quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A GUERRA SILENTE DE TODO DIA



O inferno é uma reunião de condomínio que nunca termina. O diabo sentado no meio da roda ouvindo as reclamações, demonstrações de patrimônios, vaidades, intrigas, mesquinharias. O síndico sorri, e quando fica sério, joga uns contra os outros.

O trânsito é uma corrida de bigas de aço procurando nada em coisa nenhuma. Uma corrida sem linha de chegada comum. Existem regras? não para todos. As regras são para os otários. Os espertos quebram as regras e chegam primeiro. E passam na frente. E trancam. E buzinam mais. E chegam primeiro a lugar nenhum.

O trabalho é uma escola de cinismo. Quem veste a camisa da família coorporativa e faz de conta que vivencia as normas estabelecidas, dos manuais dos especialistas em recursos humanos, vira um bom funcionário e abre a janela a um futuro tumor em alguma parte do corpo, em alguma parte da alma.

A sociedade o quer inserido no consenso. Não importam suas opiniões pessoais ou visão de mundo. A ditadura do consenso o quer no meio da galera, no meio da aeróbica, repetindo gestos e aforismos bem aceitos, politicamente corretos. Seja criativo dentro daquilo que já foi criado. Aceite o aceitável e ria do risível. A vida em sociedade virou um manual de chavões medíocres escritos em pára-choques de gente. Em sites internéticos iluminados por belas gravuras. O kitsch é o fluido da vida possível e consumível. Fora do kitsch nada pode ser compreendido.

À espada contra os lobos. Em Canudos, em Walden, em outros sertões e veredas. Nas solidões das noites insones, nas varandas dos apartamentos em busca de um sentido e gosto para a vida: às espadas! No gotejar do tubo de soro dentro da UTI, contando as horas dos ponteiros na parede, por uma lembrança de um beijo dilacerado, um grito de prazer e amor perdido. Por uma fotografia do que deveria ter sido e não foi. Por uma irresponsabilidade, um arrependimento, uma felicidade jogada no lixo. Pela reinvenção da vida noutros tempo, noutros pastos, pelo segredo escondido no sorriso natimorto. À espada, todos, contra o enxame de lobos ao redor da esperança!



sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O EVANGELHO SEGUNDO MÁRIO



Ainda que eu soubesse falar a língua dos anjos, se não tivesse amor, de que adiantaria? E de que me serviria falar essa língua sem ter a compreensão da reta Justiça?

Há uma igreja invisível, inexprimível e infinita. Sou membro dela. Nem sempre compareço com uma pomba da paz, mas, na maioria das vezes, com uma espada.

São muitos os demônios. Não é fácil.

Perdi a tolerância de antes. Uma parte de mim virou cimento. Não perco mais tempo com explicações. Aquela velha ingenuidade clara, mínima e necessária para se começar a vida? Perdi também. A preocupação em ser simpático e agradar, de seguir o “manual” das conveniências. A fé nos homens? Quase toda. Um pouco menos nos bem humorados. O bem humorado, segundo Mark Twain, merece a consideração possível da confiabilidade: o bom humor, segundo o velho do Mississipi, brota do fundo do coração. Mas há também aqueles que geralmente preferem uma gargalhada a um laço de corda em volta do pescoço.

A lente de ver os homens é a que retém a essência primeira: a infância. Existem homens que se perderam dos meninos que foram um dia. E os perderam para sempre. Fito alguém que chega, e se não encontro a criança impressa em marca d’água no rosto, disfarço, desculpo-me, vou me afastando devagar. Eu os temo. Fujo deles, antes que eu também vire um monólito que anda e fala. Do tédio do mundo, basta o meu, acumulado no cotidiano atravessado à fórceps: Eu me perdi do caminho de casa, é verdade. Junto com vários brinquedos, figurinhas, livros, retratos. Do caniço e anzol com que eu pescava traíras no açude, debaixo do cajueiro, com meu avô, também. Mas de meus sonhos – ah, não todos ainda!

Um dia liguei a televisão e vi um menino idoso declamando um poema seu. Era um profeta falando a língua dos anjos! – aquela que luto todo dia para aprender, em vão. Ele falava da reta justiça. E me senti menos só no mundo. 


"Jazia no chão, sem vida,
E estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grave beleza…
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
As fundas marcas da idade,
Das canseiras, da bebida…
Triste da mulher perdida
Que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
Foi levada ao necrotério.
E quando abriam, na mesa,
O seu corpo sem mistério,
Que linda e alegre menina
Entrou correndo no Céu?!
Lá continuou como era
Antes que o mundo lhe desse
A sua maldita sina:
Sem nada saber da vida,
De vícios ou de perigos,
Sem nada saber de nada…
Com a sua trança comprida,
Os seus sonhos de menina,
Os seus sapatos antigos!"



(PEQUENA CRONICA POLICIAL – MÁRIO QUINTANA)



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO



Esta semana a imprensa internacional divulgou que a cidade de Port Clinton antecipou o Natal. O menino Devin está com um câncer cerebral agressivo e caiu na besteira de dizer que não queria perder o Natal deste ano. Logo em Port Clinton! Deu no que deu: a cidade resolveu antecipar o Natal. As casas se enfeitaram. As pessoas usaram gorros vermelhos, ergueram uma árvore de Natal e puseram um coral pra cantar na frente da janela de Devin. Até Papai Noel chegou numa moto!

Em plena temporada de Halloween (festa tipicamente brasileira, principalmente do atual governo), Port Clinton – vejam só – antecipou o Natal para Devin não perder. Convenhamos, existem coisas na vida que são imperdíveis: Um banho de chuva. Uma gargalhada. O início das férias da escola. Espiar escondido uma mulher nua tomando banho. E o Natal na infância? O Natal é uma delas. Mas há quem perde todos eles. E há quem perde até a infância.

A vida apronta cada uma...

Eu nasci em Port Clinton. Isso mesmo: Port Clinton é minha pátria. Conheço todo mundo de lá: Dos vaqueiros aos pescadores. Dos vendedores das feiras aos velhinhos que jogam dominó na praça. Passei a vida deixando meu rastro pelos quatro cantos do mundo, mas na verdade, eu nunca saí daquela cidade sertaneja de um Sertão tão alto, vizinha de tantas outras. Fui moleque de suas ruas. Jogava bola descalço, empinava pipas coloridas e namorei as meninas mais bonitas da cidade.

Pedrinho, meu sobrinho mais novo, que também nasceu em Port Clinton, tem uma maneira muito interessante de interromper a brincadeira com seus soldadinhos ou carrinhos em miniatura. Quando alguém avisa que é hora de parar de brincar e dormir, ou tomar banho e almoçar, ele se constrange um pouco. Mas depois se vira para os brinquedos e diz assim:

- Continua no próximo episódio!

As crianças sabem disso melhor que nós, os adultos. A festa continua depois.