quinta-feira, 27 de novembro de 2014

BELEZA NA ARGAMASSA



BELA CONSTRUÇÃO URBANA EM ACARI - RN

O que existe em comum entre Paris, Roma, Praga, Veneza e Madri? A beleza. E de onde ela surgiu? Por que surgiu? Que ligação existe entre a beleza e o desenvolvimento econômico, cultural e social de um povo? Eu sempre me faço estas perguntas quando viajo pelo interior do Nordeste do Brasil, e vejo as horríveis vilas de conjuntos habitacionais financiadas pelos programas de governo. Tristes casinhas de dois quartos, saleta e cozinha. Arremedos de habitações, desumanas, espremidas umas nas outras, sem espaços de circulação nem praças e jardins para as crianças.

Vamos refinar a comparação: Por que não temos cidades parecidas com as vilas do interior da Espanha e Portugal, uma vez que somos umbilicalmente unidos pela influência da cultura ibérica? Por que as nossas habitações não possuem sequer a funcionalidade e harmonia das ocas dos nossos índios, circulares e comunitárias, todas elas, utilizando os materiais da região onde foram construídas. Por que  usamos tão pouco a cal, argila, adobe, madeira, as rochas, em nossas escolas publicas interioranas? Será por que são materiais baratos demais e as empreiteiras não conseguem justificar as comissões a serem pagas?

De onde surgiram nossas cidades interioranas com casas coladas umas nas outras, com quartos sem janelas, quentes e abafadas? Ou as do tipo “caixão”, quadradas, cheias de janelas basculantes com vidro “bico de jaca”?

Em que ponto a belíssima arquitetura colonial de Ouro Preto em Minas Gerais e Olinda em Pernambuco foram interrompidas, estupradas e substituídas pela coisa nenhuma? Por que nada foi acrescentado às “urbes”, à habitação popular, da rica e brasileira maneira de se viver nos Trópicos?

Guardem-se cidades como Triunfo-PE e Lençóis-BA, a maioria restante são acampamentos macaqueados do não-sei-o-quê, que ferem os olhos e dificulta a vida de quem ali vive, atestando o rótulo de acomodação e dificuldade de criar, ousar, empreender além dos programas sociais  medíocres.

Vi muitas habitações encravadas em pés de serra no meio da caatinga, cujos terraços e alpendres ainda hoje olham com altivez para os projetos mesquinhos das habitações urbanas.

Todos os grandes impérios da humanidade usaram o sangue como tinta para registrar suas conquistas. Paris, Roma e Berlim, sabem o quanto custou erguer suas belas arquiteturas. Mas essa beleza resistiu ao tempo e, assim como um farol que irradia luz, inspira e desafia suas gerações a reconstruir o futuro, sem repetir os erros do passado. 

E nós, aqui no Nordeste brasileiro, a quem seguiremos? Qual a nossa inspiração estética? Ou não temos?




quinta-feira, 20 de novembro de 2014

INVENTÁRIO DE QUINTAL





A velha era francesa e, moribunda, aguardava o beijo da morte. O menino subia as escadas e ela pedia que lhe dessem biscoitos. “Que riqueza, que riqueza ! vou lhe ensinarr uma chanson: A si fon,fon, fon, Le petit marionette...”

- Adeus, Grand Mere!

O velho tocava fogo em tudo o que via. Dizia que o fogo restaurava a vida. No São João, soltava fogos que pipocavam no céu chuvoso. E declamava poemas tristes e melancólicos. “Já sofri muito na vida”, dizia, mas sempre tinha uma piada pronta, uma gargalhada irreverente, antes de mergulhar os olhos azuis no lago sombrio. Foi ele quem me deu o primeiro copo de cerveja no Bar Savoy. Um só, cheio de espuma amarga. E me senti um homem aos dez anos de idade. Morreu cuspindo sangue devido às negras rosas que lhe brotaram nos pulmões.

- Adeus, Manoel fogueteiro!

A moreninha que dividiu a infância do meu lado gostava de cantar. Comprávamos discos juntos, numa coleção dos anos de nossa juventude. Depois no trabalho, a desenhar formas de ouro e prata com as pedras que eu trazia dos garimpos. Um sonho de ser feliz interrompido de forma insana. O abandono dos amigos e a chegada precoce da solidão final. Da última vez que a encontrei, abraçou-me e disse: “Eu te amo tanto!”

- Adeus, minha irmã!

Adeus, Bia, Pavio, adeus Celina, Sinhorzinho. Adeus amigos demais. Perdoem minhas distancias, minhas ingratidões e silêncios. Adeus ontem e hoje e sempre a todos os que comigo passam. Adeus antes que me esqueça, que me fique oca a cabeça. (Meu pai no hospital, à noite, ao pé do meu leito, dizendo-me adeus do seu jeito).

Adeus pedras e troncos e ventos, adeus fumos, saudades e rimas:

- Passei a vida toda cortando meus pés de laranja lima.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

PRECISA-SE DE GARÇONETE





A estória acontecida de fato foi assim: uma jovem desapareceu de casa. A família, desesperada, acionou a polícia e amigos para procurá-la. O seu pai, um coronel de prestígio na sociedade, utilizou de todos os meios possíveis de encontrar o seu paradeiro. A mãe era inutilmente consolada pelas amigas.

Passaram-se semanas sem ninguém encontrá-la.

Um dia, alguém chegou com a noticia tão esperada. O coronel foi de carro até uma cidadezinha do interior, e chegando num bar da beira da pista, encontrou a sua filha trabalhando como garçonete, servindo as mesas.
Levou-a para casa e também para um médico psiquiatra, que atestou o surto e prescreveu os remédios necessários.

Um destacado empresário do setor de alimentos uma vez me disse que a diferença entre o sucesso e o fracasso de um empreendimento é tão tênue quanto é o limite entre a sanidade e a loucura. Nunca me esqueci de suas palavras e ainda hoje reflito sobre elas. A História da humanidade é repleta de exemplos de sucessos e malogros, de vitórias e tragédias. Desde pessoas a impérios. Por motivos e razões diversas, que nem todos foram devidamente explicados pelas gerações seguintes.

O escritor e filósofo espanhol Ortega y Gasset proferiu uma frase cuja profundidade de significado ainda hoje motiva artigos e estudos sobre a compreensão da realidade e condição humana:

“Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim."

Quem observa o Brasil de nossos dias, neste final de 2014, encontra um vasto campo de estudo sociológico e político, embora facilmente corra o risco de se perder num labirinto sem saída de premissas movediças e teses de fumaça.

A humanidade, assim como dupla cadeia helicoidal de DNA, tende a se repetir ao longo do tempo, mas aqui e ali acrescenta um defeito novo sobre os quais a genética tanto se debruça.

Então, um dia, seja um tiro no meio da rua em Sarajevo, ou num gesto pusilânime de um chefe de estado, o equilíbrio do estado das coisas é rompido e a História é reescrita novamente. Outra vez, de novo.


Quem viaja pelo interior do Nordeste brasileiro desde a infância, como eu, aprende um pouco a enxergar no infortúnio trágico e universal das gentes, o teatro da pantomima humana a servir as mesas em um bar na estrada.