acidente. Horas depois, acharam perdido no meio das ferragens do carro, um anel de diamantes – presente que lhe seria dado como selo de noivado.
Eu pessoalmente nunca havia prestado muita atenção na Princesa de Gales, nas suas andanças pelo mundo, nas festas elegantes que freqüentava. Mas lembrei de um famoso poema de John Donne onde ele dizia que a morte de todo homem nos diminui. Então fiquei me perguntando o que havia de semelhante entre a morte da irmã de Zé Grande e da Princesa Diana. O que havia em comum entre estas duas mortes trágicas separadas por um ano ?
O fato  de estarmos todos completamente sós nesse mundo e nessa vida. Todos igualmente sujeitos ao golpe impiedoso do acaso. Somos todos pequenos organismos da natureza, conchas de caramujos vazias batidas pelo mar na areia da praia. Gastamos nosso tempo preocupados com religiões e profecias, amuletos e rezas sem fim, na esperança que uma outra suposta vida nos seja reservada. Uma Segunda vida onde o sonho de viver seja eterno e nunca mais interrompido numa curva, numa escada, na lâmina de uma faca, num leito de hospital.
Mas a natureza apenas continua o seu curso imperturbável, e a única resposta concreta que temos é o grande e infinito silêncio.
      “O reino dos céus está dentro de vós !” Bradou alguém que um dia  implorou aos céus para não morrer.
Que estranhas regras regem o jogo de dados do universo ?
Anéis de noivado, fotografias perdidas, conchas vazias na areia da praia.
Entende-se agora por quem os sinos dobram ?


(Luis Manoel Siqueira - Publicado no Jornal Folha Verde - Petrolina - 1999)

segunda-feira, 25 de março de 2013

ESTANDARTES



Sertão central de Pernambuco, novembro de 2012. Uma mina de mineral metálico abandonada. A foto que tirei mostra um poço que abastecia 40 pessoas. O poço foi entupido com pedras. Destruíram a casa de proteção. Destruíram tudo ao redor.
Crianças penduraram uma carcaça de cabrito num arbusto ao lado do poço por brincadeira. Perguntei por água, não tem. Às vezes o caminhão pipa traz. Perguntei por escola. Tem uma, mas a merenda só dá pra três dias na semana.
Pela estrada enfileiram-se ossadas do gado morto. O aspecto de desolação em Carnaubeira da Penha é completo.
Quatro meses depois volto ao sertão. Outro lugar. Um povoado inteiro não toma banho há dias. Uma lata de água barrenta custa um real e cinquenta centavos. As terras aradas esperam ainda uma chuva que não veio. Quem plantou milho, já perdeu. 1300 municípios nordestinos agonizam com a seca.
Um jovem casal cria vacas em cima de uma serra a 1000 metros de altitude. Tiram o leite e vendem o queijo. Pergunto como conseguem? Não há mais pasto. Até o mandacaru já foi queimado, picado e dado ao rebanho! O jovem fazendeiro me responde que traz palma numa carroça e água em lombo de jumentos. Assim as vacas vão sobrevivendo.
Ele cavou uma cacimba numa depressão no granito em cima da serra e achou ossos de animais pré-históricos. Preguiças gigantes. Três redes de televisão foram filmar os ossos das preguiças gigantes. Dois jornais fizeram longas matérias sobre os ossos das preguiças gigantes. Órgãos federais foram acionados. Universidades. Pesquisadores foram ao local.
O fazendeiro garoto me mostrou o seu achado paleontológico guardado num saco de ração. Apertei sua mão. Parabenizei-o pelos belos úberes de suas vacas de leite. Pela delicia do seu queijo.
Na volta da viagem, por acaso, passei pelo novo estádio de futebol que está sendo construído para a copa do mundo em São Lourenço da Mata. Lembrei então da carcaça de cabrito pendurada pelos meninos de Carnaubeira da Penha.

Luis Manoel Siqueira