terça-feira, 29 de julho de 2014

PROFISSÃO DE FÉ





Eu nunca me esqueci de um discurso inflamado de um presbítero da igreja que eu frequentava quando menino, acusando de “ladrão” quem não dava o dízimo. Eu vi pessoas constrangidas. E fiquei chocado e em silencio. O dedo em riste para acusar os pecados alheios afastou muita gente boa da igreja naqueles anos. Uma onda de conservadorismo dogmático presbiteriano varreu a vida de muitos jovens iguais a mim. Vi amigos meus, alguns filhos de pastores, se afastando do convívio da igreja de uma forma definitiva. Muitos se tornaram ateus ou agnósticos até hoje.

Eu saí da igreja aos 17 anos. Nunca mais voltei. Não encontrava mais a harmonia de antes. Concomitantemente com aquilo tudo, pipocaram escândalos entre pastores e presbíteros, de roubos, de adultérios e homossexualismos. Os tais sepulcros caiados...

Vaguei num limbo de niilismo melancólico por muito dos meus vinte e poucos anos.

Mas o sobrenatural possui tessituras de teias sem forma definida, que aos poucos vão enlaçando um peregrino na estrada e dirigindo a novos caminhos e paisagens. Gentes de longe, gentes simples: vaqueiros, garimpeiros, andarilhos, agricultores, foram me revelando outras faces de um Deus maior do que a minha igreja.

Depois, o livro da natureza abriu as páginas que precisei ler: gotas de água caindo de mangueiras de irrigação refletindo o por do sol, sementes germinando, pássaros canoros, crianças, sorrisos e tantas ternuras de mãos amigas. E o Eterno foi se revelando aos poucos, porém de uma forma completamente nova, límpida, múltipla e benfazeja.

Voltei a entrar numa ou noutra capela, de preferência sozinho. Muitas vezes para chorar. Mas não era mais a mesma pessoa, nem poderia.

De noite, na fazenda onde vivi nas margens do São Francisco, na Bahia, saia de madrugada para ligar a bomba de irrigação. E olhava o céu incendiado de estrelas. E sentia o vento com o cheiro da caatinga e do rio. Quantas vezes nadei naquelas águas frias de noite, tendo a escuridão como companheira, e o céu estrelado em cima de mim. E sentia a presença de meu Criador com uma suavidade tão intensa e calma, como nunca havia encontrado num templo católico ou protestante.

Também vi Deus nos olhos das mulheres que eu amava. Vi muitas vezes, enquanto elas se contorciam de prazer numa cama, olhando para mim, felizes e sorrindo.

Quando fiquei sem carro por causa de dificuldades financeiras, caminhava a pé, quatro cinco quilômetros carregando a feira nos braços. E nas noites sem lua, eu sentia a presença de alguém ao meu lado, alguém que eu não via e que me acompanhava em silencio, envolto pela escuridão.

Tantas foram as epifanias! Nem sei como contá-las. Sei apenas que elas me trouxeram de volta ao caminho perdido. À minha casa primeira. Aquela do suave peregrino morto entre dois ladrões. E que tinha nos montes, campos e desertos os locais preferidos para meditar.

Volto às igrejas de vez em quando. Nem sempre fico até o fim. Uma prece me basta. Um sorriso de criança me rouba a atenção. Uma mulher bonita que passa na fila de cadeiras da frente. Um velho que mira o altar com emoção contida enquanto afaga a sua bengala e espera: Tudo é mais belo do que a liturgia.

Do lado de fora, o ar da manhã de domingo me convida a caminhar pelas ruas. Ao longe vai ficando o som do coral, que termina por se misturar com as buzinas dos automóveis na rua.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

ANJOS, ONÇAS, MERGULHÕES E OUTROS TESOUROS PERDIDOS


(Celestino Gomes - Auto-retrato pintado na porta de sua Kombi - foto de Luis Manoel Siqueira)


A primeira vez que vi um defunto, eu não tive medo. Ele chegou pelo caminho, num caixãozinho de madeira tosca, forrado de chita branca, trazido por outras crianças iguais a mim. Era um recém nascido que mais parecia um boneco de cera, os olhinhos fechados, e corpo rodeado de flores silvestres. Enterro pobre e pungente. Toquei a sua face fria cheio de emoção contida. Vi depois o pequeno cortejo se afastar ao longe, pela estrada, na manhã fria, até o cemitério no alto do outeiro. Que contra-senso misterioso descerra um enterro de criança!

