segunda-feira, 25 de março de 2013

ESTANDARTES



Sertão central de Pernambuco, novembro de 2012. Uma mina de mineral metálico abandonada. A foto que tirei mostra um poço que abastecia 40 pessoas. O poço foi entupido com pedras. Destruíram a casa de proteção. Destruíram tudo ao redor.
Crianças penduraram uma carcaça de cabrito num arbusto ao lado do poço por brincadeira. Perguntei por água, não tem. Às vezes o caminhão pipa traz. Perguntei por escola. Tem uma, mas a merenda só dá pra três dias na semana.
Pela estrada enfileiram-se ossadas do gado morto. O aspecto de desolação em Carnaubeira da Penha é completo.
Quatro meses depois volto ao sertão. Outro lugar. Um povoado inteiro não toma banho há dias. Uma lata de água barrenta custa um real e cinquenta centavos. As terras aradas esperam ainda uma chuva que não veio. Quem plantou milho, já perdeu. 1300 municípios nordestinos agonizam com a seca.
Um jovem casal cria vacas em cima de uma serra a 1000 metros de altitude. Tiram o leite e vendem o queijo. Pergunto como conseguem? Não há mais pasto. Até o mandacaru já foi queimado, picado e dado ao rebanho! O jovem fazendeiro me responde que traz palma numa carroça e água em lombo de jumentos. Assim as vacas vão sobrevivendo.
Ele cavou uma cacimba numa depressão no granito em cima da serra e achou ossos de animais pré-históricos. Preguiças gigantes. Três redes de televisão foram filmar os ossos das preguiças gigantes. Dois jornais fizeram longas matérias sobre os ossos das preguiças gigantes. Órgãos federais foram acionados. Universidades. Pesquisadores foram ao local.
O fazendeiro garoto me mostrou o seu achado paleontológico guardado num saco de ração. Apertei sua mão. Parabenizei-o pelos belos úberes de suas vacas de leite. Pela delicia do seu queijo.
Na volta da viagem, por acaso, passei pelo novo estádio de futebol que está sendo construído para a copa do mundo em São Lourenço da Mata. Lembrei então da carcaça de cabrito pendurada pelos meninos de Carnaubeira da Penha.

Luis Manoel Siqueira