segunda-feira, 16 de junho de 2014

UM ESCAFANDRISTA NO JARDIM





A humanidade? Aprendi-a nas mesas de bar, enxugando a espuma em guardanapos. Redesenhando o mundo em guardanapos. Como era linda a humanidade abstrata: essa idílica, pobre, operária, oprimida, que precisava ser salva do capital selvagem e cruel! Sonhei revoluções por ela. Sonhei fraternidades puras, estampadas em camisetas e canções de protesto e revolta. Companheiros e camaradas (nas mesas de bar) a repetir ideários, patrulhando desvios de pensamentos e comportamentos desalinhados. Oh, fraternidade das mesas de bar!

Como eram pobres e cegos e vetustos os nossos pais! As idéias dos nossos pais. O trabalho de nossos pais. Os amigos de nossos pais. Que haviam perdido o trem da história. Que haviam servido a um sistema conservador e reacionário.

Mas...a vida vem e o tempo mistura os caminhos. Troca as lentes da visão. A imperiosidade da luta pela sobrevivência dita as regras do cotidiano e dilui conceitos embotados. Frases feitas. Velhos clichês renovados e novamente envelhecidos, como uma pátina mal restaurada. É sempre imperioso comer feijão com arroz todo dia e, ganhá-lo, é o destino para quem desobedeceu no Éden.

A gente descobre depois que a humanidade abstrata tem interesses. Sabe roubar. Sabe fingir. Mentir, enganar. A humanidade fraterna abstrata sabe usar as pessoas. Sabe cobrar a conta da mesa e somar até a data dos poemas escritos nos guardanapos.

Então a gente pode redescobrir que o passado nunca passa. É o mesmo que motivou o tiro, a invasão e a guerra inteira. Pode hoje colocar a corda no pescoço, virar as costas, ser indiferente e proferir a sentença. Os velhos estavam certos: o amigo era falso, a namorada não combinava, a festa era perigosa e o caminho muito difícil.

É quando o álbum de fotografias de casa se ilumina e toma outra dimensão.


Olha a janela: vês um tranqüilo escafandrista no jardim regando as plantas? São as verdades antigas que retornam para casa. Elas sorriem. É então chegada a hora de sentar-se à mesa e chamá-las para tomar um café. 


segunda-feira, 9 de junho de 2014

UMA DOCE VINGANÇA





Durante o tempo em que vivi sozinho, trabalhando numa fazenda à Beira do Rio São Francisco, ou viajando por garimpos e cidades várias, tive de aprender a cozinhar. Claro que não me considero um especialista no assunto. Mas aos poucos fui aprendendo e lembrando práticas de minha mãe em casa. E fui comprando revistas e vendo programas de culinária para fugir do tradicional macarrão instantâneo.

A primeira coisa que aprendi foi fazer um feijão com charque em panela de barro e fogão à lenha. A comida dos trabalhadores da fazenda, seguido de um arroz úmido e levemente refogado. Um dos meus pratos favoritos. Tomar um copo de caldo de feijão antes do almoço ainda é uma das maravilhas da vida. Bem quente e com pimenta.

Depois fui me arriscando com peixes, galinhas, e até um prato típico do Paraná, o Barreado em panela de barro. Os pirões de carne: que delícia! E cuscuz paulista – uma variação do marroquino, com o fubá de milho.

Dentre as alegrias que o aprendizado com as panelas me deu, foi o privilégio de cozinhar muitas vezes para o meu pai, aos domingos. Filé de peixe no papel laminado com ervas, vinho branco e azeite. E a conversa que surgia depois, entre ele e eu - minhas “Estrelas Michelin”!

Nordestino que sou, neto e bisneto de fazendeiros e homens do campo, não posso jamais ser adepto da frustrante nouvelle cuisine, com seus pratinhos com porções diminutas, decorativos e chiques. Podem ter o sabor dos manjares celestes, mas eu gosto de quantidade, de fartura e de poder guardar o que sobra para comer depois, outro dia.

Dizem na Espanha que, quando se come um prato que se gosta, a gente se vinga da vida. É bem verdade, sobretudo se levarmos esta frase pelo seu verdadeiro significado poético. A vida é uma sucessão de perdas e tristezas das quais nunca podemos fugir.


Um almoço em família, com amigos, um jantar com uma namorada: que perfumes de jardim podem se comparar ao cheiro bom de uma comida preferida, essa porta secreta que nos transporta e nos oferta, em prato de louça, uma doce vingança?