terça-feira, 30 de dezembro de 2014

UM GALO DE PRESÉPIO





Triste de quem não percebe o universo que se esconde por entre algumas coincidências da vida. Há quem nunca aprende a percebê-las  e digo, nem precisa entender, que a vida não é pra ser entendida. Banho de chuva na infância é uma delícia e não precisa explicação, assim como o chocolate, sorvete, e um beijo de amor.

Era tempo de Natal e havia um presépio armado no pátio do hospital. A sagrada família, os bois, pastores, anjos, ovelhas reis magos e, em cima do telhado, um galo também de cerâmica. Os contornos dos bonecos denunciavam a origem européia, mas só o galo era absoluta e imperiosamente lusitano.

E lá estava eu, no meio da noite, a pedir aos céus pelo fiapo de vida que se desprendia de metade de um descolamento de placenta. Todo dia uma imagem para ver se o feto estava vivo. E depois da agonia... ele ainda se mexia.

Uma noite, exaurido de forças e, como sempre, de minha pouca fé peregrina, cheguei desesperado diante do presépio e pedi que todos ali me ajudassem a parar aquela agonia. Supliquei em primeiro lugar ao Verbo. Depois, uma cadeia sucessória de autoridades celestiais que saí lembrando na hora. Nome por nome, um por um:  por favor, façam que ele sobreviva! E não esqueci Gabriel, Miguel e Rafael.

Depois, contemplando o presépio, pedi a cada um dos personagens. Pedi não, implorei. Um pranto silencioso de quem não aguentava mais ver um projeto de mãe passando por tanto sofrimento. Por fim, eu confesso, pedi também ao galo. Pois, se estava ali, era porque também merecia. E bem mais do que eu, que diferente dele, gastava rastro pelo mundo e praticava o mal – mas só de vez em quando.

Cinco meses depois ele nasceu. Encheu de luz uma casa triste. Mas era de sete meses, feio, doente: vinte e três dias de UTI neonatal e duas paradas respiratórias. Sobreviveu até ao levantar desconfiado das sobrancelhas dos médicos.

Quis o Destino, que também chamam de “Providencia”, que seis anos depois, procurando curar uma gripe resistente, com tosse e dor no peito, me levasse de volta ao mesmo hospital. Na mesma época natalina. E depois de exames e radiografias e remédios prescritos, sai do prédio e me deparei com o mesmo presépio. Mesmos personagens. Inclusive com o mesmo galo, desta vez promovido de lugar, e posto honrosamente ao lado da manjedoura.

Neste exato momento, acontece a coincidência: o meu celular toca. Paro na frente do presépio para tirá-lo do bolso e atender. Então uma voz de menino me pergunta do outro lado se eu estou lembrado do passeio da tarde, para brincar com o seu avião que voa movido a elástico. Eu confirmo a promessa e desligo. Olho para o presépio aparentemente emocionado - que gripe! e agradeço a cada um. Um por um. Seis anos depois. E terminei agradecendo ao galo também.

A minha heresia de idolatria será perdoada. Eu sempre achei que o Criador era maior do que as quatro paredes de minha igreja reformada. Alem do mais, meus pecados são tantos e minha fé tão pequena, que qualquer coisinha que sobra, eles aproveitam na justa contabilidade lá de cima.

Só Deus e suas loucas ferramentas para confundir os sábios, e reacender a esperança no coração dos fracos. 

Como é belo, mágico e insólito, um galo de presépio!


(Para Pedro, meu sobrinho)


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A MARCA DA VÍRGULA




O meu interesse era encontrá-lo caminhando na avenida, pela calçada. Querer um abraço talvez fosse demais. Apenas vê-lo caminhar com o seu balançar de corpo pausado, de um lado para o outro, a cabeça meio curva, cabelos brancos finos, o paletó azul inconfundível. Seria meu presente de Natal.

Fui até a avenida onde eu costumava encontrá-lo, e de como as vezes me via e sorria, feliz, e ao me abraçar me levava a tomar um café ali perto, e comentava alguma notícia da semana, ou de seu trabalho. Como aquilo me fazia bem...

Esperei no meio da multidão que passava apresada com as compras de Natal. As lojas a tocar canções da época, as luzes piscando. Esperei, esperei. Uma espera que sabia inútil e vã. Mas que eu precisava esperar, para que o final de ano tivesse um pouco de sentido para mim.

Andei de um lado para o outro: ninguém parecido com ele. Apenas a mesma avenida cheia de gente onde eu o encontrara tantas vezes. A noite foi chegando e entrei num bar. Não é que desistira de procurá-lo, apenas a noite começava a chegar e minhas pernas estavam cansadas. Voltei para o hotel, e no outro dia, para casa, sem encontrá-lo. Mas com o sentimento da missão cumprida de, pelo menos, tê-lo procurado.

