quarta-feira, 27 de agosto de 2014

MECÂNICA DE ABERTURA DAS FLORES




Coxixola, município do sertão do Cariri paraibano, 1.800 habitantes. Caminho pela tarde vazia e encontro uma capela aberta. Sentada na frente, diante do altar, uma velhinha faz suas orações em silêncio. Entro e me sento. Bebo um pouco da paz que emana do lugar. Desde então, sou membro da capelinha de Coxixola. Lá ninguém me pergunta de onde sou, por que não vim no domingo passado. Sempre sinto vontade de ir a uma igreja, esteja onde estiver, fecho os olhos e estou de volta. A velhinha continua lá, rezando por mim.

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Richard me convidava para um banho noturno dentro da Barragem de Sobradinho. Originário da antiga Tchecoslováquia, cresceu em Mariánské Láznê, uma cidade balneário. Naturalizou-se brasileiro, quando fugiu do comunismo que perseguia seu pai. Mergulhava com meu amigo na escuridão da barragem profunda e nadavamos de costas olhando as estrelas. Aprendi muito sobre Deus com Richard. E ele nunca me falou nada diretamente sobre teologia. Apenas me oferecia sua amizade pura e limpa. Apenas nadava de noite comigo olhando as estrelas.

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Quando soubemos que meu avô tinha câncer de pulmão e poucos meses de vida, fizemos uma grande festa para ele na praia. De noite, eu, meu pai, uns tios e amigos sentamos na areia com um bom violão e bebemos e cantamos a noite inteira, até amanhecer o dia.  Cantamos todas as canções que conhecíamos. As de amor, as de desventura e de alegria. Foi a primeira e única vez que vi meu pai virar uma noite em serenata. Mas aquela era uma festa de despedida.

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Levei meu sobrinho de cinco anos com minha mãe e irmã a um circo francês armado na praia. No meio do espetáculo, um palhaço me arrasta ao picadeiro e me coloca como cantor de uma banda maluca que vai formando com pessoas do público. Começa o ensaio. Ele pede que eu cante. Abro a boca e sai no alto falante uma voz de tenor italiano. Pede que eu cante de novo e sai um enorme arroto. Meu sobrinho se exaspera:

- O que este palhaço vai fazer com meu tio? Não foi ele quem deu este arroto!

Eu nunca estive num picadeiro de circo. Foi a primeira vez. Somente aos 53 anos de idade é que, lamentavelmente, fui descobrir a minha verdadeira vocação.



segunda-feira, 18 de agosto de 2014

PEQUENA BLASFÊMIA





Uma criança Yazidi foi abandonada no deserto do Iraque pela mãe que fugia dos recentes ataques dos fanáticos islâmicos. Foi encontrado pelos curdos, que estimam que ele passou um dia inteiro debaixo do sol quente. A criança tem um lado do corpo paralisado e, segundo a BBC de Londres, ninguém sabe o seu nome.



 - Senhor, este menino sou eu, que não aceito nem entendo teus altos propósitos. Que não decolo do chão e rastejo pelo deserto ainda hoje, com sede do teu poço de água viva. Senhor, teu sol que brilha não me mata, apenas queima retinas, desenha cicatrizes. Teus ventos apagam meus rastros e não sei mais o caminho de volta, o mesmo dos passos errantes que até aqui me trouxeram. Senhor, eu sei dos samaritanos, mas é por teu nome que chamo no deserto e de minha boca não sai palavra alguma. Paralisado que vivo, meu Deus, nesta infância de vida que nunca termina e que não compreendo. Peregrino e só, como um menino abandonado na areia quente, sem o beneplácito de uma morte acolhedora. Longe e cansado dos rituais da fé. Longe e entediado dos paramentos litúrgicos. Longe dos mais longes dos hinos, dos sinos, das preces em honra de teu impenetrável nome.


Não me reconheces, Senhor, neste menino? Teu filho tantas vezes perdido? 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

NÃO ME CORTE MEU CABELO



Gustave Doré - "Ma Mère L'Oye"


Irmãs de vaqueiros cantaram para mim e meus irmãos: “Não me corte o meu cabelo que minha mãe me penteou!”. Canções assombradas de estórias noturnas, ao pé do berço, da cama, da febre. A mamadeira de vidro grosso na mão: seus cheiros de sabonetes baratos. Filhas do povo tangerino me acalentaram nos braços nas redes e o eco de suas vozes eu ainda ouço pela vida. De suas bocas desfilaram palavras trêmulas da leitura pouca: Os irmãos Grimm, A Condessa de Ségur, Andersen – estórias que elas também não conheciam. Aquelas de meninos e princesas perdidos.

Com o tempo, num estalo de dedos, juntaram trapinhos e fugiram para São Paulo. Tentar ganhar a vida perdida no meio do concreto: nunca mais as vi. Mães de aluguel cheias de cuidados nas suas juventudes marcadas pela humildade. Colos prontos para consolar qualquer pranto: brinquedo quebrado, pesadelo, arenga e birra.

Encontrei-as nas bocas de homens velhos depois, montado em cavalos, envoltos em couro e cheiro forte de suor, num barracão onde eu armava minha rede para ouvi-los conversar: a mesma linguagem, os mesmos olhares ora incendiados de vida, ora de escuridão de açudes. Encontrei-as ainda em garimpos de esmeraldas, melados de xisto como eu, comendo com solene silencio um arroz com pequi. A estória de suas vidas tatuadas nas cicatrizes dos corpos.

Essa gente virou concreto? Quem se lembra de mim?

Um dia falei com uma delas. A principal: Severina – que me desculpe João Cabral. Uma voz débil do outro lado do telefone. Assim, como nos sonhos. Nas estórias de trancoso. Assim como nas noites, num pranto de sonho ruim, numa tristeza profunda sem razão nenhuma de ser:

- Meu menino!

Disse que tinha ainda hoje, na parede de seu quartinho, tinha um retrato meu e de meus irmãos menores. Desconversei. Falei de outras coisas. Perguntei como estava. Falei de gentes. Outras cantigas de minha vida. Sorrimos.

Conheço essa gente! É a mesma que é enganada pelos governos. É a mesma que sustenta os governos em troca de muito pouco. É a mesma que mais sofre, mesmo sendo a que mais sangue deu. Essa gente que fica grata por qualquer coisa. E que logo pregam o retrato da pessoa na parede. Seja um santo, um político, ou seus ingratos meninos de colo.