terça-feira, 28 de janeiro de 2014

AS ALMAS VAQUEIRAS



Eu contei recentemente a Pedrinho uma estória das Almas Vaqueiras no Sertão. Para quem não sabe, segundo a crença, são as almas dos vaqueiros mortos que antes de subirem ao Paraíso, precisam cumprir uma missão: ajudar a quem precisa. Aparecem de noite pelas veredas. Procuram aquilo que se perdeu. Clareiam a visão turva dos vivos, aqueles que penam pela vida, cansados pelo excesso de sonhos que eles teimam em carregar nas costas.

Pedrinho sempre me pede uma estória antes de dormir. Cinco anos de imaginação e inocência. E lá vou eu procurar enredos, inventar detalhes, construir narrativas para lhe contar alguma coisa nova, interessante e boa.

Que estória contar a uma criança de cinco anos hoje em dia? Qual delas é possível no mundo dos tablets, dos celulares agônicos, que faça algum sentido, que ilustre uma mensagem qualquer? Doce tarefa difícil a minha, de contador de estórias pros sobrinhos. Tenho já o meu estoque esgotado e ainda não sei quanto tempo me resta. Essa profissão familiar passa muito depressa. Mas confesso que, de tudo o que já fiz na vida, foi uma das mais prazerosas. Por uns tempos ainda cheguei a pensar que era o melhor contador de estórias do meu bairro. Mas a minha presunção logo veio abaixo quando lembrei que Ariano Suassuna também morava ali perto.

O ofício é recheado de pequenas explosões de lembranças coloridas, como uma girândola de saudade, pois ocupo o lugar de meu pai. Vejo-me de novo numa cama a escutá-lo: João e Maria marcando o caminho de volta com grãos de milho. Milho que seria comido pelos passarinhos. Os mesmos que me deixaram meio perdido e sozinho na vida, na floresta de lembranças. Dele e de outros vaqueiros que se foram.

Por muitas vezes caminhei à noite pela caatinga, de noite - quatro quilômetros de escuridão! E tantas vezes senti uma presença quase física de alguém seguindo ao meu lado; quase ouvia uma respiração. Eu ficava todo arrepiado com aquela sensação tão estranha.


- Eu ainda hoje creio que era uma delas, Pedrinho. E me pergunto se, por ventura, alguma ainda me acompanha antes do fim da estória.



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

AULA MAGNA DE FLÁVIA SUASSUNA



O livro de Jó guarda mistérios profundos. Dentre eles, o da essência da natureza humana. Por que as pessoas boas e justas sofrem iguais a qualquer outra? O que é o Bem e o que é o Mal? Escrito com um primor literário incomparável, é carregado de uma poesia forte e medonha que pode ser resumida numa pergunta. Pergunta que distingue o homem dos demais seres vivos: por quê?

Ao próprio Jó, no final, o Criador responde com outra pergunta não menos grandiosa: “Onde você estava quando lancei os alicerces da Terra? Responda-me, se é que você sabe tanto!”

Os poemas reunidos neste livro navegam em águas semelhantes. Camuflados pela seda de um aparente lirismo sobre temas pessoais, abordam questionamentos antigos – reflexos de nossa humanidade encarcerada entre a dor e a esperança.

A delicadeza de alguns versos esconde profundidades abissais, e uma leitura descuidada corre o perigo de passar e não perceber a voz que pergunta, lá do fundo das entrelinhas, pelo “milagre suspenso”, pela “engrenagem perfeita” ou por aquele que navega “neste segredo do céu”.

Poemas de uma religiosidade sensual e feminina, em que a pergunta vira amor, e o amor, outra pergunta, “tudo previsto na semente, / ponto minúsculo e improvável”.

Ora, neste tempo em que vivemos, entre os hipersuperlativos e a próxima palavra midiática coisificada, insípida e amorfa, o que pode nos traduzir um possível sentido do mundo, da vida? Existe alguma possibilidade nas prateleiras do mercado?

Flávia Suassuna, reconhecidamente uma das maiores educadoras do Brasil, nos apresenta estes poemas costurados com sentimentos e significados que nos remetem ao drama do livro bíblico, por um mesmo fio condutor, delicadamente oculto e misterioso, como nestes versos: “Há anos / conduz-me / tua imagem / embaçada. Manterei / até o fim / a coragem / da espera.”

O que nos ensina, nas páginas deste livro de noturnos e esperas, a professora escritora que costuma comover auditórios de estudantes em suas palestras sobre literatura? De quem, por vezes, ouvi rasgados elogios por pessoas no meio da caatinga de altos sertões? Que é seguida e amada por uma multidão de jovens alunos, todos sedentos de traduzir a vida, a morte, o amor, através de alguma linguagem possível?

Ah, vale de lágrimas, absurdos, despedidas e esperança. Eis uma aula magna para todos os teus dias: poesia!

(Luis Manoel Siqueira, Prefácio do livro: TRANÇA – PRIMEIRO FIO de Flávia Suassuna, Ed. Bagaço, 2013)