terça-feira, 29 de abril de 2014

INKLINGS, CUPIM E ESQUINA




Na noite de 23 de abril de 1888, um grupo de 199 escravos fugidos embarcou escondido, num bote coberto de capim, no Poço da Panela no Recife, próximo à casa de José Mariano, pelo Rio Capibaribe até a Casa de Banhos e de lá até um barco que os levou à liberdade. No Ceará já tinham proclamado o fim da escravidão. O patrocinador da atividade: o Clube do Cupim, um grupo de abolicionistas de todo o Brasil que funcionava no Recife. Diz a história que senhoras da sociedade chegavam a leiloar suas jóias para ajudar a fuga de escravos para a nossa versão de “Underground Railroad”.

Nas quintas–feiras, no Bar conhecido como “The Eagle and Child” em Oxford, reunia-se um grupo de escritores e intelectuais, entre cristãos, ateus e antroposofistas para discutir Literatura com ênfase na narrativa, na ficção. Seus membros inauguraram o clube denominado “Inklings” que se reuniu de 1930 a 1949. Entre os seus membros estavam J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis, autores dos clássicos “O senhor dos Anéis” e “As Crônicas de Nárnia”, ambos levados às telas do cinema com sucesso estrondoso.

Anos 1960, no Bairro de Santa Tereza em Belo Horizonte. Um grupo de rapazes fãs dos Beatles e dos Platters encontra-se para tocar violão e compor canções. Dentre eles, os Irmãos Borges, Milton Nascimento, Beto Guedes, Flavio Venturini, Fernando Brant e outros. Ali fundaram o “Clube da Esquina”- uma reunião sem espaço físico definido, onde nasceram as bases do que hoje se denomina “World Music” e mais: um dos maiores movimentos da renovação da musica popular brasileira, ainda hoje não igualado.

Três clubes distantes no espaço e no tempo. Sei que outros existiram. Mas chamo a atenção para o propósito desses e para a grandeza de suas obras, dos frutos para a história de seus países e para a humanidade: Liberdade, Literatura e Musica.


E hoje em dia aqui no Brasil, fora os “clubes de organizações criminosas” que estão sendo frequentemente denunciados ao Supremo Tribunal Federal, o que temos para oferecer ao futuro como uma conspiração de esperança?

terça-feira, 15 de abril de 2014

JESUS E O BODE



Garimpo de esmeraldas em Campos Verdes, anos 80. Formigueiro de homens trabalhando com suas famílias em busca da sobrevivência. No meio deles e daquela década perdida, lá estava eu, geólogo, buscando alternativas de ganhar a vida.

Depois de um turno de cata de xisto, todo enlameado, aguardava a hora do almoço no “Restaurante do Comandante” no meio do Trecho Velho: galinha com pequi, arroz e feijão.

Um grupo de crianças seminuas brincava no chão com bolas de gude ali perto. Eram meninos do garimpo. Um deles, um negrinho serelepe chamado Jesus, me chama a atenção pela alegria e habilidade com que jogava, fazendo correr as bolinhas de vidro pelo chão com um peteleco, procurando bater nas dos outros.

Um bode pastava tranquilamente amarrado ali perto deles, numa mastigação sem fim. Então me surgiu a idéia...

- Prestem atenção: aquele que perder a partida vai ter de dar um beijo na boca daquele bode, certo?

Os meninos adoraram. O jogo pegou fogo. Ninguém queria passar pela humilhação de beijar o bode. Fiquei sentado no alpendre de uma casa fechada, enquanto me divertia com a guerra de meninos do garimpo.

O que há num beijo de tão importante? Que significado, que valor possui? Será que lhe permeia o Sagrado? Por que os meninos de um local tão medonho e desumano lhe davam importância?

Existem alguns valores ainda não perdidos que as crianças possuem, e que depois, quando viram adultos, desaparecem. Não entendo o mecanismo deste processo, mas ele existe. Adultos traem com mais facilidade aquilo que amam, e também princípios e sonhos e valores que passaram a vida jurando defender e seguir.

