FORTUNA CRÍTICA

 Sobre: "MIGUEL, O GATO"
  


TELEX PARA LUIS MANOEL


Seu gato preto está arranhando todo mundo. Edgard Allan Poe, depois de saber da existência de seu felino, vive assombrando os editores para recolher o gato que emparedou no século passado. Seu gato é um gato solto, não emparedado pelo parnasianismo geométrico dos concretistas, nem emaranhado nas teias herméticas do surrealismo persistente. É um gato eriçado, um gato-povo, um gato velho novo eterno, um gato ovo, um gato fogo, um gato que chegou em chamas das profundezas do inferno.

Outra coisa: ser claro num tempo turvo é um esforço de cristal, e o cristal tem restas, como a vida (ou como João Cabral). Atice seu gato ágil sobre a poesia poética, sobre o sentimento sentimental, sobre o sonho sonhador, sobre os equívocos e extremos  que chegou a poesia brasileira, ora uma raiva ou uma alegria ineficazes por falta de informação, ora uma masturbação sobre o gelo verbi-voco-visual do eruditismo estéril.

Pra frente, gato magro brabo, sertanejo, pra frente poesia de couro cru, ainda com sangue não evaporado pelo sol. Gato altivo sobre os telhados senhoris de um Recife adocicado pelas pernambucanidades mais marotas. Gato Miguel, “Miguel não de sí mesmo/Miguel das sombras”, depois de despojado das esperanças litorâneas, depois de apedrejado pelas crianças miseráveis ou pela caducidade intelectual das elites literárias de Pernambuco.

Gato também amolecido da Zona da Mata, onde crianças de um ano comem bananas verdes amassadas, e um camponês cercado de milhares de hectares de cana (dos outros) pede-nos desculpas porque não tem açúcar para oferecer um café. Gato de todas as zonas massacradas e pobres, gato que comeu as impossíveis “gordas gatas do porto” e depois ficou sozinho e depois morreu e depois foi jogado no lixo e depois transformou-se em poesia para nos assombrar.


ALBERTO CUNHA MELO

29.03.82



Carta de Alberto Cunha Melo para Celina Holanda sobre
"JAMAIS HOUVE TREVAS"





O LEÃO E A BARONESA

Paulo Gustavo

Prêmio Othon Bezerra de Mello, de 1990 da Academia Pernambucana de Letras, mas só agora publicado, o O LEÃO E A BARONESA, do jovem autor Luis Manoel Paes Siqueira, vem somar-se à galeria dos bons livros de ficção recentemente produzidos em Pernambuco. Como estréia, nada mau, de vez que foge à mediocridade da grande massa de concorrentes à carreira literária. Mais para romance do que para novela, a obra se sustenta pela desenvoltura que o autor, com graça verbal, pinta situações; por outro lado, a trama, numa visão mais rigorosa, poderia ter se desenvolvido com maior profundidade e alcance. O que pretende dizer é que o autor não explorou o suficiente, para a completa realização de um romance, a potencialidade da ficção que, com certa maestria, instaurou (passe o trocadilho) com garra de leão e elegância de baronesa. O texto de O LEÃO E A BARONESA, fluido e ágil como é, atrai o leitor desde o início, quando o narrador e personagem principal lembra a sua viagem do Interior para a capital, órfão e necessitado, em busca do sonho de estudar Medicina e arranjar um emprego. Logo então se saberá que a capital, embora não explicitamente referida é o Recife, e que nela, mal saído da adolescência, o personagem há de viver um tempo inesquecível, um tempo –alias cronologicamente situado em recente década – em que o sonho e a realidade (sobretudo uma realidade de contradições e impasses ideológicos) se combinarão em paradoxal papel existencial. O ideal corpo-a-corpo com a realidade violenta, viva, e por si mesmo dramática, são a substância desta temática que o autor modela com inigualável vivacidade nos moldes da ficção realista.
Em capítulos curtos, recheados de diálogos essenciais ao bom andamento da trama, num tempo praticamente linear, o narrador distribui “ganchos” que, se não surpreendem o leitor, prendem a sua atenção, criando a  necessária volúpia de se virar a página e se prosseguir na leitura, o que vem a ser, de certa forma, o alvo e  glória de todo autor de ficção. Neste sentido, Borges já havia falado numa felicidade de escrever que passaria para a felicidade de ler, uma e outra se corresponderem, confirmando o autor em sua vocação plenamente realizada.
As personagens de O LEÃO E A BARONESA, fortes e tendendo para o tipo, são – pelo menos, algumas – construídas a partir de originais verdadeiros, o que de modo algum lhes tira o mérito e o que se constitui, como se sabe, numa prática de vários autores, a exemplo de Jorge Amado que levou para seus romances, sem maiores constrangimentos, figuras pitorescas, conhecidas, e eu nos seus livros se acham com nomes verdadeiros. O mérito de qualquer ficcionista passa além de tais detalhes: recai na sua técnica, na sua habilidade construtiva, no conjunto que semanticamente ergue com pequenas e grandes unidades narrativas.
Dentre os personagens do livro, uma se insinua na paixão do narrador e nas palavras com que molda o seu espaço: a capital, o Recife, cuja presença sugerida de vários modos é o cenário fundamental da trama. Ressalvo, porém, que teria ficado melhor se o Recife tivesse todas as letras no curso da obra. O Autor, no entretanto, optou por mudar nomes de logradouros e disfarçar – não se sabe exatamente por eu motivos –a verdadeira geografia da cidade. Em nada, insisto, perderia o seu trabalho ficcional se o Recife nele comparecesse tal como é. De corpo inteiro, o Recife elevaria ainda mais a qualidade literária de “O LEÃO E A BARONESA” pelo qual a ficção pernambucana está de parabéns.

Paulo Gustavo é poeta e escritor.
(Diário de Pernambuco – Panorama Literário – 23.09.1992)