quarta-feira, 29 de outubro de 2014

DE SOFISMA EM SOFISMA


AGUADEIRAS DE XIQUE-XIQUE - ( Gautherot )


Em Custódia, fui fiscalizar um projeto de poços para abastecer a população rural com dinheiro do Banco Mundial. Estavam todos completamente errados. Perguntei quem havia locado poços de forma tão absurda com dinheiro público. “Um médico candidato a prefeito”, foi a resposta. Cancelei-os todos.

Em Ibimirim e Inajá, fui fiscalizar projetos públicos de construção de diversos poços profundos. Ao chegar nos locais das demandas, percebi que todos estavam situados em propriedades privadas e não em comunidades. Os poços eram, na verdade, para políticos e apadrinhados de políticos. E o pior é que, nas imediações, já existiam diversos poços públicos paralisados e sem instalações. Cancelei todos e sugeri instalar aqueles já existiam.

Em São José do Egito, fui ver projetos de construção de cisternas de placas para abastecimento de comunidades rurais. Quem apoiava o prefeito tinha direito. Quem não apoiava, não receberia as cisternas. Alterei o projeto. Mandei refazer e incluir todos os moradores, independente da posição política.

Então, pressionado, pedi demissão.

Falta água no Sistema de Barragens Cantareira em São Paulo, e o mundo vem abaixo. Falta gestão de recursos hídricos, lá e cá. Falta vergonha na cara dos políticos de uma forma geral. Falta respeito com técnicos, engenheiros, que trabalham no serviço público e cuja opinião vale menos que um cabinho eleitoral medíocre.

A água é recurso natural que se distribui pela terra de forma cíclica e heterogênea. Segue padrões que depende de fatores climáticos e geológicos, que variam no tempo e no espaço. Isto significa dizer que cada local possui uma solução adequada para a pesquisa e armazenamento de água para consumo. E essa complexidade natural advém do simples fato que as Ciências da Terra não são exatas.

Critérios políticos e conveniências eleitoreiras influenciando decisões técnicas, somente atrasam as soluções e geram enorme sofrimento e humilhação para os mais pobres. E terminam, um dia, por atingir a todos.

A Hidrogeologia brasileira teve, no Recife, um dos seus principais berços, com nomes de técnicos de renome internacional. Mas a pequenez dos governos nunca quiseram perder a moeda com lastro na água, para se perpetuarem no poder.

O atraso e superfaturamento das obras da transposição do Rio São Francisco é um monumento à ineficiência e inoperância das ações públicas, que teima em buscar uma panacéia que não existe. É uma prova de que o discurso e ações com matizes socialistas do atual governo petista não passa de cópias menores daquilo que sempre existiu no passado.


No mundo on-line em que hoje vivemos (e nos perdemos), o arroto de uma celebridade midiática qualquer vale mais do que a opinião de um técnico sério. E assim, de sofisma em sofisma, à serviço de quem distorce a verdade em favor de seus cargos públicos, vamos sendo tragados por um caos silencioso e de efeitos futuros devastadores.


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

DA GRÉCIA AO MOXOTÓ: BODE AO MOLHO DE POEIRA COM SALADA DE SAUDADE E ESPERANÇA




Ibimirim, Pernambuco, final da década de 1960. Eu viajava com meu pai pelo sertão do Moxotó perfurando poços para a população. Recordo que viajava com um insólito chapéu de couro de vaqueiro que ele havia comprado para mim. E comia mal, pelas estradas. E dormia mal nas poucas pousadas imundas. Foi assim que meu pai me ensinou a ser um pouco estoico – da mesma forma como fez o pai dele.
Paramos para o almoço no único restaurante que ficava no alto do povoado, na beira da estrada de terra, avistando a cidade. Um calor insuportável me tirava o apetite. O calor, as moscas e uma poeira fina que o vento quente soprava por sobre as mesas e os pratos de comida.

