terça-feira, 30 de dezembro de 2014

UM GALO DE PRESÉPIO





Triste de quem não percebe o universo que se esconde por entre algumas coincidências da vida. Há quem nunca aprende a percebê-las  e digo, nem precisa entender, que a vida não é pra ser entendida. Banho de chuva na infância é uma delícia e não precisa explicação, assim como o chocolate, sorvete, e um beijo de amor.

Era tempo de Natal e havia um presépio armado no pátio do hospital. A sagrada família, os bois, pastores, anjos, ovelhas reis magos e, em cima do telhado, um galo também de cerâmica. Os contornos dos bonecos denunciavam a origem européia, mas só o galo era absoluta e imperiosamente lusitano.

E lá estava eu, no meio da noite, a pedir aos céus pelo fiapo de vida que se desprendia de metade de um descolamento de placenta. Todo dia uma imagem para ver se o feto estava vivo. E depois da agonia... ele ainda se mexia.

Uma noite, exaurido de forças e, como sempre, de minha pouca fé peregrina, cheguei desesperado diante do presépio e pedi que todos ali me ajudassem a parar aquela agonia. Supliquei em primeiro lugar ao Verbo. Depois, uma cadeia sucessória de autoridades celestiais que saí lembrando na hora. Nome por nome, um por um:  por favor, façam que ele sobreviva! E não esqueci Gabriel, Miguel e Rafael.

Depois, contemplando o presépio, pedi a cada um dos personagens. Pedi não, implorei. Um pranto silencioso de quem não aguentava mais ver um projeto de mãe passando por tanto sofrimento. Por fim, eu confesso, pedi também ao galo. Pois, se estava ali, era porque também merecia. E bem mais do que eu, que diferente dele, gastava rastro pelo mundo e praticava o mal – mas só de vez em quando.

Cinco meses depois ele nasceu. Encheu de luz uma casa triste. Mas era de sete meses, feio, doente: vinte e três dias de UTI neonatal e duas paradas respiratórias. Sobreviveu até ao levantar desconfiado das sobrancelhas dos médicos.

Quis o Destino, que também chamam de “Providencia”, que seis anos depois, procurando curar uma gripe resistente, com tosse e dor no peito, me levasse de volta ao mesmo hospital. Na mesma época natalina. E depois de exames e radiografias e remédios prescritos, sai do prédio e me deparei com o mesmo presépio. Mesmos personagens. Inclusive com o mesmo galo, desta vez promovido de lugar, e posto honrosamente ao lado da manjedoura.

Neste exato momento, acontece a coincidência: o meu celular toca. Paro na frente do presépio para tirá-lo do bolso e atender. Então uma voz de menino me pergunta do outro lado se eu estou lembrado do passeio da tarde, para brincar com o seu avião que voa movido a elástico. Eu confirmo a promessa e desligo. Olho para o presépio aparentemente emocionado - que gripe! e agradeço a cada um. Um por um. Seis anos depois. E terminei agradecendo ao galo também.

A minha heresia de idolatria será perdoada. Eu sempre achei que o Criador era maior do que as quatro paredes de minha igreja reformada. Alem do mais, meus pecados são tantos e minha fé tão pequena, que qualquer coisinha que sobra, eles aproveitam na justa contabilidade lá de cima.

Só Deus e suas loucas ferramentas para confundir os sábios, e reacender a esperança no coração dos fracos. 

Como é belo, mágico e insólito, um galo de presépio!


(Para Pedro, meu sobrinho)


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A MARCA DA VÍRGULA




O meu interesse era encontrá-lo caminhando na avenida, pela calçada. Querer um abraço talvez fosse demais. Apenas vê-lo caminhar com o seu balançar de corpo pausado, de um lado para o outro, a cabeça meio curva, cabelos brancos finos, o paletó azul inconfundível. Seria meu presente de Natal.

Fui até a avenida onde eu costumava encontrá-lo, e de como as vezes me via e sorria, feliz, e ao me abraçar me levava a tomar um café ali perto, e comentava alguma notícia da semana, ou de seu trabalho. Como aquilo me fazia bem...

Esperei no meio da multidão que passava apresada com as compras de Natal. As lojas a tocar canções da época, as luzes piscando. Esperei, esperei. Uma espera que sabia inútil e vã. Mas que eu precisava esperar, para que o final de ano tivesse um pouco de sentido para mim.

Andei de um lado para o outro: ninguém parecido com ele. Apenas a mesma avenida cheia de gente onde eu o encontrara tantas vezes. A noite foi chegando e entrei num bar. Não é que desistira de procurá-lo, apenas a noite começava a chegar e minhas pernas estavam cansadas. Voltei para o hotel, e no outro dia, para casa, sem encontrá-lo. Mas com o sentimento da missão cumprida de, pelo menos, tê-lo procurado.

Eu guardo no dedo da mão esquerda, uma cicatriz de um grande corte feito pelo vidro de uma mamadeira que caiu no chão no exato momento que ele chegou uma vez de viagem. Quebrei a mamadeira de alegria, assim que o vi chegar. Corri para ele chorando, com o dedo ensanguentado – coitado! e ele só fez largar a mala empoeirada no chão e me levar para o Pronto-Socorro para fazer um curativo. Tenho a cicatriz daquele encontro até hoje. Queria encontrá-lo de novo, só mais uma vez, para abraçá-lo com força e mostrar a marca da cicatriz no dedo. E dizer assim:


- Olha papai, é apenas a marca de uma vírgula. Não é a de um ponto final.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

TRÊS CIDADES E O CAMINHO PARA JERUSALÉM




Numa, havia um boi enorme de manso, pelo meio das ruas. As crianças montavam em cima dele, as outras puxavam pela corda. A cidade vivia sossegada debaixo da copa dos Ficus Benjamins, onde os velhos assistiam a vida dos netos passeando no lombo do animal. Um dia, muitos anos depois, construiram uma barragem no Rio de Piranhas, e a cidade foi submersa. Eu já era grande e mesmo assim fiquei triste com a notícia. Procurei na internet alguma foto. Achei poucas: a da torre da igreja fora d’água, apontado o céu azul do Sertão.

