terça-feira, 27 de janeiro de 2015

VOLTA PRA CASA



(Foto de Aziz Ab'Saber)

A benção pai, que não lhe escuto. A cadeira vazia de minha mãe. A irmã doente: todos no cemitério? E eu que um dia desses brincava aqui na rua com ponteiras de ferro e dinheiro de embalagens de cigarro? No cemitério? E meus amigos irmãos que corriam comigo as campinas floridas no tempo chuvoso, catando crisálidas para fazer adivinhação? Tomando banho de bica nas trovoadas. E os tios cuidadosos, os amigos de noite, nas cadeiras, nas calçadas, falando do mundo e da vida e seus malassombros: cemitério? Qual o que!

O filho de Dona Antônia que sentou praça e lhe mandou a primeira televisão da Vila. O mesmo que me deu dinheiro pra viajar no ônibus que eu nunca mais voltei?

Para onde foi Ritinha Dois Vestidos, que era minha namorada e também paixão de minha vida e meu amor imenso de infância? Ingrata que casou com um soldado e apanhava dele, embriagado, e que largou para trabalhar de Monga que vira macaco num ônibus velho, mundo afora, e por quem derramei um açude de lágrimas. Cemitério? Cemitério também?

Meus cadernos cheios de madrigais. Meus discos arranhados. Coleção de planos de vencer na vida e ficar rico e ser feliz e famoso e voltar um dia pra ajeitar a vida de todo mundo, com dinheiro - dinheiro pra todo mundo nunca mais precisar de dinheiro. Para onde foi isso tudo?

E num dia aziago, quente, cheio de vento empoeirando as vistas, chego e chamo pelo nome das pessoas e ninguém responde, caralho! Agora que eu trouxe dinheiro pelo menos pra fazer uma festa, minha gente! Apareçam! Pra onde foi todo mundo? Para onde foi a minha vida, meu Deus do céu?

 - Ô de casa! Ô de casa!



(Luis Manoel Siqueira - FAREWELL ACAJU - Inédito)

2 comentários:

  1. Me lembrou o poema de Manuel Bandeira: "Estavam todos deitados/estavam todos dormindo./Dormindo./Profundamente...

    Bonito texto Luis. Sempre gosto do q. você escreve.

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  2. Luis, logo hoje, que partiremos Helena e eu para um ano sabático lá do lado do mar, recebo sua crônica. Aqui matutando, quantas vezes na vida voltamos pra casa? Quantas vezes nos procuramos, nos perdemos e nos achamos no passado? Quantas vezes? Meu irmão, suas palavras nos leva a um passado de sonhos, onde morava a esperança e pureza das almas. Obrigado. Mário Engles.

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