sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

MEU NOME É OZYMANDIAS





Tudo é vaidade, debaixo do sol, diz o livro de Eclesiastes. Ontem o Egito, Grécia, depois Roma e hoje Nova Iorque. Portugal já foi dona do mar. Hoje tem saudade de tudo o que foi. E a poderosa Europa vive com medo do próximo atentado muçulmano.

O homem se embriaga com o poder e seu tempo, enquanto não percebe que um vento interior lhe destrói a vida ou as vísceras, em algum mal secreto ainda em gestação. Que rei, que imperador, que empresário, que milionário? Quem pode acrescentar um dia à sua vida?

Lá está uma fogueira na beira da praia. Queimam o corpo de um afogado no mar. Percy Shelley escreveu um poema que lhe justificou a vida: Ozymandias. Virou um clássico. Mas nenhum poderoso gosta de ler.

Ozymandias, apelido grego para o faraó Ramsés II, é um recado para os abutres do governo petista de hoje e de sempre, no Brasil. Estas hienas que disputam a perpetuação do poder e esquecem suas vidas limitadas, de seus tumores secretos, ainda no recôndito de seus cromossomos mesquinhos e vis.

De vez em quando um coração pára. Um pulmão sangra. Uma radiografia assombra, um avião cai. E um mal estar, um desmaio, um desengano médico, se curva diante do anjo da morte. E do sepultamento na areia do tempo.

Shelley foi cremado na praia. Mas não o seu poema. Ele é uma sentença a atravessar os séculos.


OZYMANDIAS

Eu encontrei um viajante de uma antiga terra
Que disse:—Duas imensas e destroncadas pernas de pedra
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia
Meio enterrada, jaz uma viseira despedaçada, cuja fronte

E lábio enrugado e sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor bem suas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.

E no pedestal aparecem estas palavras:
"Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem as minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!"

Nada mais resta: em redor a decadência
Daquele destroço colossal, sem limite e vazio

As areias solitárias e planas espalham-se para longe.

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