Em outra, uma lanchonete no centro servia papa de aveia aos idosos. Prato preferido pelos escravos das dietas, portadores de dentaduras e outras próteses da velhice. Claro que tinha sanduíche de carne de sol. E também de pernil de porco, sempre com tomates e cebolas. Mas os velhos pediam papa de aveia. Criaram então o boato que a papa estava matando os idosos. E a zoada se instalou na cidade a titulo de gozação. No dia que um dos times da cidade perdeu de goleada, um radialista inventou que os perdedores tinham comido a papa na véspera do jogo.

Da terceira e última, lembro de quando fui procurado por um rapaz franzino. Pediu-me que permitisse dormir no chão da garagem da repartição publica onde eu dava consultoria. Disse que havia passado dois dias em claro, ao lado da esposa, no hospital, por causa de uma gravidez de risco. Enfim, o menino nascera. Agora precisava dormir. Nem que fosse num pedaço de chão. Disse que era vendedor de salgados numa pequena cidade vizinha. E que tinha boas referencias, e que eu procurasse conferir. Tudo o que ele queria era um pedaço de chão para dormir, pois não se aguentava em pé. Fui com ele a uma pequena hospedaria ali perto e paguei-lhe um quartinho com ventilador. Era Natal – compreende-se – tempo de gente viajando a procura de onde passar a noite.

São Rafael, Campina Grande e Arcoverde: o rosto de uma cidade é desenhado pelo povo com suas estórias. O menino na manjedoura corre nas ruas, nas escolas, nas praças, orfanatos e asilos. A distancia de Belém até Jerusalém é uma via crucis que todos nós percorremos. É a ela que chamamos de “vida”.



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

ENTRE UM DEDO E UMA COLHER





A garçonete traz o prato de sopa com o dedo polegar dentro. O encanador não possui as ferramentas adequadas. O pedreiro se irrita quando se pede que obedeça a um padrão de trabalho. Uma recepcionista de órgão federal que come um pote de iogurte fazendo o dedo como colher, durante o trabalho. Um corpo de secretárias que não sabem redigir um ofício. A oficina mecânica que não sabe estabelecer uma data para entrega de serviços, e quando estabelece, não cumpre. O vereador que só aprova uma lei se receber propina. O prefeito que não sabe administrar nem planejar o futuro. O governo federal acuado por acusações de corrupção por todos os lados. Programas inúteis. Obras paralisadas. Nação dividida.

Encontrei a amiga num ponto de ônibus no domingo. Parei o carro e ofereci carona. Ela ia dar aulas para vestibulandos no Recife. Disse da indignação das mudanças recentes: não é mais cobrado literatura e nem gramática de quem quer entrar na universidade. Apenas redação. É mais ou menos assim: você tem de fazer um bolo excelente, mas sem os ingredientes.

Eu e Flávia Suassuna fomos conversando no carro. Somos de uma geração que engolia livros. Consumíamos livros como sorvete. Trocávamos, discutíamos. Ler, para nós, era um enorme prazer.

Não sei o que seria de mim hoje, sem os livros que li. Eles formaram o que sou. Eles ainda me auxiliam em tomadas de escolhas e na interpretação e compreensão da realidade da vida.

Comentei com Flávia que, nas grandes universidades do mundo, Harvard, Cambridge, Oxford, Sorbonne, Duke, entre tantas outras, ninguém consegue sequer começar um curso sem ler, interpretar à exaustão e discutir em sala com os professores e colegas, dezenas e dezenas de livros sobre diversos assuntos. E são nessas universidades que são formados os grandes gerentes de multinacionais, médicos, cientistas de renome, ministros, presidentes de nações – a maioria daqueles que decidem os rumos da nossa civilização. Lá, literatura e gramática é mais do que obrigatório: é alicerce!

E nós, aqui no Brasil? Estamos na contramão do mundo? Por quê? Com que objetivo?

Há pouco tivemos um presidente que se orgulhava publicamente de nunca ter lido um só livro. Hoje vemos o seu partido enlameado e seu nome como avalista. A atual chefa da nação profere, de improviso, discursos ininteligíveis, quando não grita com seus  subordinados. E não precisamos de literatura...


Naquele domingo, Flávia foi dar aula, eu fui à igreja. E assim, perseveramos na fé.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

BELEZA NA ARGAMASSA



BELA CONSTRUÇÃO URBANA EM ACARI - RN

O que existe em comum entre Paris, Roma, Praga, Veneza e Madri? A beleza. E de onde ela surgiu? Por que surgiu? Que ligação existe entre a beleza e o desenvolvimento econômico, cultural e social de um povo? Eu sempre me faço estas perguntas quando viajo pelo interior do Nordeste do Brasil, e vejo as horríveis vilas de conjuntos habitacionais financiadas pelos programas de governo. Tristes casinhas de dois quartos, saleta e cozinha. Arremedos de habitações, desumanas, espremidas umas nas outras, sem espaços de circulação nem praças e jardins para as crianças.

Vamos refinar a comparação: Por que não temos cidades parecidas com as vilas do interior da Espanha e Portugal, uma vez que somos umbilicalmente unidos pela influência da cultura ibérica? Por que as nossas habitações não possuem sequer a funcionalidade e harmonia das ocas dos nossos índios, circulares e comunitárias, todas elas, utilizando os materiais da região onde foram construídas. Por que  usamos tão pouco a cal, argila, adobe, madeira, as rochas, em nossas escolas publicas interioranas? Será por que são materiais baratos demais e as empreiteiras não conseguem justificar as comissões a serem pagas?

