segunda-feira, 29 de setembro de 2014

LUIZ GONZAGA E EU



Foto: Diário de Pernambuco


Entrei numa agência bancária em Boa Viagem, no Recife – lembro bem. Um senhor de muletas estava sentado na mesa do gerente, ao lado da mulher. Fazia algum tempo que não nos falávamos direito. Eu ficara, sem saber, no meio de um tiroteio conjugal entre a sua primeira esposa e a atual companheira, ambas minhas amigas. Mesmo assim, me aproximei. Ele levantou com dificuldade e, deixando cair a muleta, me abraçou afetuosamente e disse:

- Continuo lhe amando.

Durante dez anos fui amigo de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Estive com ele horas antes dele falecer. Digo isso publicamente depois de 25 anos de sua morte, e digo pela primeira vez. Fui amigo de ir à sua casa, e ele várias vezes na minha - amigo que era também de meus pais. Fui amigo de ir buscar no aeroporto, jantar, almoçar, conversar em particular, trocar idéias e confidências. De lançar livros e discos juntos. De compartilharmos amigos. Eu carreguei aquela sanfona branca muitas vezes no meu carro.

Tenho como provas físicas de nossa amizade, um texto meu publicado num disco clássico seu, que ainda é vendido em CD e que foi mantido pela gravadora. E cartas e fotos e autógrafos e telegramas. E tenho mais: a única ciranda que ele gravou, “Portador do Amor”, ele fala em meu nome no final e me convida para entrar na dança.

As informações que tenho nunca foram procuradas por ninguém. E mesmo se me pedissem eu não as daria. E nunca as usei para me promover – o que fizeram muitos outros ditos “pesquisadores” e “especialistas” nos assuntos midiáticos do Sertão. Guardei-as comigo e vou inseri-las num livro que preparo sobre contabilidade de pedras em leitos de riacho, rastros, estórias mal assombradas e estrelas cadentes.

Porém, a despeito de tanto o que guardo em gavetas, ficou gravado na minha memória e na minha vida de uma forma indelével, a passagem de um homem singular, mesmo com todos os seus muitos defeitos, mas com uma virtude especial, que ia além do seu talento de gênio: A generosidade. Fui testemunha dela. E por ela encantado.

A generosidade distingue o homem. Dos demais. De tudo o que rasteja. Da insanidade da sociedade competitiva que construímos e onde vivemos agonicamente presos. Foram muitos os casos que presenciei – a maioria anônimos (que uma mão não viu o que a outra fez).


E a mim, o que direi? Não bastasse chamar publicamente um menino de 19 anos de escritor e querer que eu lhe escrevesse outra biografia. Confidenciou suas dores. Apelidou-me de “Zelação” e  convidou a dançar uma ciranda iluminada.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

FOGO EM CAFÉ FINO





A brincadeira consistia no seguinte: você não poderia pegar em nada sem antes pedir licença. Se fosse pego com algo nas mãos, o outro participante poderia lhe surpreender e dizer: “Arreie!“, e você seria obrigado a entregar o objeto, perdendo a sua posse.

Que terror era comer um doce, comer um chocolate, um picolé. Tinha de ser escondido, pois algum participante da brincadeira poderia me ver. E como eu perdia meu Deus. Era desligado, esquecido. E como os zombavam de mim!

A fazenda de meu avô havia sido, no passado, uma grande produtora de café fino. Produtores da região haviam recebido medalhas de institutos de certificado da França. Catavam os grãos maduros – somente os maduros. Daí a qualidade internacionalmente conferida.

Um dia, o mercado que sempre brincou com vidas humanas, derrubou os preços internacionais. Foi um Deus nos acuda. Fazendas inteiras arderam em chamas e passaram a plantar capim e criar gado de leite. Com a pecuária, as mãos que catavam o café ficaram sem emprego. Eu lembro a miséria. Eu lembro a pobreza. Até a casa grande do meu avô, só tinha de grande o nome, embora o fosse nas dimensões, era exemplo de uma vida espartana, simples e de uma frugalidade franciscana.

Alguns moradores resistentes ainda tentaram ficar. Dentre eles, O pai de Luzia.

Um dia, sorrateiro e pisando macio, contornei a casinha onde Luzia morava e a surpreendi lavando a louça pouca, branca e pobre. Garfos e colheres de alumínio retorcidos de tão usados.

- Arreie!

Ela tomou um susto na janela. Fechou a torneira da pia e, meio sem graça, entregou-me um molho de talheres humildes como ela. Humildes como a sua casinha de mesa e quatro tamboretes. Humildes como os olhos de seu pai, o sorriso de sua mãe a olhar para mim: o neto do fazendeiro. O neto do patrão.

Peguei os talheres como um troféu. Agora seriam meus! Agora seriam meus aqueles talheres. Aqueles talheres inúteis. Aqueles talheres desiludidos e sem esperança. A esperança queimada junto com o café fino. Aqueles talheres na minha mão ainda hoje doem dentro de mim.

Devolvi os garfos e colheres a Luzia, que me olhou e sorriu. Nunca me esqueci de seu sorriso. Nunca mais brinquei daquilo. Ela foi embora com a família para São Paulo. Arranjaram melhores empregos. Criaram a família. Venceram. Estive por lá um dia desses. Quarenta anos depois. Não a vi. Somente as irmãs mais velhas. Não me reconheceram de imediato. Só quando eu disse o nome. Custaram a acreditar.

