quinta-feira, 18 de julho de 2013

CORRE, FELIPE!



O helicóptero da Polícia Federal frequentemente passava sobre mim, a boca das metralhadoras mirando a caatinga. Eu carregava apenas uma bússola, um mapa, e a lembrança de um veado mateiro que pulara na frente da Toyota, atravessando a estrada. Sertão de Carnaubeira da Penha, Pernambuco. Berço de Lampião, o Rei do Cangaço, no passado. Hoje em dia, terra de povoados inteiramente abandonados; as casas perfuradas de tiros resultantes de brigas com a Polícia. Quase todos os antigos moradores viviam de plantação de maconha. (Maconha, no sertão pernambucano, é sinônimo de progresso).
 Eu havia locado com meu pai quatro poços em povoados vazios. Era interesse do governo repovoá-los algum dia. Por isso a água poderia chamá-los de volta – a água sempre determinou a distribuição geográfica do homem nordestino. A água e a desesperança.
De volta para Serra Talhada, passei o resto da tarde a perambular pela cidade, esperando a noite e, com ela, o único  ônibus que segue para o Recife, que por coincidência, possui o nome “Progresso” escrito nas laterais.
Foi quando ouvi, no inicio de uma avenida, um enorme barulho de alto falantes que fez parar o comercio, e atrair as pessoas. Era um circo chegando à cidade, em um desfile pelo centro.
- Senhoras e senhores, temos a satisfação de anunciar ao povo de Serra Talhada, a chegada do nosso circo!
Não recordo o nome dele. Mas lembro muito bem de um sujeitinho que estava parado na calçada, ao meu lado, um projeto de homem, com seus três anos de idade, todo arrumado, de mãos dadas com uma babá que, assim como ele, assistia deslumbrada o desfile dos caminhões coloridos.
O primeiro caminhão carregava um belo dromedário, tendo ao lado uma bailarina e um domador. O segundo caminhão levava um simpático filhote de elefante que se balançava, dançando ao som da música do alto falante: o rabo e a tromba em contínuo movimento, como se fossem batutas de um maestro de orquestra. E por fim, fazendo a maior algazarra deste mundo, no último caminhão, meia dúzia de palhaços com seus trejeitos e piruetas de sempre. Atrás deles, pelo meio da rua, vinha uma grande turma de meninos moleques, sorrindo, descalços, pulando e acenando para os palhaços. Pareciam um bando de ratinhos encantados pelo som da flauta mágica de Wagner. Foi aí que, para o meu espanto e alegria, o menino ao meu lado soltou-se da mão da babá e saiu em disparada,  correndo pela rua, atrás da meninada humilde que seguia o circo. A babá tomou um susto e saiu correndo atrás dele, gritando:
- Felipe venha cá!
Porém, o danadinho já ia longe, quase alcançando a molecada.
- Venha cá Felipe! - Corria e gritava a coitada, cheia de cuidados.
Eu então me sustentei na calçada. Já estava de barba branca, poucos cabelos, 42 anos bem vividos...
Porém, uma voz antiga e mais forte do que eu, teimou e despertou dentro de mim,  também gritando bem alto:
“- Corre Felipe! Corre atrás do que pede o teu coração bom e puro. Corre atrás da vida e da alegria que se proclama. Corre e desperta, com tua carreira, o menino que eu fui e deixei que se perdesse na floresta.  Corre e anima o meu coração, como o salto do veado cruzando a estrada, como um poço de água que jorra no meio do povoado vazio!
“- Corre, Felipe!”





 
                                                                                                                                

(Luis Manoel Siqueira - Breviário de Heresias Sertanejas - Inédito)