De onde surgiram nossas cidades interioranas com casas coladas umas nas outras, com quartos sem janelas, quentes e abafadas? Ou as do tipo “caixão”, quadradas, cheias de janelas basculantes com vidro “bico de jaca”?

Em que ponto a belíssima arquitetura colonial de Ouro Preto em Minas Gerais e Olinda em Pernambuco foram interrompidas, estupradas e substituídas pela coisa nenhuma? Por que nada foi acrescentado às “urbes”, à habitação popular, da rica e brasileira maneira de se viver nos Trópicos?

Guardem-se cidades como Triunfo-PE e Lençóis-BA, a maioria restante são acampamentos macaqueados do não-sei-o-quê, que ferem os olhos e dificulta a vida de quem ali vive, atestando o rótulo de acomodação e dificuldade de criar, ousar, empreender além dos programas sociais  medíocres.

Vi muitas habitações encravadas em pés de serra no meio da caatinga, cujos terraços e alpendres ainda hoje olham com altivez para os projetos mesquinhos das habitações urbanas.

Todos os grandes impérios da humanidade usaram o sangue como tinta para registrar suas conquistas. Paris, Roma e Berlim, sabem o quanto custou erguer suas belas arquiteturas. Mas essa beleza resistiu ao tempo e, assim como um farol que irradia luz, inspira e desafia suas gerações a reconstruir o futuro, sem repetir os erros do passado. 

E nós, aqui no Nordeste brasileiro, a quem seguiremos? Qual a nossa inspiração estética? Ou não temos?




quinta-feira, 20 de novembro de 2014

INVENTÁRIO DE QUINTAL





A velha era francesa e, moribunda, aguardava o beijo da morte. O menino subia as escadas e ela pedia que lhe dessem biscoitos. “Que riqueza, que riqueza ! vou lhe ensinarr uma chanson: A si fon,fon, fon, Le petit marionette...”

- Adeus, Grand Mere!

O velho tocava fogo em tudo o que via. Dizia que o fogo restaurava a vida. No São João, soltava fogos que pipocavam no céu chuvoso. E declamava poemas tristes e melancólicos. “Já sofri muito na vida”, dizia, mas sempre tinha uma piada pronta, uma gargalhada irreverente, antes de mergulhar os olhos azuis no lago sombrio. Foi ele quem me deu o primeiro copo de cerveja no Bar Savoy. Um só, cheio de espuma amarga. E me senti um homem aos dez anos de idade. Morreu cuspindo sangue devido às negras rosas que lhe brotaram nos pulmões.

- Adeus, Manoel fogueteiro!

A moreninha que dividiu a infância do meu lado gostava de cantar. Comprávamos discos juntos, numa coleção dos anos de nossa juventude. Depois no trabalho, a desenhar formas de ouro e prata com as pedras que eu trazia dos garimpos. Um sonho de ser feliz interrompido de forma insana. O abandono dos amigos e a chegada precoce da solidão final. Da última vez que a encontrei, abraçou-me e disse: “Eu te amo tanto!”

- Adeus, minha irmã!

Adeus, Bia, Pavio, adeus Celina, Sinhorzinho. Adeus amigos demais. Perdoem minhas distancias, minhas ingratidões e silêncios. Adeus ontem e hoje e sempre a todos os que comigo passam. Adeus antes que me esqueça, que me fique oca a cabeça. (Meu pai no hospital, à noite, ao pé do meu leito, dizendo-me adeus do seu jeito).

Adeus pedras e troncos e ventos, adeus fumos, saudades e rimas:

- Passei a vida toda cortando meus pés de laranja lima.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

PRECISA-SE DE GARÇONETE





A estória acontecida de fato foi assim: uma jovem desapareceu de casa. A família, desesperada, acionou a polícia e amigos para procurá-la. O seu pai, um coronel de prestígio na sociedade, utilizou de todos os meios possíveis de encontrar o seu paradeiro. A mãe era inutilmente consolada pelas amigas.

Passaram-se semanas sem ninguém encontrá-la.

Um dia, alguém chegou com a noticia tão esperada. O coronel foi de carro até uma cidadezinha do interior, e chegando num bar da beira da pista, encontrou a sua filha trabalhando como garçonete, servindo as mesas.
Levou-a para casa e também para um médico psiquiatra, que atestou o surto e prescreveu os remédios necessários.

Um destacado empresário do setor de alimentos uma vez me disse que a diferença entre o sucesso e o fracasso de um empreendimento é tão tênue quanto é o limite entre a sanidade e a loucura. Nunca me esqueci de suas palavras e ainda hoje reflito sobre elas. A História da humanidade é repleta de exemplos de sucessos e malogros, de vitórias e tragédias. Desde pessoas a impérios. Por motivos e razões diversas, que nem todos foram devidamente explicados pelas gerações seguintes.

O escritor e filósofo espanhol Ortega y Gasset proferiu uma frase cuja profundidade de significado ainda hoje motiva artigos e estudos sobre a compreensão da realidade e condição humana:

“Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim."

Quem observa o Brasil de nossos dias, neste final de 2014, encontra um vasto campo de estudo sociológico e político, embora facilmente corra o risco de se perder num labirinto sem saída de premissas movediças e teses de fumaça.

A humanidade, assim como dupla cadeia helicoidal de DNA, tende a se repetir ao longo do tempo, mas aqui e ali acrescenta um defeito novo sobre os quais a genética tanto se debruça.