A vida também brinca com a gente. E ela não se arrepende.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

TERROIR NOSTRUM




Se você passar por Sanharó-PE, pare o carro para comprar queijo de manteiga ou de coalho. A mesma coisa em Caicó-RN, de preferência, no Mercado Público. O queijo de Caicó tem um sabor e textura diferenciados devido ao pasto do gado, o capim mimoso, fino e amarelo ouro na seca. Pelo menos é o que me diziam quando criança.

Em Serra Talhada, São José do Belmonte -PE, procure o feijão vermelho “Fogo-na-Serra”. Em Triunfo, mais ao norte, também tem rapadura e aguardente. E um doce de laranja de corte que, dizem, foram as freiras alemães que desenvolveram a receita.

Em Piancó-PB, produzem o arroz vermelho da terra. Em Sousa, a água de coco verde parece que tem açúcar.

A melhor carne-de-sol é vendida no Mercado Publico de Caruaru, ao lado do Mercado de Farinha – pelo menos, em minha opinião. Em Arcoverde, se for época de frio, procure na feira a fava produzida na Serra das Varas. Há uma branca, grande e redonda, com formato de um botão que é divina.

A Pinha produzida em Pedra-PE, é inigualável, assim como o abacaxi das Serra das Russas. Não sei por quê. Um docinho vendido na feira de São José do Egito, conhecido como “Beira Seca”, feito com gergelim e rapadura, deve ser provado.

Em Floresta, Bode. De preferência, o da raça Moxotó. Quando na seca, o animal come a folha da Favela e o Alastrado: a carne tem sabor deliciosamente inconfundível.

Em Juazeiro, Caldo de Cari. Pouco importa se é afrodisíaco, pois é uma delícia a “Lagosta do São Francisco”, com uma taça de vinho de Lagoa Grande ou Santa Maria da Boa Vista.

A palavra “TERROIR”, de origem latina, significa hoje em dia, uma classificação de demarcação geográfica de um produto com características próprias doadas pela geologia, solo e clima. É usada na França para designar a origem de vinhos e queijos, por exemplo, além de outros produtos cuja origem possui atestado de qualidade e origem.

O que fazemos nós com nossas iguarias no nordeste? Produtos que atravessam séculos sendo consumidos e estimados, nascidos do esforço dos nossos agricultores, trazem a marca de nossa cultura, do nosso jeito de fazer?

Quando surgirão os nossos selos de qualidade "Terroir"? Desde o queijo da cabra do Cariri paraibano ou da banana e da uva de São Vicente Férrer? Produtos que complementam a renda de homens do campo, firmando-os na terra em que nasceram e produzem, oferecendo-lhes uma alternativa mais digna e honrosa do que uma “Bolsa Família”?

terça-feira, 2 de setembro de 2014

É ASSIM QUE FUNCIONA





Funciona mais ou menos assim:

O candidato a prefeito consegue dinheiro com empresários para comprar votos na campanha. Quando eleito, divide com eles as obras da prefeitura que são superfaturadas. Depois emprega a família e os amigos na prefeitura. Compra vereadores para que aprovem suas artimanhas. Ajuda a eleger deputados que, por sua vez o ajudam financeiramente a continuar no poder. E o ciclo se fecha, redondo.

Funciona mais ou menos assim:

Escola multiseriada. Uma coitada que chamam de professora, mal paga e mal capacitada, dá aulas a várias crianças de idades diferentes, todas ao mesmo tempo, numa mesma salinha com moveis quebrados e insuficientes. Isto é, quando o grupo escolar funciona. Pois há uma infinidade deles abandonados pelo êxodo rural no interior do nordeste. Vilas inteiras estão abandonadas. Todos nas cidades vizinhas. Distritos fantasmas.

Funciona mais ou menos assim:

Homens encapuzados param o ônibus, e com armas pesadas nas mãos fazem todos descer. Ficam todos nus, de noite, no meio da pista, homens mulheres e crianças. As malas são jogadas em cima de uma caminhonete que depois leva tudo, no meio da noite. Sigam para a Feira da Sulanca, em Caruaru ou Toritama, ou noutro trecho: é imprevisível.

Funciona mais ou menos assim:

Vamos discutir a cultura? Senta-se numa mesa de Mercado Público do Recife e desce cerveja. Desce aguardente. Panegíricos, elegias, elogios e vasto repertório de anedotas como tira-gosto. Ou vamos ao lançamento do livro. Mamulengos da mediocridade. Papangus da bajulação. Que belos intelectuais a serviço do próximo cargo público!

Funciona mais ou menos assim:

O açude tem água cheia de lodo. No açude lavam roupa, bebem animais que também urinam e defecam. A água do açude serve para dar banho nas crianças e também para cozinhar e beber. Tem um poço abandonado? Entupido? Mal perfurado? Não faz mal, afinal, foi feito com dinheiro do Banco Mundial. A transposição atrasada, superfaturada, a ferrovia vazia. E um jatinho que caiu em Santos cujo dono era uma peixaria. É mais ou menos assim que funciona.