sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

SOBRE A INDIFERENÇA



I.

Um filhote de onça, ali na frente dele,  no interior da pequena gruta de arenito. Caminhou devagar na sua direção. Pretendia apenas fazer um carinho. Foi quando sentiu nas costas um par de patas com unhas afiadas rasgando sua pele de cima a baixo. A onça mãe, que vigiava o filhote de cima de uma escarpa, pulou para defender sua cria. Levaram o turista irresponsável para um hospital. Costurar as costas. Parque Nacional da Serra da Capivara, Sul do Piauí. O fato me foi contado por um guia local.

II.

A região era no Agreste de Pernambuco. Águas Belas. A cidade toda fica dentro da reserva indígena Funil-ô. O trabalho era locar um poço tubular para abastecer o local das festas do Ouricuri. Fomos acompanhados pelo cacique. Depois de fazer o levantamento geoestrutural básico, dissemos a ele que precisaríamos entrar na área reservada do Ouricuri, pois havia indícios de melhor sucesso no seu interior: Fraturas abertas nas rochas. Cursos de água alimentando as fraturas. O cacique não autorizou. Disse para locarmos fora. Não dentro. Ninguém pode entrar no local sagrado do Ouricuri. Só os índios. Só no tempo do ritual. Mas, e a água? Ele não queria um bom local para furar um poço? Sim, queria. Mas que locássemos fora da área sagrada. Ninguém entrava na área do Ouricuri e ponto final. Então o poço foi locado fora. Água pouca e ruim.

III.

O velho era irreverente. Foi assim por quase toda a vida. Menos na velhice, quando a idade sabe pesar no corpo e na consciência. Contou-me que certa vez, convidado a visitar a uma sessão espírita, zombou do médium na exata hora de uma incorporação. Foi repreendido pela entidade e saiu de lá gargalhando. Na mesma noite, caminhando pela sua fazenda, um galho de pé de café perfurou-lhe o olho. Teve de vir com urgência para o Recife de avião, para tentar salvar a visão que, por muito pouco, não perdeu. Muitos anos depois, arrependeu-se da zombaria no lugar errado.

IV.

Abbé Pierre, sacerdote e uma das maiores personalidades francesas de todos os tempos, disse na imprensa, poucos anos antes de sua morte, que a sociedade daquele país estava gravemente enferma. E o nome da enfermidade chamava-se: Indiferença. O fundador do Movimento de Emaús alertou também que da enfermidade padecia toda a Europa. 

A terceira lei de Newton diz que, na natureza, a cada ação corresponde uma reação. Qual será a reação à indiferença?

Abbé Pierre era apenas um velho sacerdote doente.

Era apenas um filhote de onça numa gruta.

Era um lugar sagrado onde estranhos não entram.

Uma irreverência no local e na hora errada.

Um jornal sem respeito.


Um comentário:

  1. Muito bem, Luis Manuel. Não resta dúvida que a "irreverencia" do jornal francês era desnecessária. E sem a menor graça. Apenas uma forma de discriminação, politicamente incorreta.
    A resposta dos terroristas muçulmanos foi excessiva. Mas já não se sabe que eles não admitem que se mexa com a sua religião? Para que provocar?
    Usar o chavão da liberdade de expressão não justifica. Quem se benificiou com isso? O que houve foi um desrespeito e um insulto. Com resultado funesto. Mexer com onça dá nisso...
    Abrs.
    Parabéns.
    Maria de Lourdes Hortas

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