Então, um dia, seja um tiro no meio da rua em Sarajevo, ou num gesto pusilânime de um chefe de estado, o equilíbrio do estado das coisas é rompido e a História é reescrita novamente. Outra vez, de novo.


Quem viaja pelo interior do Nordeste brasileiro desde a infância, como eu, aprende um pouco a enxergar no infortúnio trágico e universal das gentes, o teatro da pantomima humana a servir as mesas em um bar na estrada.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

DE SOFISMA EM SOFISMA


AGUADEIRAS DE XIQUE-XIQUE - ( Gautherot )


Em Custódia, fui fiscalizar um projeto de poços para abastecer a população rural com dinheiro do Banco Mundial. Estavam todos completamente errados. Perguntei quem havia locado poços de forma tão absurda com dinheiro público. “Um médico candidato a prefeito”, foi a resposta. Cancelei-os todos.

Em Ibimirim e Inajá, fui fiscalizar projetos públicos de construção de diversos poços profundos. Ao chegar nos locais das demandas, percebi que todos estavam situados em propriedades privadas e não em comunidades. Os poços eram, na verdade, para políticos e apadrinhados de políticos. E o pior é que, nas imediações, já existiam diversos poços públicos paralisados e sem instalações. Cancelei todos e sugeri instalar aqueles já existiam.

Em São José do Egito, fui ver projetos de construção de cisternas de placas para abastecimento de comunidades rurais. Quem apoiava o prefeito tinha direito. Quem não apoiava, não receberia as cisternas. Alterei o projeto. Mandei refazer e incluir todos os moradores, independente da posição política.

Então, pressionado, pedi demissão.

Falta água no Sistema de Barragens Cantareira em São Paulo, e o mundo vem abaixo. Falta gestão de recursos hídricos, lá e cá. Falta vergonha na cara dos políticos de uma forma geral. Falta respeito com técnicos, engenheiros, que trabalham no serviço público e cuja opinião vale menos que um cabinho eleitoral medíocre.

A água é recurso natural que se distribui pela terra de forma cíclica e heterogênea. Segue padrões que depende de fatores climáticos e geológicos, que variam no tempo e no espaço. Isto significa dizer que cada local possui uma solução adequada para a pesquisa e armazenamento de água para consumo. E essa complexidade natural advém do simples fato que as Ciências da Terra não são exatas.

Critérios políticos e conveniências eleitoreiras influenciando decisões técnicas, somente atrasam as soluções e geram enorme sofrimento e humilhação para os mais pobres. E terminam, um dia, por atingir a todos.

A Hidrogeologia brasileira teve, no Recife, um dos seus principais berços, com nomes de técnicos de renome internacional. Mas a pequenez dos governos nunca quiseram perder a moeda com lastro na água, para se perpetuarem no poder.

O atraso e superfaturamento das obras da transposição do Rio São Francisco é um monumento à ineficiência e inoperância das ações públicas, que teima em buscar uma panacéia que não existe. É uma prova de que o discurso e ações com matizes socialistas do atual governo petista não passa de cópias menores daquilo que sempre existiu no passado.


No mundo on-line em que hoje vivemos (e nos perdemos), o arroto de uma celebridade midiática qualquer vale mais do que a opinião de um técnico sério. E assim, de sofisma em sofisma, à serviço de quem distorce a verdade em favor de seus cargos públicos, vamos sendo tragados por um caos silencioso e de efeitos futuros devastadores.


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

DA GRÉCIA AO MOXOTÓ: BODE AO MOLHO DE POEIRA COM SALADA DE SAUDADE E ESPERANÇA




Ibimirim, Pernambuco, final da década de 1960. Eu viajava com meu pai pelo sertão do Moxotó perfurando poços para a população. Recordo que viajava com um insólito chapéu de couro de vaqueiro que ele havia comprado para mim. E comia mal, pelas estradas. E dormia mal nas poucas pousadas imundas. Foi assim que meu pai me ensinou a ser um pouco estoico – da mesma forma como fez o pai dele.
Paramos para o almoço no único restaurante que ficava no alto do povoado, na beira da estrada de terra, avistando a cidade. Um calor insuportável me tirava o apetite. O calor, as moscas e uma poeira fina que o vento quente soprava por sobre as mesas e os pratos de comida.

Serviram bode assado, feijão de corda e arroz. Foi então que uns meninos se aproximaram da nossa mesa e, de pé ao nosso lado, ficaram olhando a comida, esperando que terminássemos para comerem as sobras. Meu pai aproveitou para me dizer o quanto eu era feliz de ter tudo em casa, em comparação com aqueles meninos de minha idade.

Quase não comi de tanto constrangimento. Meu pai então mandou que servissem outra mesa e mandou as crianças comerem a vontade.  Um deles, bem magrinho, só de calção, era surdo mudo, comia com uma voracidade que nunca mais esqueci. Quase 50 anos depois, aquela cena ainda hoje me dói.

Numa tarde, um menino como aqueles interrompeu uma colheita de maracujá. Nossa propriedade produtiva de 147 hectares na beira do Rio São Francisco, fora conseguida com o suor da família ao longo de 18 anos de muito, muito trabalho. O menino chegou para mim e avisou que a produção estava confiscada pelo MST. Olhei os homens atrás deles. A minha fazenda estava invadida. Tomada. Roubada.

Com ordem judicial, sem tocar em ninguém, tirei-os uma vez. Na segunda, o coronel da polícia me alertou que eu corria risco de vida.

Lembro de meu pai olhando a fazenda invadida na porteira e chorando. Um homem honrado, um ex-servidor público exemplar, completamente desolado.

- Eu entrego a justiça a Deus, Luis! Ele me disse.

