quinta-feira, 10 de outubro de 2013

DEDICIO E SEU CAVALO


Eu tive na vida a oportunidade de conhecer príncipes europeus herdeiros presuntivos. Na simples casa de meu pai, por um bom tempo, frequentavam  governadores, ministros, embaixadores, grandes empresários e nomes famosos da República. Desde cedo caminhei sobre tapetes vermelhos de palácios, entre carros oficiais, e protocolos e formalidades.
Um dia, a minha vida mudou e fui trabalhar no garimpo. Convivi entre as feras por dez anos. Homens–cicatrizes. Restos de homens. O garimpo marcou minha vida de uma forma indelével.

Quando cansei e a vida mudou de novo, fui ser agricultor. Mais dez anos no sertão da Bahia, nas margens do Rio São Francisco. (Eu gostava de nadar de noite, olhando as estrelas...) Lá conheci vaqueiros, pescadores e Seu Dedício: Um leão em forma de gente. Ele e seu cavalo branco, que subiam a serra para tombar madeira para ganhar o pão. E alimentar uma família inteira. Contratei-o para trabalhar comigo várias vezes.
Dedício tinha sido até estivador no porto de Santos. Voltou para Sento Sé. Contava-me muitas estórias, que eu ia anotando. Dos garimpos de ametista do Icaibro, dos fatos marcantes de sua região e até do Caboclo d’água que ele viu dentro do Rio. Ele viu. Acredito que viu. Eu acredito em homens como Seu Dedício.
Uma vez recebi a visita de um amigo-irmão, professor de lingüística da UNICAP, o grande Fanuel Paes Barreto, e levei-o à casa de Seu Dedício. Ele então nos contou, com tristeza, a recente agonia da morte de seu cavalo branco.
Na saída, Fanuel estava maravilhado com a sua estrutura narrativa. Um encanto. Poesia pura. Uma declaração de amor ao animal que tanto lhe ajudara na vida.
Nunca mais o vi. Sei que nunca mais o verei. Mas gostaria de registrar aqui uma coisa, e soltar nos ventos da internet (será que eles passam em Brejo de Dentro, em Sento Sé?).
- Seu Dedício, o senhor é um dos homens mais importantes que eu conheci!

FOTO DE DEDÍCIO E SEU CAVALO - 1988



(LUIS MANOEL SIQUEIRA. Modificado do post publicado no Assum Preto – www.assumpreto.zip.net em 28/01/2007)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A VIDA SÓ FAZ SENTIDO DE FRENTE PARA TRÁS




Os canhões do exército miravam o Alto da Favela, um dos pontos mais combativos da Guerra de Canudos. Depois os soldados vitoriosos voltaram para suas vidas miseráveis no Sul. Todos negros ou mestiços. Ocuparam um morro do Rio de Janeiro com seus barracos. "Morro da Favela", batizaram. (A folha da Favela no sertão, quando caí, os bodes engordam mesmo na seca). Favela é nome de resistência e de exclusão. O bode come e Favela. O homem come o bode. A Favela come a cidade.


Disseram que a maestrina era uma gerente? Disseram que a maestrina era competente? A maestrina quer ser chamada de Maestra. Então, escutemo-la em sua orquestra dissonante. A dissonância caoticafônica da orquestra da maestra maestrina. Quantas partituras agônicas para fazer a sinfonia? A Maestra também diz ser faxineira. De que serve uma vassoura no lugar de uma batuta? Quando um dia, outra futura orquestra for tocar a peça composta, o que dirá o respeitável público?



Tua presença era alegria de meus dias.  O olhar, o jeito de pentear o cabelo e sorrir. As palavras que eu tentava dizer e não foram ditas, pois não encontrava em livros, nem os alfabetos exprimiam o tanto o que as palavras calavam. Rondava aquela casa, insone, e como um tigre faminto, de cima da clarabóia, tentava chegar mais perto, como quem vela um sono em segredo. A vida desmanchou os ramalhetes, os bilhetes. Tornou madrigais sem nexo. Para onde foram carinhos riscados no corpo? Um dia, na frente, me caso e telefonas aos prantos, com perguntas e soluços em língua estranha: terra da ternura perdida.

                                           
Meu velho chega ao aeroporto arrastando os pés inchados de edemas. No hospital, almoça comigo, conversa, faz suas preces onde sempre estou. Os exames chegam traçando nuvens pesadas. Os médicos emudecem aos poucos. O hospital vira uma casa aonde as luzes vão aos poucos se apagando. Numa noite, acordo assustado. Meu velho me olha de pé, ao lado do sofá onde durmo. Olha-me em silêncio e intensamente.

-Que foi Pai? O que o senhor tem?

Dias depois, na cama do hospital, ele me dá o seu ultimo presente: Um retrato.