terça-feira, 20 de janeiro de 2015

UM MÁGICO DE CIRCO POBRE



Harry Houdini


“Tomara que não chova”. Era assim que chamavam um circo mambembe, sem lona de cobertura. Vi muitos deles pelas praias de Pernambuco, nas férias de janeiro. Vagavam de praia em praia armando seus trapos, em caminhões velhos. Eram palhaços pornográficos, malabaristas esquálidos, tristes cantoras grávidas. Mas era um circo, e aos nossos olhos de criança, um lugar de alegria.

No dia seguinte aos espetáculos, saíamos a cantarolar as cantigas imundas e engraçadas dos palhaços, e a imitar seus trejeitos, enquanto íamos buscar águas nas cacimbas públicas. Anos 1960: Itamaracá, Maria Farinha, Pontas de Pedra, Praia da Conceição.

Mas a melhor estória de mágico de um circo pobre me foi contada pelo meu sogro. Acontecido e presenciado por ele nos anos 1940, num bonde do Recife.

Viajava ele e o pai, quando entrou um passageiro, proprietário e mágico de um circo mambembe recém chegado a cidade e instalado num bairro da periferia. Carregava consigo, debaixo do braço, uma galinha – o que era proibido num transporte público.

Ao passar o cobrador e vê-lo com a galinha, reclamou e pediu que ele saltasse imediatamente. O homem lamentou. Olhou a galinha, beijou-lhe a cabeça e a jogou pela janela do bonde, diante dos olhos de todos os passageiros.

Alguns minutos depois, todos perceberam que o velho artista continuava sentado no banco e, para o espanto geral, continuava com a galinha debaixo do braço. Todos os passageiros sorriram admirados. Volta o cobrador do bonde:

- Eu já não lhe disse que é proibido carregar animais no bonde?

O velho lamentou novamente. Pegou a galinha nas mãos e  outra vez jogou-a pela janela do bonde, à vista de todos.

Mais adiante, ao chegar na sua parada, ele desceu e passou a caminhar pela calçada. E para a surpresa e admiração geral, ele sorria e acenava aos passageiros do bonde, enquanto carregava a galinha – a mesma galinha - debaixo do braço.


Há uma coisa que eu descobri sobre os circos pobres e seus artistas. De tanto mentirem, em suas artes ilusórias de magia e palhaçadas, suas indumentárias e práticas ficam impregnadas nas suas vidas e almas. E tudo aquilo que fingiram ser, vira realidade no cristal das nossas lembranças.

Um comentário:

  1. Oi, Luis!
    Talvez a mentira se integre às suas vidas como forma de realizar seus sonhos. Como se a imaginação fosse a trajetória real da vida.. No final, qual a melhor vida para lembrar, a real ou a imaginária?
    Beijus,

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