domingo, 12 de abril de 2015

AS CRÔNICAS DE LUIS: LUCIDEZ E SENSIBILIDADE


As crônicas de Luis: lucidez e sensibilidade

 

O ato de escrever é sempre misterioso, inesperado.  Como entender que, de repente nos venha o desejo de colocar no papel mundos passados, nem tão passados, já que nos chegam à lembrança.

Se nos vem à memória, é que continuam presentes, é Mario Quintana que nos dá essa lição: de fato, o ato artístico é uma recuperação de perdas. Enquanto isso, a realidade está aí, diante nós, nem sempre decifrável,  nem sempre ao nosso gosto, nem sempre ao alcance de nossa percepção., de nossa capacidade de julgamento.  Fora de  nós, apesar de nós, os fatos são, as coisas são, os acontecimentos de toda ordem se multiplicam, a vida se faz, se refaz, exige posicionamentos, questionamentos. Ao nosso redor  seres humanos existem. E esses que fazem conosco a perigosa travessia de que falava Amiel, também aguardam nosso amor, nosso olhar crítico, nossa fala, nosso jeito de esclarecer um gesto, uma palavra, um detalhe, buscando entender  o aqui e agora que nos é dado viver, no pequeno instante de eternidade que nos é concedido.  E é aqui que chega o escritor, o romancista, o poeta, e sobretudo o cronista, todos comprometidos com o interrogar e decifrar a realidade,  todos  comprometidos com a verdade, e, de modo mais ou menos premente, com a beleza.


Estas crônicas de Luis Manuel Siqueira, escritas ao longo de muitos anos de uma vida rica em acontecimentos de toda ordem, não são apenas a recuperação – bela   recuperação, aliás – de perdas. São uma espécie de prestação de contas do autor para consigo mesmo, para com seus leitores que há muito tempo aguardam a alegria de as reencontrar, que há muito tempo acompanharam  o autor em suas andanças pelo Brasil, por Pernambuco em particular, marcadas por encontros e desencontros com seres, paisagens, cenários, que Luis publicou em jornais do Recife ou do interior e em seu blog. Grande viajante, grande habitante de lugares esquecidos do sertão, do agreste, de povoados nos quais ainda não chegaram o que se convencionou  chamar de conforto moderno, ai de nós, Luis parece ter aprendido a lição daquele outro  sofredor de dores alheias, o extraordinário Ciro Alegria, que nos lembrou que aqui ou ali, e sobretudo naqueles espaços distantes que descreveu, sempre, o mundo é ancho y ajeno,  vasto e alheio a nossas misérias, a incompreensão, a falta de bondade e de justiça por parte de quem poderia tornar melhor e menos alheio esse mesmo mundo,  e mais o espaço, cada vez mais utópico, da felicidade, da beleza.

 

Nesse caso, tudo pode ser motivo para a tomada da palavra e é aqui que a sensibilidade de Luis, seu jeito de sentir coisas e acontecimentos, suas experiências, vividas  no laborar a terra, no silêncio, na solidão, essa sensibilidade se junta à lucidez, ao senso critico, e reparte conosco a capacidade de julgar, de extrair do enorme espetáculo da vida, tal qual se apresenta a nós, que a observamos ou experimentamos, lições  que já o menino aprendera na dureza dos dias, quando descobriu que há crianças que não comem, que nas cidades há delas que catam  lixo, que no sertão há vidas secas, mãos estendidas pedindo, se humilhado, por conta de nossa indolência.

 

Na quase prestação de contas que é este livro tudo cabe, paisagens e seres humanos se misturam,  agem e nos dão lições. De beleza, de resistência. Vive aqui, sobretudo uma grande galeria de personagens, seres humanos originais ou comuns, que por um momento ou de forma duradoura, indelével,  atravessaram a vida do autor. Tipos inesquecíveis como seu próprio pai, exemplo de amor, de coerência, de inteireza, de integridade, de retidão. Que acrescentou uma pedra à construção do mundo, fez menos sofridas as gentes do nordeste, pela profissão que escolheu e pelo modo amoroso e eficiente como a exerceu. Pessoas que criaram beleza, como Luiz Gonzaga, cantor maior, da miséria e do encanto da paisagem do nordeste, da coragem do homem do nordeste. Como Celina de Holanda que cantou e viveu lições de amizade. Ou pessoas simples, anônimas, como o velho pescador no Rio S. Francisco, conhecedor de tantas mágicas, belas misteriosas histórias Como o cantador de feira, ou o dono da venda em povoado do interior, que fornece mercadorias a quem não poderá pagar. Pessoas como as duas velhas senhoras varrendo a calçada da cidadezinha, e continuam impassíveis quando cai a chuva, felizes, em volta inesperada à infância.

 

Na apresentação do livro, Luis Siqueira avisa ao leitor o que o espera: lerá “crônicas sobreviventes”, isto é, o que restou de uma época, de pedaços de vida que o tempo não conseguiu destruir.  Que continuam vivos, vencendo a talvez banalidade do presente, companheiros do cotidiano, recuperados pela fala criadora do poeta, que agora nos convida a partilhar um passado e a usufruir o que dele restou, enquanto testemunho de um ser humano com o qual comungamos, no tempo de uma leitura. Obrigada, Luis.

                                         Luzilá Gonçalves Ferreira

                                         Poço da Panela, abril de 2015.

 

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