Doze anos se passaram. O governo bolchevique que assumiu patrocinou o MST, inclusive, através da PETROBRÁS, hoje, desmoralizada, como antro de corrupção petista. A fazenda que foi nossa, é hoje ocupada por famílias que nada produzem. Apenas recebem programas de assistência social.


Prometi honrar as lágrimas de meu pai. Ao longo da vida, no trabalho, em tudo o que faço, escrevo e digo. Mas peço a Deus que a sua justiça, caso venha, seja branda. O meu estoicismo pouco helenístico sempre foi muito frágil, sobretudo, para o sofrimento alheio.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

COMO SE DAR BEM NA VIDA





Quer “se dar bem” na vida? Interprete um personagem. Escolha um tipo e se vista com a personalidade virtual dele. De preferência, bem conveniente, para rimar com esses nossos tempos da ditadura do consenso. Seja qual for: politicamente correto, um tanto vago, muito gentil e séptico. Bajule quem estiver no poder e quem for famoso. Na ausência de conhecimento sobre algum assunto, diga assim:

- Isto é relativo.

Quer “se dar bem” na vida? Agrade! Agrade ao maior numero de pessoas possíveis em sua volta. Ande na moda, seja na indumentária, seja no falar, no gestual. Capriche nas fotos das redes sociais e “curta” tudo e a todos. “Siga” e procure ser muito seguido. Mostre a todo mundo como é belo o seu personagem, como é admirável a sua maneira de ver o mundo e como você é uma pessoa boa, generosa e preocupada com os temas em debate hoje em dia.

Quer “se dar bem” na vida? seja fugaz com seus relacionamentos, afinal, nada dura para sempre. O que vale para hoje pode não valer amanhã. O que passou, passou, e um bom advogado abre o processo e encerra o caso, o amor, a vergonha, a obrigação e, também, qualquer draminha de consciência. Colecione chavões, clichês, palavras feitas em voga. Elas servem para explicar o inexplicável e tudo aquilo que pode incomodar.

Colecione caras de paisagens, indiferenças e, matricule-se na academia do ego e do oportunismo. Leia o conto “O MEDALHÃO” de Machado de Assis e, escute bem: nunca, jamais leia ou recite o “POEMA EM LINHA RETA” de Fernando Pessoa. Concentre-se nos programas de auditório das televisões.


Quer “se dar bem” na vida? Esqueça esse negócio chamado de “Gratidão”. Lembre-se que futilidade e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Boa sorte!

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

LUIZ GONZAGA E EU



Foto: Diário de Pernambuco


Entrei numa agência bancária em Boa Viagem, no Recife – lembro bem. Um senhor de muletas estava sentado na mesa do gerente, ao lado da mulher. Fazia algum tempo que não nos falávamos direito. Eu ficara, sem saber, no meio de um tiroteio conjugal entre a sua primeira esposa e a atual companheira, ambas minhas amigas. Mesmo assim, me aproximei. Ele levantou com dificuldade e, deixando cair a muleta, me abraçou afetuosamente e disse:

- Continuo lhe amando.

Durante dez anos fui amigo de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Estive com ele horas antes dele falecer. Digo isso publicamente depois de 25 anos de sua morte, e digo pela primeira vez. Fui amigo de ir à sua casa, e ele várias vezes na minha - amigo que era também de meus pais. Fui amigo de ir buscar no aeroporto, jantar, almoçar, conversar em particular, trocar idéias e confidências. De lançar livros e discos juntos. De compartilharmos amigos. Eu carreguei aquela sanfona branca muitas vezes no meu carro.

Tenho como provas físicas de nossa amizade, um texto meu publicado num disco clássico seu, que ainda é vendido em CD e que foi mantido pela gravadora. E cartas e fotos e autógrafos e telegramas. E tenho mais: a única ciranda que ele gravou, “Portador do Amor”, ele fala em meu nome no final e me convida para entrar na dança.

As informações que tenho nunca foram procuradas por ninguém. E mesmo se me pedissem eu não as daria. E nunca as usei para me promover – o que fizeram muitos outros ditos “pesquisadores” e “especialistas” nos assuntos midiáticos do Sertão. Guardei-as comigo e vou inseri-las num livro que preparo sobre contabilidade de pedras em leitos de riacho, rastros, estórias mal assombradas e estrelas cadentes.

Porém, a despeito de tanto o que guardo em gavetas, ficou gravado na minha memória e na minha vida de uma forma indelével, a passagem de um homem singular, mesmo com todos os seus muitos defeitos, mas com uma virtude especial, que ia além do seu talento de gênio: A generosidade. Fui testemunha dela. E por ela encantado.

A generosidade distingue o homem. Dos demais. De tudo o que rasteja. Da insanidade da sociedade competitiva que construímos e onde vivemos agonicamente presos. Foram muitos os casos que presenciei – a maioria anônimos (que uma mão não viu o que a outra fez).


E a mim, o que direi? Não bastasse chamar publicamente um menino de 19 anos de escritor e querer que eu lhe escrevesse outra biografia. Confidenciou suas dores. Apelidou-me de “Zelação” e  convidou a dançar uma ciranda iluminada.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

FOGO EM CAFÉ FINO





A brincadeira consistia no seguinte: você não poderia pegar em nada sem antes pedir licença. Se fosse pego com algo nas mãos, o outro participante poderia lhe surpreender e dizer: “Arreie!“, e você seria obrigado a entregar o objeto, perdendo a sua posse.

Que terror era comer um doce, comer um chocolate, um picolé. Tinha de ser escondido, pois algum participante da brincadeira poderia me ver. E como eu perdia meu Deus. Era desligado, esquecido. E como os zombavam de mim!

