segunda-feira, 26 de maio de 2014

O REFRÃO DO BAR SAVOY




O meu primeiro copo de cerveja foi no Bar Savoy, levado pelo meu avô, servido por Careca, o garçom que servia o poeta Carlos Pena Filho. Meu avô me mostrou a placa de bronze com o trecho do famoso poema na parede.

Mais de trinta anos depois voltei ao Bar Savoy para assistir ao impeachment de Fernando Collor. O bar, lotado de gente. A Avenida Guararapes cheia de estudantes de caras pintadas.

“Na Avenida Guararapes o Recife vai marchando
O Bairro de Santo Antonio tanto se foi transformando
Que agora as cinco da tarde mais se assemelha a um festim
Nas mesas do Bar Savoy, o refrão tem sido assim:”

Eu levava uma namorada a tira-colo. Uma morena que sorria e segurava a minha mão. O clima na avenida era de festa. De expectativa.  De alegria.

“Ah, se a gente pudesse, fazer o que tem vontade
Espiar o banho de uma
A outra amar pela metade
E daquela que é mais bela,
Quebrar a rija vaidade”

Cada voto dos deputados foi acompanhado com aplausos ou com vaia. E quando enfim o último voto pela cassação foi dado, o bar inteiro subiu em cima das cadeiras e cantou o hino nacional. Do lado de fora, as pessoas se beijavam, gritavam e agitavam bandeiras.

“Mas como a gente não pode, fazer o que tem vontade
O jeito é mudar de vida, num diabólico festim
Por isso no Bar Savoy o refrão é sempre assim:”

O meu avô morreu. O namoro acabou. O Bar Savoy não mais existe. O “companheiro” Fernando Collor hoje em dia faz parte da base aliada do governo petista. Os Caras–Pintadas lavaram a cara? As mãos?

“São trinta copos de chope, são trinta homens sentados,
Trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados!”


quarta-feira, 21 de maio de 2014

PEQUENA CRÔNICA LAVADEIRA


Juninho, dono do autorama. Das roupas caras e brinquedos que ninguém tinha. Juninho que gritava e todo mundo ria. Que deixava no prato o almoço que a lavadeira levava pra casa pro filho comer (Juninho só comia sanduíche e sorvete).

Quebra um brinquedo. Pro lixo.

- Posso levar pro meu filho? Pergunta a lavadeira.

Caminhando ao lado do pai – lá vai ele, Junhinho. A querer  comprar um carro, mesmo sendo de menor. E a mesada é pouca. E as mentiras muitas. E as gatinhas loucas – todas para ele putas. Tudo, tudo nublado pelo baseado e resto de bebida. Que a farra é normal nessa idade. Ah, mocidade! Diz o pai de Junhinho pros amigos indecentes que babam, coniventes.

Um diploma arranjado. Carro importado. Terno engomado. Casamento elegante em coluna social – a cama forrada de presentes. Juninho legal, cheio de amigos. Vai ser deputado? Diretor? CEO, Presidente? Tem pedigree, tem contatos: é esperto, o Juninho bom partido de fato.

Um dia a vida não avisa e inverte o sentido da brisa.

A polícia procurando e Juninho escondido. Aflito. Esquecido. Agora o pai morto, amigos de costas. Uma menor esquartejada achada numa valeta, morta.  Ou um pacote de dólares prendidos dentro de uma maleta. A imprensa publica em letras garrafais: “Juninho, Nunca Mais”. ( Não é só um diário mal pequeno o que pede satanás?)

E teus esquemas? E teus marfins? Tuas conveniências, Juninho, que serás enfim?

Lá num barraco do morro, onde mais perto de Deus, uma velha preta costura. No quadro em sua frente, um jovem rapaz sorridente: seu filho na formatura. Era o menino criado com os restos caídos do prato. E a lavadeira sorri com ternura.


sexta-feira, 9 de maio de 2014

ONDE RIO E MAR SE ENCONTRAM



Almoço na casa de um velho amigo. Domingo de manhã. Vários médicos famosos juntos a conversar sobre amenidades, enquanto uma bela lancha era preparada para um passeio. Camarões, bebidas finas, e um marinheiro a nos avisar que tudo estava pronto.

Eu, recém chegado de um período de dez anos na beira do São Francisco, olhando aquilo tudo com certo ar de deslocamento. Eu, um “misfit”, querendo encontrar assunto adequado e ameno para disfarçar os espinhos e cicatrizes que trazia no corpo e na alma - como se pudesse me livrar deles facilmente.

O anfitrião, meu amigo, se desdobrava para me inserir entre os convidados, e assim o fez quando me deixou mais livre, e foi se pendurar como uma criança na proa da lancha em velocidade no alto mar.

Logo adiante, ao chegarmos à foz de um rio, o marinheiro fundeou a âncora num banco de areia e todos desceram para o banho nas águas castanhas e calmas.

Uma médica ao meu lado puxou conversa. Servi-lhe mais uma cerveja. Perguntei onde trabalhava. Num hospital de câncer. Crianças terminais, a maioria. Perguntei como suportava. Ela respondeu que não sabia. Mas que já fazia muito tempo. Perguntei o que as crianças comentavam, ao chegarem ao fim da vida. Quais as conversas mais comuns. Ela respondeu que, invariavelmente, quase a maioria, descrevia jardins belíssimos com animais, pessoas muito boas ao lado delas e uma enorme sensação de paz e alegria.

Olhei para o meu amigo que era agnóstico e ele ficou em silêncio por uns instantes. Mergulhei nas águas profundas e escuras onde aquele rio se encontrava com o mar. Quando subi à tona, todos já conversavam sobre outra coisa.