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A japonesinha do meu bairro brincava com freqüência na rua comigo e minhas irmãs. Era bonita, a pele alva e sedosa. Um dia, conversando com ela na escada do apartamento, pedi para vê-la nua. Ela hesitou. Éramos crianças naquele tempo onde a curiosidade impera, e a vontade de descobrir segredos permeia dias e noites. Ela pensou, depois levantou o vestidinho de algodão, abaixou a calcinha e me mostrou sua nudez que, por uns segundos que me deixou encantado. Foi somente isso. E depois a vida nos soprou para longe e nunca mais a vi. Foi assim que eu descobri o corpo de Eva.

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Encontrei Celestino debaixo de uma frondosa Algaroba, a sua Kombi estacionada, fogareiro acesso. Tratava um peixe. Saudou-me efusivamente e convidou-me a tomar aguardente. Serviu a bebida num copo enquanto cantava uma canção do dia das mães. “Eu não me lembro dela, Luis. Quando ela morreu, eu era muito pequeno. Passei a vida sentindo sua falta” Bebemos mais e comemos o peixe na brasa. Depois ele me convidou para tomarmos um banho de Rio. Era um domingo quente, aquele. Entrei na sua Kombi e ele deu partida. Ao chegar à margem do São Francisco, aprumou o carro na direção do Rio e acelerou. A velha Kombi mergulhou nas águas. Os pratos e talheres e fogareiro caíram por cima de mim, no banco e no chão. A água começou a lamber o piso do interior. O velho pintor apenas gargalhava diante do meu susto. “Vamos descer e imitar os mergulhões secando as asas dentro d’água! Levante os braços e curve as mãos para baixo. Depois erga um joelho e fique assim por um tempo... parado!”

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Três promessas me foram feitas: Procurar um tesouro pirata no fundo do mar, ter uma espingarda quando crescer e caçar uma onça. O tempo passa e vai mostrando a gente que os sonhos são metáforas na vida. As onças eram as namoradas, belas meninas, por quem me apaixonei e não sabia ao certo como abordar, conquistar e prender. A timidez foi vencida pela maturidade – ah, como são tolos os homens jovens! Ganhei uma espingarda de repetição. Uma potencia. Um perigo. Doze cartuchos de calibre grosso, capaz de derrubar um elefante. Nunca me serviu de nada! Mesmo quando mais precisei de defesa. As armas da vida são infinitamente mais poderosas... terminei por vende-la. Restou o tesouro a procurar. Que oceanos? Eles são tantos e tão profundos! Terminei por esquecer a promessa não cumprida até o dia em que o médico me disse no hospital o que eu teimava por não querer ouvir. E minha esposa de madrugada atender um telefonema, sentar na cama e me dizer: “seu pai acaba de falecer”. Foi então que eu percebi que o tesouro estivera sempre do meu lado - só eu que não percebia.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

COMO PARAR UMA CONSTRUÇÃO






O flat que aluguei na praia era sossegado, até chegar um casal de jovens que ocupou o andar de cima. Ela, uma menina linda, com andar de gazela. Ele, um meninão sisudo e calado, exalando testosterona por onde passava.

A paz de meus estudos terminava no fim do dia, quase todas as noites: os gritos e gemidos de ambos fazendo amor, madrugada adentro. A cama tremia, rangia. Davam murros na parede. Eu a ouvia gemer alto, num gozo agônico e repetido.

Muitas vezes tive de interromper o que eu escrevia ou lia. E confesso, ficava tentando imaginar a cena que acontecia bem em cima de mim. Bem em cima de minha solidão.

Muitas vezes saí pra rua e fui até a praia, caminhar pela noite. Tomar uma bebida para chamar o sono. Quando voltava, o jovem casal ainda se debatia na cama, a gemer a e gritar de prazer em seus estertores sem fim.

