quarta-feira, 26 de junho de 2013

A PROCURADA



Perdeu-se a moeda? Varre a tua casa. A moeda vale a vassoura e a casa. Vale a dona da casa e seus sonhos. Sobretudo os sonhos. Perde-se uma moeda dessas na vida e perde-se tudo: a esperança, o  amor próprio e o sentido de viver. Ela é como o dente de Dom Quixote perdido na luta:
“- Sancho, um dente vale mais que um diamante!”
Por menor que seja o valor, ela vale um país. Uma nação desanimada. Um cântico novo nas ruas. Uma bandeira tremulando ou um beijo! A flor presa no teu cabelo, as minhas mãos e as tuas!
Vale a quebra dos silêncios dos mortos, de medo ou de fome. De desamparo ou de abandono. Vale um Mestre Vitalino numa pensão velha, sendo mostrado ao povo como curiosidade mórbida - a varíola lhe levando para a eternidade. Vale o menino cearense que perguntou à mãe antes de morrer se tinha pão no céu, e a jovem mãe pobre que desistiu da quimioterapia para dar a luz no Hospital das Clínicas no Recife. E beijar o filho pela primeira e última vez.
Procura a moeda, revira os móveis da casa. Ela vale todo o futuro. As aulas multiseriadas, os poços roubados, a merenda suprimida, o açude seco.
Acendam as fogueiras nas ruas, procurem a moeda perdida, ela abre as narinas fechadas pela de cola de sapateiro. Ela aborta prisioneiros, salvando uma criança ali, no hospital sem remédios, nas escola sem bancos, no tribunal venal.
Que ninguém durma sem esquecer deixar de procurar por essa Dracma perdida, esses vinte centavos de luz.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

A PRINCESA DIANA E A IRMÃ DE ZÉ GRANDE



Quando a irmã de Zé Grande morreu, ouvimos um aviso no rádio. Saímos eu e ele de manhãzinha cedo para nos certificar do ocorrido. Tudo a nossa volta estava cinza devido à seca prolongada e somente um carcará velho apareceu para nos escoltar da estrada de terra até o asfalto.
Ao chegarmos na casa onde uma outra irmã dele trabalhava como empregada doméstica, ficamos sabendo da tragédia. A sua irmã mais nova, de dezoito anos, mãe de um menino de colo e com um marido tão novo quanto ela, havia se enforcado de noite no banheiro. Que motivo ? perguntamos. Nenhuma resposta à vista. A pobreza da família era como uma velha amiga estimada. Nem ela tão pouco estava doente. Apenas encontraram na sua bolsa, a foto de outro rapaz.
No necrotério, ao lado da delegacia, enquanto esperávamos que um político trouxesse o caixão prometido, a imprensa de rádio perguntava com insistência os detalhes da morte com direito a transmissão direta para todo aquele sertão ouvir.
       O velho pai me abraçou com uma triste pergunta: “E agora, o que eu faço ? nem roupa direito essa menina tinha. Como é que eu vou enterrar uma filha nua ?”
Quando voltei para a fazenda, passei primeiro na barragem e só saí de noite. Trazia na lembrança o sorriso de um menino órfão que me sorria inocentemente, ao lado do caixão da mãe. Então, para o meu próprio espanto, reuni os trabalhadores e pedi que rezássemos todos um Pai Nosso para a irmã de Zé Grande. As vozes em uníssono me fizeram calar. E o nível de água ameaçou entornar pelos olhos a fora. Mas o tempo passou. O tempo sempre passa. E quase sempre, repetidamente.
 Exatamente um ano depois eu soube pela televisão que a Princesa de Gales e o seu novo namorado haviam morrido num acidente de carro em Paris. Estavam fugindo da imprensa, o motorista do carro havia bebido, quando se deu o acidente. Horas depois, acharam perdido no meio das ferragens do carro, um anel de diamantes – presente que lhe seria dado como selo de noivado.
Eu pessoalmente nunca havia prestado muita atenção na Princesa de Gales, nas suas andanças pelo mundo, nas festas elegantes que freqüentava. Mas lembrei de um famoso poema de John Donne onde ele dizia que a morte de todo homem nos diminui. Então fiquei me perguntando o que havia de semelhante entre a morte da irmã de Zé Grande e da Princesa Diana. O que havia em comum entre estas duas mortes trágicas separadas por um ano ?
O fato  de estarmos todos completamente sós nesse mundo e nessa vida. Todos igualmente sujeitos ao golpe impiedoso do acaso. Somos todos pequenos organismos da natureza, conchas de caramujos vazias batidas pelo mar na areia da praia. Gastamos nosso tempo preocupados com religiões e profecias, amuletos e rezas sem fim, na esperança que uma outra suposta vida nos seja reservada. Uma Segunda vida onde o sonho de viver seja eterno e nunca mais interrompido numa curva, numa escada, na lâmina de uma faca, num leito de hospital.
Mas a natureza apenas continua o seu curso imperturbável, e a única resposta concreta que temos é o grande e infinito silêncio.
      “O reino dos céus está dentro de vós !” Bradou alguém que um dia  implorou aos céus para não morrer.
Que estranhas regras regem o jogo de dados do universo ?
Anéis de noivado, fotografias perdidas, conchas vazias na areia da praia.
Entende-se agora por quem os sinos dobram ?


(Luis Manoel Siqueira - Publicado no Jornal Folha Verde - Petrolina - 1999)