Serviram bode assado, feijão de corda e arroz. Foi então que uns meninos se aproximaram da nossa mesa e, de pé ao nosso lado, ficaram olhando a comida, esperando que terminássemos para comerem as sobras. Meu pai aproveitou para me dizer o quanto eu era feliz de ter tudo em casa, em comparação com aqueles meninos de minha idade.

Quase não comi de tanto constrangimento. Meu pai então mandou que servissem outra mesa e mandou as crianças comerem a vontade.  Um deles, bem magrinho, só de calção, era surdo mudo, comia com uma voracidade que nunca mais esqueci. Quase 50 anos depois, aquela cena ainda hoje me dói.

Numa tarde, um menino como aqueles interrompeu uma colheita de maracujá. Nossa propriedade produtiva de 147 hectares na beira do Rio São Francisco, fora conseguida com o suor da família ao longo de 18 anos de muito, muito trabalho. O menino chegou para mim e avisou que a produção estava confiscada pelo MST. Olhei os homens atrás deles. A minha fazenda estava invadida. Tomada. Roubada.

Com ordem judicial, sem tocar em ninguém, tirei-os uma vez. Na segunda, o coronel da polícia me alertou que eu corria risco de vida.

Lembro de meu pai olhando a fazenda invadida na porteira e chorando. Um homem honrado, um ex-servidor público exemplar, completamente desolado.

- Eu entrego a justiça a Deus, Luis! Ele me disse.

Doze anos se passaram. O governo bolchevique que assumiu patrocinou o MST, inclusive, através da PETROBRÁS, hoje, desmoralizada, como antro de corrupção petista. A fazenda que foi nossa, é hoje ocupada por famílias que nada produzem. Apenas recebem programas de assistência social.


Prometi honrar as lágrimas de meu pai. Ao longo da vida, no trabalho, em tudo o que faço, escrevo e digo. Mas peço a Deus que a sua justiça, caso venha, seja branda. O meu estoicismo pouco helenístico sempre foi muito frágil, sobretudo, para o sofrimento alheio.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

COMO SE DAR BEM NA VIDA





Quer “se dar bem” na vida? Interprete um personagem. Escolha um tipo e se vista com a personalidade virtual dele. De preferência, bem conveniente, para rimar com esses nossos tempos da ditadura do consenso. Seja qual for: politicamente correto, um tanto vago, muito gentil e séptico. Bajule quem estiver no poder e quem for famoso. Na ausência de conhecimento sobre algum assunto, diga assim:

- Isto é relativo.

Quer “se dar bem” na vida? Agrade! Agrade ao maior numero de pessoas possíveis em sua volta. Ande na moda, seja na indumentária, seja no falar, no gestual. Capriche nas fotos das redes sociais e “curta” tudo e a todos. “Siga” e procure ser muito seguido. Mostre a todo mundo como é belo o seu personagem, como é admirável a sua maneira de ver o mundo e como você é uma pessoa boa, generosa e preocupada com os temas em debate hoje em dia.

Quer “se dar bem” na vida? seja fugaz com seus relacionamentos, afinal, nada dura para sempre. O que vale para hoje pode não valer amanhã. O que passou, passou, e um bom advogado abre o processo e encerra o caso, o amor, a vergonha, a obrigação e, também, qualquer draminha de consciência. Colecione chavões, clichês, palavras feitas em voga. Elas servem para explicar o inexplicável e tudo aquilo que pode incomodar.

Colecione caras de paisagens, indiferenças e, matricule-se na academia do ego e do oportunismo. Leia o conto “O MEDALHÃO” de Machado de Assis e, escute bem: nunca, jamais leia ou recite o “POEMA EM LINHA RETA” de Fernando Pessoa. Concentre-se nos programas de auditório das televisões.


Quer “se dar bem” na vida? Esqueça esse negócio chamado de “Gratidão”. Lembre-se que futilidade e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Boa sorte!