A fazenda de meu avô havia sido, no passado, uma grande produtora de café fino. Produtores da região haviam recebido medalhas de institutos de certificado da França. Catavam os grãos maduros – somente os maduros. Daí a qualidade internacionalmente conferida.

Um dia, o mercado que sempre brincou com vidas humanas, derrubou os preços internacionais. Foi um Deus nos acuda. Fazendas inteiras arderam em chamas e passaram a plantar capim e criar gado de leite. Com a pecuária, as mãos que catavam o café ficaram sem emprego. Eu lembro a miséria. Eu lembro a pobreza. Até a casa grande do meu avô, só tinha de grande o nome, embora o fosse nas dimensões, era exemplo de uma vida espartana, simples e de uma frugalidade franciscana.

Alguns moradores resistentes ainda tentaram ficar. Dentre eles, O pai de Luzia.

Um dia, sorrateiro e pisando macio, contornei a casinha onde Luzia morava e a surpreendi lavando a louça pouca, branca e pobre. Garfos e colheres de alumínio retorcidos de tão usados.

- Arreie!

Ela tomou um susto na janela. Fechou a torneira da pia e, meio sem graça, entregou-me um molho de talheres humildes como ela. Humildes como a sua casinha de mesa e quatro tamboretes. Humildes como os olhos de seu pai, o sorriso de sua mãe a olhar para mim: o neto do fazendeiro. O neto do patrão.

Peguei os talheres como um troféu. Agora seriam meus! Agora seriam meus aqueles talheres. Aqueles talheres inúteis. Aqueles talheres desiludidos e sem esperança. A esperança queimada junto com o café fino. Aqueles talheres na minha mão ainda hoje doem dentro de mim.

Devolvi os garfos e colheres a Luzia, que me olhou e sorriu. Nunca me esqueci de seu sorriso. Nunca mais brinquei daquilo. Ela foi embora com a família para São Paulo. Arranjaram melhores empregos. Criaram a família. Venceram. Estive por lá um dia desses. Quarenta anos depois. Não a vi. Somente as irmãs mais velhas. Não me reconheceram de imediato. Só quando eu disse o nome. Custaram a acreditar.

A vida também brinca com a gente. E ela não se arrepende.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

TERROIR NOSTRUM




Se você passar por Sanharó-PE, pare o carro para comprar queijo de manteiga ou de coalho. A mesma coisa em Caicó-RN, de preferência, no Mercado Público. O queijo de Caicó tem um sabor e textura diferenciados devido ao pasto do gado, o capim mimoso, fino e amarelo ouro na seca. Pelo menos é o que me diziam quando criança.

Em Serra Talhada, São José do Belmonte -PE, procure o feijão vermelho “Fogo-na-Serra”. Em Triunfo, mais ao norte, também tem rapadura e aguardente. E um doce de laranja de corte que, dizem, foram as freiras alemães que desenvolveram a receita.

Em Piancó-PB, produzem o arroz vermelho da terra. Em Sousa, a água de coco verde parece que tem açúcar.

A melhor carne-de-sol é vendida no Mercado Publico de Caruaru, ao lado do Mercado de Farinha – pelo menos, em minha opinião. Em Arcoverde, se for época de frio, procure na feira a fava produzida na Serra das Varas. Há uma branca, grande e redonda, com formato de um botão que é divina.

A Pinha produzida em Pedra-PE, é inigualável, assim como o abacaxi das Serra das Russas. Não sei por quê. Um docinho vendido na feira de São José do Egito, conhecido como “Beira Seca”, feito com gergelim e rapadura, deve ser provado.

Em Floresta, Bode. De preferência, o da raça Moxotó. Quando na seca, o animal come a folha da Favela e o Alastrado: a carne tem sabor deliciosamente inconfundível.

Em Juazeiro, Caldo de Cari. Pouco importa se é afrodisíaco, pois é uma delícia a “Lagosta do São Francisco”, com uma taça de vinho de Lagoa Grande ou Santa Maria da Boa Vista.

A palavra “TERROIR”, de origem latina, significa hoje em dia, uma classificação de demarcação geográfica de um produto com características próprias doadas pela geologia, solo e clima. É usada na França para designar a origem de vinhos e queijos, por exemplo, além de outros produtos cuja origem possui atestado de qualidade e origem.

O que fazemos nós com nossas iguarias no nordeste? Produtos que atravessam séculos sendo consumidos e estimados, nascidos do esforço dos nossos agricultores, trazem a marca de nossa cultura, do nosso jeito de fazer?

Quando surgirão os nossos selos de qualidade "Terroir"? Desde o queijo da cabra do Cariri paraibano ou da banana e da uva de São Vicente Férrer? Produtos que complementam a renda de homens do campo, firmando-os na terra em que nasceram e produzem, oferecendo-lhes uma alternativa mais digna e honrosa do que uma “Bolsa Família”?

terça-feira, 2 de setembro de 2014

É ASSIM QUE FUNCIONA





Funciona mais ou menos assim:

O candidato a prefeito consegue dinheiro com empresários para comprar votos na campanha. Quando eleito, divide com eles as obras da prefeitura que são superfaturadas. Depois emprega a família e os amigos na prefeitura. Compra vereadores para que aprovem suas artimanhas. Ajuda a eleger deputados que, por sua vez o ajudam financeiramente a continuar no poder. E o ciclo se fecha, redondo.

Funciona mais ou menos assim:

Escola multiseriada. Uma coitada que chamam de professora, mal paga e mal capacitada, dá aulas a várias crianças de idades diferentes, todas ao mesmo tempo, numa mesma salinha com moveis quebrados e insuficientes. Isto é, quando o grupo escolar funciona. Pois há uma infinidade deles abandonados pelo êxodo rural no interior do nordeste. Vilas inteiras estão abandonadas. Todos nas cidades vizinhas. Distritos fantasmas.

