terça-feira, 13 de agosto de 2013

FUNDAÇÃO LUIS SIQUEIRA ?



Há poucas semanas, numa reunião para a discussão de propostas ao Marco Regulatório da Mineração, a Academia Pernambucana de Ciências e a Associação de Geólogos de Pernambuco sugeriram, de público, a criação de uma Fundação com o nome de meu pai.

Ser filho, amigo e confidente dele sempre me foi uma honra enorme. Mas também paguei um preço muito caro. De falsas bajulações quando ele ocupava cargos públicos, a ter de ouvi-lo sendo chamado de “reacionário” por colegas e professores no curso de Geologia da UFPE. No Mestrado de Geociências da UFRN, fui covardemente humilhado, agredido publicamente e vítima de tortura psicológica. Ainda assim trouxe de lá o recorde de menor tempo de conclusão, um convite do Governo da França. E seqüelas na saúde.

A Associação dos Geólogos de Pernambuco soube e nunca se posicionou a respeito. Foi omissa com dois colegas, um deles fundador e primeiro presidente. Aparei as lágrimas envergonhadas de meu pai, que me pediu desculpas pelo que eu estava passando.

Agora que a árvore tomba e se pode medir o seu exato tamanho, agora que o país agoniza nas ruas – a juventude cobrando aos “progressistas,” trabalho e honestidade, o nome de Luis Siqueira vira uma oportuna referencia.

O pai do poeta Alberto da Cunha Melo dizia que as homenagens, quando chegam tarde, chegam frias. O educador Paulo Freire o reconhecia como responsável pela sua formação. Benedito morreu pobre e esquecido em Jaboatão dos Guararapes.

As homenagens mais importantes que meu pai recebeu foram, em vida, a placa com seu nome na Sala de Informática no Colégio XV de Novembro, em Garanhuns. A outra, logo após a sua morte, o batismo com o seu nome pelo coral de sua igreja. Das restantes, sabe e cuida o céu.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A QUESTÃO FILIOQUE E OS DENTES DE UM CÃO MORTO



Certa vez, ouvi a apresentação de um grupo de cantores de ex-alunos da Universidade de Coimbra. Nunca me esqueci de um fado do repertório. Chamava-se “Samaritana”, da autoria de Álvaro Cabral. Era antigamente muito cantado pelos irreverentes estudantes, segundo dizem, para provocar a Igreja e os carolas. Senão vejamos:

“Dos amores do Redentor
Não reza a História Sagrada
Mas diz uma lenda encantada
Que o Bom Jesus sofreu de amor.

Sofreu consigo e calou
Sua paixão divinal,
Assim como qualquer mortal
Que um dia de amor palpitou.

Samaritana,
Da aldeia de Sicar,
Alguém espreitando
Te viu Jesus beijar
De tarde quando
Foste encontrá-lo só,
Morto de sede
Junto à fonte de Jacó."

Nasci e me criei no mundo calvinista presbiteriano: igreja aos domingos e colégio e cultos diários, além de aulas de Bíblia. Aos 17 anos, cansado e desiludido com várias coisas, dentre elas, o encarceramento da verdade e normatização das coisas divinas, escrevi ao pastor da igreja que ia embora e nunca mais voltei.

As epifanias me surgiram depois. Muitas. Pelas estradas, nos garimpos, na agricultura, nas pessoas humildes. Ainda surgem. Inclusive e, principalmente, na conversa com as gentes do interior, das brenhas, nas pequenas cidades que percorri e onde trabalhei, que recriavam o Mistério segundo suas capacidades interpretativas e suas circunstâncias de vida.

O sagrado e o profano – um revelando o outro.

A Questão Filioque dividiu o mundo. Derramou sangue. A busca doentia pela compreensão do incompreensível alimenta orgulhos e vaidades eclesiais até hoje. Os céus loteados pelas igrejas. E o mistério todo vira um dogma triste e sem cor. Porém, de vez em quando, numa ruazinha, passa uma procissão, e o Mistério Divino vira um menino a correr atrás de uma bola, ou uma mulher cantando ao lavar roupas.

                                        *      *      *

Um amigo meu, o grande violonista Evandro Maniçoba, contou-me o fato narrado por um médium durante uma sessão espírita:

“Aconteceu e não está escrito na Bíblia. O Jesus andava por uma cidade, quando uma bela e jovem prostituta gritou seu nome:

 - Vem cá, rapaz, vem fazer amor comigo!

E Jesus respondeu-lhe:

 -Eu te darei o meu amor, mulher, um dia, mas não agora!

Muitos anos depois, passando pela mesma cidade, Jesus parou diante de uma pobre casa onde algumas pessoas se aglomeravam. Ele entrou e encontrou a mesma prostituta, agora velha, moribunda,  se despedindo da vida. Ele sentou-se em sua cama, tomou-a nos braços e, beijando e acariciando seus cabelos, disse-lhe as últimas palavras antes da morte:

- Este é o amor que guardei para te dar.”

De volta ao Filioque, quem é maior: O pai, o Filho ou o Espírito? Que me importa? A procissão passa. Leva a bandeira com a imagem de uma pomba costurada. A bandeira do Divino. Escutemo-los! Cantam, cheios de esperança e fé, pelas ruas, o povo, que recria os céus - epifania que respira e anda. Seja na canção triste do cego de feira, ou na bandeira de Antonio, o Conselheiro. Na alegre da Festa de Reis, dos presépios e pastoris.

                                            *     *       *

Numa manhã de Natal de algum dia dos anos 1960, acordei com um barulho na sala e vi meu pai colocando um presente para mim junto da árvore. Corri, chorando, para os seus braços:

- Então o senhor é Papai Noel...

Ele me sentou no colo, enxugou minhas lágrimas e contou-me uma estória que ouvira quando criança, no sertão do Pajeú. Uma estória carregada de significados, que só fui compreender direito muitos anos depois:

“Dizem que um dia, Jesus estava andando com seus discípulos e passaram junto de um cachorro morto, com a boca aberta, em estado de decomposição. Exalava um cheiro terrível. Os discípulos então lhe disseram:

-Veja que horrível imundície, Mestre!

E Jesus lhes respondeu:

- Verdade, é muito feio mesmo. Mas observem, como são belos os seus dentes!”