sexta-feira, 7 de março de 2014

O PLANO DIRETOR


O Ministério Público pediu sugestões para o Plano Diretor da velha cidade do sertão nordestino. Coube a mim fazê-las. Tirei uma semana para percorrer o município, procurando compreender algumas de suas muitas carências.

Perguntei a um velho morador da cidade qual era o distrito mais pobre. Ele me indicou um vilarejo bem pequeno, por trás de uma serra. Fui até lá e, para minha surpresa, encontrei tudo arrumado: casinhas rebocadas e caiadas de branco, cisternas de placas no terreiro bem varrido, uma nova escolinha e até um centro comunitário, onde as famílias se reuniam. A única coisa que faltava – e eu já desconfiava – era água potável em volume e quantidade. A população se servia de água suja de um barreiro imundo, onde os animais também bebiam e se banhavam.

Procurei a presidente da associação comunitária e questionei-a, admirado, por que consideravam aquele distrito o mais pobre do município, se as casas estavam todas rebocadas, pintadas, e tinham escola e centro de reuniões.
Ela olhou para mim e sorriu com tristeza. Chamou-me até o Centro Comunitário e apontou para uma parede forrada de retratos de crianças.

- Elas moravam aqui. Morreram todas numa virada do caminhão que as transportava diariamente para uma escola. Foi uma tragédia. Com o pouco dinheiro da indenização pago pelas suas mortes, as famílias rebocaram e pintaram as casas, e puderam fazer as cisternas.

Então compreendi a imensa pobreza daquela comunidade. Do imenso tesouro perdido que foi trocado por cal e cimento.

Antes de ir embora, deixei marcado um local para perfurarem um poço. Mas as imagens dos sorrisos dos meninos nos retratos nunca mais saiu de minha lembrança. Ela sempre me relembra que a miséria do Brasil é amorfa, camuflada. Ora brinca com malabares de fogo nos semáforos das grandes cidades, ora atende num confortável gabinete de Brasília. Está na merenda escolar suprimida, na falta de lazer e oportunidade. E quando sorri, é somente como farsa.