Funciona mais ou menos assim:

Homens encapuzados param o ônibus, e com armas pesadas nas mãos fazem todos descer. Ficam todos nus, de noite, no meio da pista, homens mulheres e crianças. As malas são jogadas em cima de uma caminhonete que depois leva tudo, no meio da noite. Sigam para a Feira da Sulanca, em Caruaru ou Toritama, ou noutro trecho: é imprevisível.

Funciona mais ou menos assim:

Vamos discutir a cultura? Senta-se numa mesa de Mercado Público do Recife e desce cerveja. Desce aguardente. Panegíricos, elegias, elogios e vasto repertório de anedotas como tira-gosto. Ou vamos ao lançamento do livro. Mamulengos da mediocridade. Papangus da bajulação. Que belos intelectuais a serviço do próximo cargo público!

Funciona mais ou menos assim:

O açude tem água cheia de lodo. No açude lavam roupa, bebem animais que também urinam e defecam. A água do açude serve para dar banho nas crianças e também para cozinhar e beber. Tem um poço abandonado? Entupido? Mal perfurado? Não faz mal, afinal, foi feito com dinheiro do Banco Mundial. A transposição atrasada, superfaturada, a ferrovia vazia. E um jatinho que caiu em Santos cujo dono era uma peixaria. É mais ou menos assim que funciona. 


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

MECÂNICA DE ABERTURA DAS FLORES




Coxixola, município do sertão do Cariri paraibano, 1.800 habitantes. Caminho pela tarde vazia e encontro uma capela aberta. Sentada na frente, diante do altar, uma velhinha faz suas orações em silêncio. Entro e me sento. Bebo um pouco da paz que emana do lugar. Desde então, sou membro da capelinha de Coxixola. Lá ninguém me pergunta de onde sou, por que não vim no domingo passado. Sempre sinto vontade de ir a uma igreja, esteja onde estiver, fecho os olhos e estou de volta. A velhinha continua lá, rezando por mim.

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Richard me convidava para um banho noturno dentro da Barragem de Sobradinho. Originário da antiga Tchecoslováquia, cresceu em Mariánské Láznê, uma cidade balneário. Naturalizou-se brasileiro, quando fugiu do comunismo que perseguia seu pai. Mergulhava com meu amigo na escuridão da barragem profunda e nadavamos de costas olhando as estrelas. Aprendi muito sobre Deus com Richard. E ele nunca me falou nada diretamente sobre teologia. Apenas me oferecia sua amizade pura e limpa. Apenas nadava de noite comigo olhando as estrelas.

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Quando soubemos que meu avô tinha câncer de pulmão e poucos meses de vida, fizemos uma grande festa para ele na praia. De noite, eu, meu pai, uns tios e amigos sentamos na areia com um bom violão e bebemos e cantamos a noite inteira, até amanhecer o dia.  Cantamos todas as canções que conhecíamos. As de amor, as de desventura e de alegria. Foi a primeira e única vez que vi meu pai virar uma noite em serenata. Mas aquela era uma festa de despedida.

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Levei meu sobrinho de cinco anos com minha mãe e irmã a um circo francês armado na praia. No meio do espetáculo, um palhaço me arrasta ao picadeiro e me coloca como cantor de uma banda maluca que vai formando com pessoas do público. Começa o ensaio. Ele pede que eu cante. Abro a boca e sai no alto falante uma voz de tenor italiano. Pede que eu cante de novo e sai um enorme arroto. Meu sobrinho se exaspera:

- O que este palhaço vai fazer com meu tio? Não foi ele quem deu este arroto!

Eu nunca estive num picadeiro de circo. Foi a primeira vez. Somente aos 53 anos de idade é que, lamentavelmente, fui descobrir a minha verdadeira vocação.



segunda-feira, 18 de agosto de 2014

PEQUENA BLASFÊMIA





Uma criança Yazidi foi abandonada no deserto do Iraque pela mãe que fugia dos recentes ataques dos fanáticos islâmicos. Foi encontrado pelos curdos, que estimam que ele passou um dia inteiro debaixo do sol quente. A criança tem um lado do corpo paralisado e, segundo a BBC de Londres, ninguém sabe o seu nome.



 - Senhor, este menino sou eu, que não aceito nem entendo teus altos propósitos. Que não decolo do chão e rastejo pelo deserto ainda hoje, com sede do teu poço de água viva. Senhor, teu sol que brilha não me mata, apenas queima retinas, desenha cicatrizes. Teus ventos apagam meus rastros e não sei mais o caminho de volta, o mesmo dos passos errantes que até aqui me trouxeram. Senhor, eu sei dos samaritanos, mas é por teu nome que chamo no deserto e de minha boca não sai palavra alguma. Paralisado que vivo, meu Deus, nesta infância de vida que nunca termina e que não compreendo. Peregrino e só, como um menino abandonado na areia quente, sem o beneplácito de uma morte acolhedora. Longe e cansado dos rituais da fé. Longe e entediado dos paramentos litúrgicos. Longe dos mais longes dos hinos, dos sinos, das preces em honra de teu impenetrável nome.


Não me reconheces, Senhor, neste menino? Teu filho tantas vezes perdido? 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

NÃO ME CORTE MEU CABELO



Gustave Doré - "Ma Mère L'Oye"


Irmãs de vaqueiros cantaram para mim e meus irmãos: “Não me corte o meu cabelo que minha mãe me penteou!”. Canções assombradas de estórias noturnas, ao pé do berço, da cama, da febre. A mamadeira de vidro grosso na mão: seus cheiros de sabonetes baratos. Filhas do povo tangerino me acalentaram nos braços nas redes e o eco de suas vozes eu ainda ouço pela vida. De suas bocas desfilaram palavras trêmulas da leitura pouca: Os irmãos Grimm, A Condessa de Ségur, Andersen – estórias que elas também não conheciam. Aquelas de meninos e princesas perdidos.

