sexta-feira, 13 de setembro de 2013

COMO VARRER UMA TEMPESTADE



Nuvens pesadas surgiram sobre Santa Luzia. Corri para debaixo de uma marquise. Duas senhoras na minha frente varriam a rua diante de suas casas. Olhavam-se e sorriam em silêncio. Quando começou a chuva forte, continuaram varrendo e se olhando e sorrindo. Percebi que na verdade  elas queriam apenas tomar banho de chuva.

A primeira vez que fui a Santa Luzia, procurava um lapidário que morava lá. Fiquei hospedado no hotel do estado, onde se pode ver a bela cordilheira de serras ao fundo, e as casas branquinhas de cal da cidade. Nunca pensei que vinte anos depois iria voltar tantas vezes para me hospedar ali.

De noite, as calçadas das ruas ficam cheias de cadeiras na frente das casas, e as crianças brincam e pessoas conversam e dão boa noite aos que, como eu, passam caminhando com inveja daquela vida. Sopra um vento agradável na cidade, mesmo no verão: Um “corredor de vento”, como dizem os sertanejos do seridó paraibano.

Do alto do cruzeiro, ela lembra uma pequena cidade ibérica, onde o branco das paredes caiadas predomina, sobretudo no tempo da seca, quando o fundo cinzento da vegetação da caatinga a realça e emoldura.

Sempre que vejo as outras cidades com tristes casas de tijolo aparente, sem reboco, lembro de Santa Luzia. Quando vejo os tétricos conjuntos habitacionais financiadas pelo governo federal às margens das rodovias, com blocos de minúsculas casas monótonas, coladas umas nas outras, sem árvores, sem praça, sem becos, sem graça, lembro de Santa Luzia. 

Quando vejo o Recife trancado dentro dos prédios, condomínios, as calçadas ora ausentes ou esburacadas, o trânsito agônico, eu me lembro de Santa Luzia e pergunto: o que faz um povo ter uma estética própria, que permeia atitudes e hábitos e maneiras? O que faz uma cidade ser diferente da outra - ruas limpas, jardins cuidados, metais brilhando na cozinha?  O que faz senhoras virarem meninas e saírem de casa no meio de uma tempestade, com os vestidos ensopados e, sorrindo, varrer a água que corre pela rua?


SANTA LUZIA - PB

terça-feira, 3 de setembro de 2013

SINHOZINHO



De todas as estórias que vivi com Sinhozinho, em garimpos e viagens pelo país, recordo de uma insólita visita que fizemos a uns garimpeiros presos por roubo de esmeraldas em Campo Formoso. Fui à cadeia levado por ele, onde conheci os ladrões que ele fazia questão de visitar todos os dias. Soube, depois, que numa dessas visitas, o carcereiro esqueceu Sinhozinho lá dentro, e saiu para resolver algum assunto particular. O povo, na cidade, ao saber que ele ficara esquecido dentro da cela, fez um romaria burlesca para visitá-lo, lamentando o fato de como ele fora capaz de fazer parte de um assalto daqueles.

Recordo ainda ele dançando no meio da praça, ao som de um alto falante, enquanto as pessoas gritavam: “Olha o urso, olha o urso !” E das pedras que tirava da terra, lapidava e comercializava: Esmeraldas, ametistas, topázios. Centenas de milhares de dólares desfilando pelos seus dedos, e ele sorrindo, com um estranho ar de desprezo por aquilo tudo. Uma vez, foi seqüestrado por bandidos em Copacabana, levado para uma favela, e pediram-lhe as pedras, dólares ou perderia a vida. Sinhozinho acalmou os bandidos, dividiu com eles as pedras, e voltou com outras tantas no bolso. E vivo.

Lembro dessas estórias e de muitas outras. Uma delas, numa fazenda dele no alto sertão baiano, onde eu e meu pai fomos pesquisar uns calcários para corretivo de solo. Preparei um macarrão com sardinhas e, mais tarde, fui dormir ao relento, num banco de madeira. Acordei de madrugada assustado com um cavalo de sentinela, ao meu lado, que me olhava demoradamente, como se velasse meu sono.

Devo a ele tanto, e nunca lhe disse isso. Disse apenas o quanto o queria bem. Mas faltou dizer mais, muito mais.

Passei doze anos escrevendo NERUEGA, e hoje me sinto mais ou menos como os ladrões de esmeraldas na cadeia de Campo Formoso, só que sem direito a tão ilustre visita. O meu livro é impregnado de pessoas boas, generosas e humildes como ele. 

Muitos anos depois, quando meu pai contou do ônibus que vinha de Fortaleza e caiu dentro de um açude, e que dentre os mortos estava Sinhozinho, um filme de lembranças nunca mais parou de rodar na memória encarcerada. E ao me perguntar: “Meu filho, onde é que vamos achar outro amigo como ele?”, eu contornei, dizendo que cada amigo é único, cada amigo é insubstituível, precioso. Mas hoje eu bem sei que não respondi a sua pergunta.



SINHOZINHO E EU - 1994