sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

QUEM TEM SEDE BEBE PETRÓLEO



(Andy Singer)

Há muitos anos que os alunos iniciantes dos cursos de Geologia das universidades federais recebem o assédio da Petrobrás, que oferece gordas bolsas de estudo aos que se dedicarem, desde o início, à colaboração junto a professores e projetos do interesse da empresa e patrocinados para ela. Assim, ao longo do tempo, os cursos de Geologia se encheram de “Petroleiros”, como são chamados, um bando de garotos cooptados por uma visão deturpada da própria profissão e da vida.

Quando me vi forçado a fazer um mestrado, fui alertado por um eminente professor da USP do quadro deplorável que eu iria encontrar na academia - Mas sodomia moral é assunto para outra crônica. Eu fiquei indignado ao ver o esvaziamento das outras importantes disciplinas do curso de graduação, que sequer conseguiam a atenção dos estudantes, nem projetos de pesquisa ou estagiários. 

A realidade continua a mesma. É fruto de governos míopes, sobretudos os petistas, que possuem grande respaldo entre os professores acadêmicos que adoram projetos financiados e, imperialisticamente falando, de mão de obra barata para executá-los.

Mas o tempo, é o senhor da razão. Mas a verdade, segundo meu velho pai, “É como um diamante na lama: quando bate o sol ele se denuncia”, secou Cantareiras. Secou barragens, secou açudes, hipocrisias e argumentos vazios.

De repente, o país experimenta o drama do estresse hídrico ao qual sempre esteve subjugada grande parte do povo nordestino. E agora, a incompetência e irresponsabilidade do governo federal mostram sua face à nação, ampliada na coincidência dos anos de pouca precipitação e ausência de planejamento estratégico dos recursos hídricos em administrações corruptas e incompetentes.

Em Pernambuco, o drama hídrico continua o mesmo de sempre. Obras incompletas ou paralisadas integram nada a coisa nenhuma. A cidade de Arcoverde padece há anos de um racionamento perverso, embora situada próxima da Bacia do Jatobá, rica em água subterrânea. Ali, um paliteiro de poços público abandonados aguarda providencias que nunca chegam.

Coragem política para implementar ações de integração de sistemas hídricos locais são deixadas de lado, em detrimento de panacéias de transposição e caminhões pipas a distribuir favores - as novas frentes de emergência.

Agora o Brasil tem sede? Beba petróleo.




terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

ROGAI POR NÓS





Mikhail Bakhtin, filósofo russo, estudioso de literatura e da linguagem, ao estudar as manifestações populares greco-romanas antigas, as representações, códigos e manifestações culturais das feiras medievais, construiu aquilo que denominou: Teoria da Carnavalização. Segundo Bakhtin, ela é composta por quatro elementos:  a Inversão, Excentricidade, Familiarização e Profanação. Sendo a Profanação, a principal delas. Assim, as restrições, leis e proibições, que sustentam o sistema e a ordem da vida comum, revogam-se durante o carnaval.

 “revogam-se, antes de tudo, o sistema hierárquico de todas as formas conexas de medo, reverência, devoção, etiqueta etc.”.

Bakhtin estudava a linguagem da cultura popular, suas raízes e motivações baseadas no riso, no burlesco, nas paródias: em toda ambivalência da vida que era traduzida pela linguagem humana na sua forma mais primitiva e original. Todavia, Ele era um homem recatado, até religioso, um intelectual raro e profícuo. Ainda hoje as suas obras são estudadas. Não obstante ter nascido de família nobre, morreu na miséria nos anos 1970.

Mas no Brasil, Bakhtin é fonte distorcida de citação da grande maioria dos acadêmicos brasileiros - sobretudo daqueles que não gostam de dar aulas, nem de estudar, para justificar suas idiossincrasias políticas e filosóficas da putaria, da imoralidade geral, da ditadura do relativismo - mesmo relativismo aético que hoje governa a nação.

Brasil: terra de carnaval eterno. Terra de sucessão de erros e vícios históricos. Terra de desigualdades várias. Terra de Macunaíma autofágicos, do canibalismo de valores, de princípios e do Belo.

Brasil: Uma bala perdida a atingir pessoas nas ruas, uma obra superfaturada, um menino arrastado num carro alegórico por bandidos, até a morte. Um buraco que engole homens sérios e honestos, junto com um turbilhão de trios elétricos, confetes e serpentinas.


- A Benção, São Bakhtin!