Com o tempo, num estalo de dedos, juntaram trapinhos e fugiram para São Paulo. Tentar ganhar a vida perdida no meio do concreto: nunca mais as vi. Mães de aluguel cheias de cuidados nas suas juventudes marcadas pela humildade. Colos prontos para consolar qualquer pranto: brinquedo quebrado, pesadelo, arenga e birra.

Encontrei-as nas bocas de homens velhos depois, montado em cavalos, envoltos em couro e cheiro forte de suor, num barracão onde eu armava minha rede para ouvi-los conversar: a mesma linguagem, os mesmos olhares ora incendiados de vida, ora de escuridão de açudes. Encontrei-as ainda em garimpos de esmeraldas, melados de xisto como eu, comendo com solene silencio um arroz com pequi. A estória de suas vidas tatuadas nas cicatrizes dos corpos.

Essa gente virou concreto? Quem se lembra de mim?

Um dia falei com uma delas. A principal: Severina – que me desculpe João Cabral. Uma voz débil do outro lado do telefone. Assim, como nos sonhos. Nas estórias de trancoso. Assim como nas noites, num pranto de sonho ruim, numa tristeza profunda sem razão nenhuma de ser:

- Meu menino!

Disse que tinha ainda hoje, na parede de seu quartinho, tinha um retrato meu e de meus irmãos menores. Desconversei. Falei de outras coisas. Perguntei como estava. Falei de gentes. Outras cantigas de minha vida. Sorrimos.

Conheço essa gente! É a mesma que é enganada pelos governos. É a mesma que sustenta os governos em troca de muito pouco. É a mesma que mais sofre, mesmo sendo a que mais sangue deu. Essa gente que fica grata por qualquer coisa. E que logo pregam o retrato da pessoa na parede. Seja um santo, um político, ou seus ingratos meninos de colo.


terça-feira, 29 de julho de 2014

PROFISSÃO DE FÉ





Eu nunca me esqueci de um discurso inflamado de um presbítero da igreja que eu frequentava quando menino, acusando de “ladrão” quem não dava o dízimo. Eu vi pessoas constrangidas. E fiquei chocado e em silencio. O dedo em riste para acusar os pecados alheios afastou muita gente boa da igreja naqueles anos. Uma onda de conservadorismo dogmático presbiteriano varreu a vida de muitos jovens iguais a mim. Vi amigos meus, alguns filhos de pastores, se afastando do convívio da igreja de uma forma definitiva. Muitos se tornaram ateus ou agnósticos até hoje.

Eu saí da igreja aos 17 anos. Nunca mais voltei. Não encontrava mais a harmonia de antes. Concomitantemente com aquilo tudo, pipocaram escândalos entre pastores e presbíteros, de roubos, de adultérios e homossexualismos. Os tais sepulcros caiados...

Vaguei num limbo de niilismo melancólico por muito dos meus vinte e poucos anos.

Mas o sobrenatural possui tessituras de teias sem forma definida, que aos poucos vão enlaçando um peregrino na estrada e dirigindo a novos caminhos e paisagens. Gentes de longe, gentes simples: vaqueiros, garimpeiros, andarilhos, agricultores, foram me revelando outras faces de um Deus maior do que a minha igreja.

Depois, o livro da natureza abriu as páginas que precisei ler: gotas de água caindo de mangueiras de irrigação refletindo o por do sol, sementes germinando, pássaros canoros, crianças, sorrisos e tantas ternuras de mãos amigas. E o Eterno foi se revelando aos poucos, porém de uma forma completamente nova, límpida, múltipla e benfazeja.

Voltei a entrar numa ou noutra capela, de preferência sozinho. Muitas vezes para chorar. Mas não era mais a mesma pessoa, nem poderia.

De noite, na fazenda onde vivi nas margens do São Francisco, na Bahia, saia de madrugada para ligar a bomba de irrigação. E olhava o céu incendiado de estrelas. E sentia o vento com o cheiro da caatinga e do rio. Quantas vezes nadei naquelas águas frias de noite, tendo a escuridão como companheira, e o céu estrelado em cima de mim. E sentia a presença de meu Criador com uma suavidade tão intensa e calma, como nunca havia encontrado num templo católico ou protestante.

Também vi Deus nos olhos das mulheres que eu amava. Vi muitas vezes, enquanto elas se contorciam de prazer numa cama, olhando para mim, felizes e sorrindo.

Quando fiquei sem carro por causa de dificuldades financeiras, caminhava a pé, quatro cinco quilômetros carregando a feira nos braços. E nas noites sem lua, eu sentia a presença de alguém ao meu lado, alguém que eu não via e que me acompanhava em silencio, envolto pela escuridão.

Tantas foram as epifanias! Nem sei como contá-las. Sei apenas que elas me trouxeram de volta ao caminho perdido. À minha casa primeira. Aquela do suave peregrino morto entre dois ladrões. E que tinha nos montes, campos e desertos os locais preferidos para meditar.

Volto às igrejas de vez em quando. Nem sempre fico até o fim. Uma prece me basta. Um sorriso de criança me rouba a atenção. Uma mulher bonita que passa na fila de cadeiras da frente. Um velho que mira o altar com emoção contida enquanto afaga a sua bengala e espera: Tudo é mais belo do que a liturgia.

Do lado de fora, o ar da manhã de domingo me convida a caminhar pelas ruas. Ao longe vai ficando o som do coral, que termina por se misturar com as buzinas dos automóveis na rua.