Procurei o senhorio que era um português. Reclamei da situação, obviamente, com um sorriso. Ele riu alto, pôs a mão no meu ombro e me disse assim:

“- Ó, pá, não sabes da missa um terço. Uma vez aluguei um apartamento aqui a uma jovem turista sueca. Ela ficou sozinha por uma semana, até que chegou o seu namorado brasileiro. Pois esta mulher andava nua pelo apartamento, deixava a janela aberta, e fazia amor na sala, no terraço, na cozinha, no corredor, a qualquer hora do dia. E de tanto gritar e gemer parava o trabalho do prédio vizinho que estava em construção. Os operários largavam o serviço e iam assistir ao “show” de uma laje. Não tardou e recebi a visita do engenheiro encarregado da obra. Veio me reclamar que a construção estava a ficar atrasada, Pá, por causa da sueca e do seu namorado!”


Uma noite, depois do festival de sempre, eu os vi saindo pela rua de mãos dadas. Estavam exaustos e aliviados. Ele andava seguro de si, cabeça erguida. Ela, cabelo molhado, flutuando pelo calçamento que ainda brilhava molhado pela chuva fina de inverno. Atrás deles, parecia que um querubim espalhava uma brisa com perfume de lavanda. Enquanto um outro recolhia pétalas de flores do jardim perdido.



terça-feira, 8 de julho de 2014

A RUA DAS ILUSÕES PERDIDAS




Alguns homens, bem poucos, perfumam o caminho por onde passaram na vida com notas de uma essência bem própria e singular, deixando marcas indeléveis na memória daqueles que o conheceram, de tal maneira que se tornam eternos. Não me refiro apenas a grandes cientistas ou artistas famosos. Mas a personalidades muitas vezes humildes, simples, surgidas no meio do povo, numa vila, num lugar esquecido. Ao lado do apartamento, ou morando numa casa isolada de uma vila qualquer. Ninguém dá muita importância a eles e, de repente, tomam o seu lugar na história de nossas vidas e, como  árvores encantadas, criam fundas raízes e frutos e sementes que se multiplicam no tempo.

Conheci pessoas assim. Marcaram a minha existência de forma que até hoje me pergunto, se não foi tudo planejado de forma sobrenatural. Não vou discorrer sobre elas agora. Mas sobre uma grande e bela personalidade que encontrei lendo um clássico da literatura.

O livro, uma pequena novela traduzida para o português como “A RUA DAS ILUSÕES PERDIDAS” (CANNERY ROW) de John Steinbeck. Entrou para a lista dos meus dez preferidos. O personagem principal, “Doc”, é um solitário biólogo marinho que vive num pequeno laboratório, na costa Oeste do Pacifico, na cidade de Monterrey, durante a depressão de 1930. O seu trabalho é coletar espécimes marinhas para vender a colégios e institutos de pesquisa.

Doc era querido por toda a vila, e recebia no laboratório a visita de pescadores de sardinhas, prostitutas, vagabundos e escritores, onde sempre fazia festas, ouvia música e discutia filosofia. Steinbeck o descrevia assim:

 “Doc poderia escutar qualquer coisa sem sentido e transformá-la em sabedoria. A sua mente não tinha horizontes e a simpatia não possuía limites.”

Muitos anos depois, a internet me revelou um fato curioso: Doc existiu. O laboratório também. Chamava-se Ed Rickets e era um grande amigo de Steinbeck. Mais: Rickets foi um brilhante biólogo ambiental num tempo em que ninguém falava em meio ambiente. Escreveu um livro chamado “ENTRE AS MARÉS DO PACÍFICO” que virou um clássico da literatura científica mundial. Um livro considerado seminal.

Rickets morreu num trágico acidente, quando o seu automóvel chocou-se com um trem. Ao ser socorrido, teria apenas comentado: “O maquinista não teve culpa...”

Steinbeck ganhou o Nobel de literatura. Cannery Row é a sua obra prima. O final é surpreendente e simplesmente encantador. Poucos livros me emocionaram tanto.

Quando vi sua foto na internet, achei curiosamente parecido com a imagem que eu fazia de Doc, quando li o livro. Os seus biógrafos todos dizem que é praticamente impossível separar o maravilhoso personagem de Cannery Row, do homem que ele realmente foi.