A excrescência abjeta a que chegou o atual governo petista e seus aliados ilustra muito bem essa traição: Beijar a boca do que é inaceitável em troca de poder e dinheiro. Pessoas que dedicaram suas vidas a uma causa e sofreram por ela em suas próprias carnes, depois venderam seus sonhos, escarraram nos seus princípios, beijaram imundícies, relativizando o que é rasteiro e repugnante.

As noticias de corrupção e desgoverno que saltam das páginas da mídia neste começo de 2014 parecem inaugurar uma nova forma de anomia. E condenaram aqueles que ainda sofrem com a nossa injusta sociedade, os escondidos pelas estatísticas governamentais mentirosas, a mais anos de esquecimento à margem de uma vida digna.

Volto às lembranças do garimpo. A mãe de um deles chamou o filho para almoçar. O resto dos meninos aproveitou e correu para seus barracos de madeira. O bode continuou a ruminar o seu capim em paz.


O negrinho Jesus olhou para mim, juntou suas bolas de gude e sorriu, desaparecendo depois por entre as vielas de Campos Verdes. Como convém aos santos - mesmo os descalços. Como convém aos profetas só de calção.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

SERENDIPIDADE




I.

Muito jovem e triste, carregando o mundo nas costas, perdido no labirinto dos amores impossíveis, procurei um esconderijo numa noite tranquila: um bar simples, com mesas e tamboretes de madeira. Cerveja pedida, copo abastecido. Pouca gente.
De repente levanta-se um homem magro num canto. É pequeno e corcunda. Segura um cavaquinho na mão. Pede licença aos presentes e começa a tocar sambas e boleros antigos. O bar inteiro o acompanha fascinado. O velho corcunda canta com emoção epidérmica. Uma estranha comunhão se estabelece entre todos os presentes. Começa a chover fino.
Voltei para casa leve, caminhando pela madrugada, me perguntando se realmente vivenciei aquilo tudo. Aquela festa inusitada. Ainda hoje lembro aquela noite. E do aperto de mão que dei no velho corcunda quando ele, exausto, parou de cantar e tocar antes do amanhecer. E do sorriso que me deu e do brilho dos seus olhos.


II.

A festa aconteceu no velho cassino do tempo da Segunda Guerra. Um conjunto a tocar canções que brotavam dos lábios de todos. Dei a volta pela mesa de frios, enchi meu copo. Ao longe, meu pai conversava feliz com seus colegas numa mesa.
Uma senhora conhecida me puxou pela mão e perguntou se eu estava sozinho, se tinha alguém para dançar. Respondi que não, quase que mecanicamente. Ela então me apresentou a uma jovem mulher ao seu lado, filha de amigos. Na canção seguinte, fui até ela e a convidei. Dançamos duas ou três musicas e pedi o seu telefone.

Hoje ela é minha esposa.


III.

Primeiro veio a hemorragia. Levei com urgência ao hospital, com sete meses de gravidez, a menina que eu havia embalado e dado mamadeira. Descolamento de placenta. Quarenta por cento. Todo dia era um morre-não-morre. O bebê nasceu e foi direto para uma incubadora de U.T.I. neonatal por 23 dias. Lá, sobreviveu a duas paradas respiratórias. Prematuro e com risco de vida, foi escapando, escapando - virou um sobrinho meio que neto, a me cobrar uma estória diferente todo dia. E lá vou eu misturar Rolando com Ricardo Coração de Leão, Batman e o lobisomem, construir castelos em florestas onde se vivem meninos fugidos de casa e dragões.
O tempo passa num estalo de dedos. Num final de ano, quando ele ia para a casa do pai, meio a contragosto, surpreendeu-me na saída, batendo com a mão no vidro da janela do meu carro. Estava todo pronto: roupa nova, cabelo penteado. Baixei o vidro do carro para saber o que ele queria.
Do alto dos seus quatro anos de idade, Pedrinho se perfilou, bateu continência, e me disse bem sério:

- General, feliz ano novo!