Eu guardo no dedo da mão esquerda, uma cicatriz de um grande corte feito pelo vidro de uma mamadeira que caiu no chão no exato momento que ele chegou uma vez de viagem. Quebrei a mamadeira de alegria, assim que o vi chegar. Corri para ele chorando, com o dedo ensanguentado – coitado! e ele só fez largar a mala empoeirada no chão e me levar para o Pronto-Socorro para fazer um curativo. Tenho a cicatriz daquele encontro até hoje. Queria encontrá-lo de novo, só mais uma vez, para abraçá-lo com força e mostrar a marca da cicatriz no dedo. E dizer assim:


- Olha papai, é apenas a marca de uma vírgula. Não é a de um ponto final.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

TRÊS CIDADES E O CAMINHO PARA JERUSALÉM




Numa, havia um boi enorme de manso, pelo meio das ruas. As crianças montavam em cima dele, as outras puxavam pela corda. A cidade vivia sossegada debaixo da copa dos Ficus Benjamins, onde os velhos assistiam a vida dos netos passeando no lombo do animal. Um dia, muitos anos depois, construiram uma barragem no Rio de Piranhas, e a cidade foi submersa. Eu já era grande e mesmo assim fiquei triste com a notícia. Procurei na internet alguma foto. Achei poucas: a da torre da igreja fora d’água, apontado o céu azul do Sertão.

Em outra, uma lanchonete no centro servia papa de aveia aos idosos. Prato preferido pelos escravos das dietas, portadores de dentaduras e outras próteses da velhice. Claro que tinha sanduíche de carne de sol. E também de pernil de porco, sempre com tomates e cebolas. Mas os velhos pediam papa de aveia. Criaram então o boato que a papa estava matando os idosos. E a zoada se instalou na cidade a titulo de gozação. No dia que um dos times da cidade perdeu de goleada, um radialista inventou que os perdedores tinham comido a papa na véspera do jogo.

Da terceira e última, lembro de quando fui procurado por um rapaz franzino. Pediu-me que permitisse dormir no chão da garagem da repartição publica onde eu dava consultoria. Disse que havia passado dois dias em claro, ao lado da esposa, no hospital, por causa de uma gravidez de risco. Enfim, o menino nascera. Agora precisava dormir. Nem que fosse num pedaço de chão. Disse que era vendedor de salgados numa pequena cidade vizinha. E que tinha boas referencias, e que eu procurasse conferir. Tudo o que ele queria era um pedaço de chão para dormir, pois não se aguentava em pé. Fui com ele a uma pequena hospedaria ali perto e paguei-lhe um quartinho com ventilador. Era Natal – compreende-se – tempo de gente viajando a procura de onde passar a noite.

São Rafael, Campina Grande e Arcoverde: o rosto de uma cidade é desenhado pelo povo com suas estórias. O menino na manjedoura corre nas ruas, nas escolas, nas praças, orfanatos e asilos. A distancia de Belém até Jerusalém é uma via crucis que todos nós percorremos. É a ela que chamamos de “vida”.



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

ENTRE UM DEDO E UMA COLHER





A garçonete traz o prato de sopa com o dedo polegar dentro. O encanador não possui as ferramentas adequadas. O pedreiro se irrita quando se pede que obedeça a um padrão de trabalho. Uma recepcionista de órgão federal que come um pote de iogurte fazendo o dedo como colher, durante o trabalho. Um corpo de secretárias que não sabem redigir um ofício. A oficina mecânica que não sabe estabelecer uma data para entrega de serviços, e quando estabelece, não cumpre. O vereador que só aprova uma lei se receber propina. O prefeito que não sabe administrar nem planejar o futuro. O governo federal acuado por acusações de corrupção por todos os lados. Programas inúteis. Obras paralisadas. Nação dividida.

Encontrei a amiga num ponto de ônibus no domingo. Parei o carro e ofereci carona. Ela ia dar aulas para vestibulandos no Recife. Disse da indignação das mudanças recentes: não é mais cobrado literatura e nem gramática de quem quer entrar na universidade. Apenas redação. É mais ou menos assim: você tem de fazer um bolo excelente, mas sem os ingredientes.

Eu e Flávia Suassuna fomos conversando no carro. Somos de uma geração que engolia livros. Consumíamos livros como sorvete. Trocávamos, discutíamos. Ler, para nós, era um enorme prazer.

Não sei o que seria de mim hoje, sem os livros que li. Eles formaram o que sou. Eles ainda me auxiliam em tomadas de escolhas e na interpretação e compreensão da realidade da vida.

Comentei com Flávia que, nas grandes universidades do mundo, Harvard, Cambridge, Oxford, Sorbonne, Duke, entre tantas outras, ninguém consegue sequer começar um curso sem ler, interpretar à exaustão e discutir em sala com os professores e colegas, dezenas e dezenas de livros sobre diversos assuntos. E são nessas universidades que são formados os grandes gerentes de multinacionais, médicos, cientistas de renome, ministros, presidentes de nações – a maioria daqueles que decidem os rumos da nossa civilização. Lá, literatura e gramática é mais do que obrigatório: é alicerce!

E nós, aqui no Brasil? Estamos na contramão do mundo? Por quê? Com que objetivo?

Há pouco tivemos um presidente que se orgulhava publicamente de nunca ter lido um só livro. Hoje vemos o seu partido enlameado e seu nome como avalista. A atual chefa da nação profere, de improviso, discursos ininteligíveis, quando não grita com seus  subordinados. E não precisamos de literatura...


Naquele domingo, Flávia foi dar aula, eu fui à igreja. E assim, perseveramos na fé.