segunda-feira, 23 de março de 2015

O FIM DE UM BLOG DE CRÔNICAS





CRÔNICAS SOBREVIVENTES

Durante vinte anos eu retirei da terra o meu sustento. Ora da pequena mineração de pedras preciosas, ora da agricultura. Foram anos difíceis e marcantes. Ao longo desse tempo, escrevi para alguns pequenos jornais do Sertão do Sub-médio Rio São Francisco, entre Pernambuco e a Bahia, onde vivi. Eram crônicas sobreviventes. Depois, em jornais e revistas várias, em sites de literatura na internet, nos blogs Assum Preto e no que leva o nome desta coletânea. A primeira e última.

Aqui estão reunidos alguns daqueles artigos, dentre outros inéditos. São frutos do calor das terras secas e do silêncio dos caminhos percorridos. Um pouco do que vi e senti dos perfumes do mundo. Perfumes que o vento trouxe e que depois levou para bem longe, junto comigo.



Para download em PDF  no seguinte link:



(A todos os leitores e os que aqui deixaram seus comentários, o meu sincero agradecimento.)

segunda-feira, 9 de março de 2015

EMPOWERMENT





MORADORES EM EQUADOR-RN EM FILA PARA CONSEGUIR ÁGUA POTÁVEL - FOTO: ANDERSON BARBOSA/G1


Um dos maiores constrangimentos que passei na vida, foi quando me pediram para averiguar a real necessidade de uma comunidade rural no Sertão pernambucano que pedia, a um programa do Governo do Estado e do Banco Mundial, a construção de banheiros em suas casas.

Eu era coordenador regional do Programa, mas também fazia fiscalizações de campo junto com a equipe multidisciplinar que chefiava.

Cheguei de tardezinha num vilarejo no Município de Jatobá, e perguntei pela presidente da associação comunitária. Fui então apresentado a uma senhora com idade de ser minha avó, que me recepcionou sorrindo de felicidade. Solicitei então que reunisse os associados. Para a minha surpresa, eram todas senhoras idosas como ela. Vieram saindo de suas casas, arrumando o lenço na cabeça, e se posicionaram ao meu redor. Umas vinte, salvo a memória não me falha.

Era exigência do Banco Mundial, o que eles chamam de “empoderamento” das comunidades na escolha de seus projetos. Traduzindo: dar o poder de escolhas aos beneficiários. Mas esse empowerment nascido das bundas sentadas em gabinetes refrigerados em Washington, exigia debates entre os necessitados. Quem precisava mais. Quem tinha mais fome de que. E me revoltei com seguidas reuniões humilhantes e deprimentes entre o sofrido povo sertanejo de minha terra.

De volta ao povoado. Perguntei às senhoras quem tinha banheiro dentro de casa. “Ninguém aqui”, responderam. Custei a acreditar. Perguntei como faziam as necessidades? “No mato, atrás de casa”, responderam. E fizeram questão de me levar de casa em casa para averiguar a realidade do que diziam.

Na primeira residência, eu dei por encerrada a visita técnica. A senhora que era proprietária tinha um filho tetraplégico. E era ela mesma, viúva, quem o carregava para a sentina, onde um buraco no chão fazia às vezes de vaso sanitário.

A organização WaterAid, também americana, publicou recentemente uma nova pesquisa (velha) neste último domingo, dia da mulher, onde afirma que a falta de saneamento e água potável mata mais do que Aids, Câncer de mama e Diabetes. São 800 mil mulheres que morrem por ano, por este motivo. Metade das cidades brasileiras não possui saneamento básico. Água potável, então, é uma calamidade no nordeste brasileiro, até mesmo nas capitais.

“Doutor, venha ver as outras casas!”, pediram-me as senhoras. Respondi que não precisava mais ver nada. “E o senhor vai aprovar os nossos banheiros?”


Já estava ficando escuro, e elas não perceberam as minhas lágrimas.